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Foto: TV Globo
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Na Globo, Olavo de Carvalho erra sobre golpe militar e audiência de lives de Bolsonaro

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.abr.2019 | 07h00 |

O filósofo Olavo de Carvalho, considerado o guru ideológico do presidente Jair Bolsonaro (PSL), deu uma entrevista na madrugada da última quinta-feira (11) ao programa Conversa com Bial, do jornalista Pedro Bial, na TV Globo. Criticou a esquerda, elogiou o governo e disse que não tem qualquer influência política sobre o Palácio do Planalto. A Lupa checou algumas das frases ditas pelo filósofo. Confira o resultado:

“A derrubada do João Goulart foi obra exclusivamente da classe política, dos governadores e do Congresso”
Olavo de Carvalho, filósofo, em entrevista ao programa Conversa com Bial, em 11 de abril de 2019

FALSO

O afastamento do presidente João Goulart pelo Congresso ocorreu depois de uma série de ações tomadas pelos militares em 31 de março e 1º de abril de 1964. O golpe começou no dia 31 de março, quando o general Olímpio Mourão Filho, da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria do I Exército, em Juiz de Fora (MG), disparou telefonemas para iniciar o movimento de derrubada do governo. Depois, decidiu deslocar suas tropas para o Rio de Janeiro. A ação havia sido combinada nos dias anteriores com políticos de oposição, como o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto.

No dia 1º de abril, os atos dos militares já eram notícia nos jornais. “São Paulo adere a Minas e anuncia marcha ao Rio contra Goulart”, dizia a manchete do Jornal do Brasil. O texto da reportagem relata a escalada da rebelião: “A tropa do Exército sediada em Minas e a Polícia Militar mineira rebelaram-se ao amanhecer de ontem contra o governo federal, ocupando o estado, bloqueando fronteiras e ganhando a adesão do II Exército, com o lançamento, em São Paulo, de um manifesto do general Amauri Kruel, anunciando que suas tropas iam se fixar ‘numa posição de extrema responsabilidade para salvar a Pátria da infiltração comunista que se observa no governo’.”

De acordo com o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas (FGV), a situação já estava definida contra o governo na manhã de 1º de abril. Goulart, que estava no Rio, decidiu viajar para Brasília. Lá, percebeu que não havia segurança e foi então buscar apoio para se defender no Rio Grande do Sul. Foi apenas quando isso ocorreu, na madrugada de 2 de abril, que o presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a presidência da República, em sessão conjunta da Câmara e do Senado. Castello Branco foi eleito presidente da República pelo Congresso Nacional dias depois, em 11 de abril de 1964.

Procurado para comentar, Olavo de Carvalho não retornou.

Atualização feita às 10h30 do dia 15 de abril de 2019: Em resposta enviada por e-mail, Olavo de Carvalho afirmou que a rebelião civil foi anterior e que os militares só resolveram se mexer quando o povo já estava na rua. Disse ainda que Castello Branco não queria participar do movimento.


“Eles [a classe política] nem sabiam do negócio da movimentação militar”
Olavo de Carvalho, filósofo, em entrevista ao programa Conversa com Bial, em 11 de abril de 2019

FALSO

O governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, foi um dos principais articuladores do golpe com os militares. De acordo com o CPDOC-FGV, desde 1963 ele se opunha a João Goulart. Para isso, fazia contatos frequentes com militares que estavam descontentes com os rumos do governo. Em 28 de março de 1964, Magalhães Pinto encontrou-se com os generais Olímpio Mourão Filho, o comandante Carlos Luís Guedes e o marechal Odílio Denis, no aeroporto de Juiz de Fora (MG), para combinar que o governo deveria ser derrubado em 31 de março. Mourão Filho foi responsável por iniciar o golpe.

A movimentação dos militares contra o presidente João Goulart já era noticiada pela imprensa na manhã de 1º de abril, antes de ele ser destituído pelo Congresso Nacional. Além da manchete do Jornal do Brasil naquela data, que anunciava as ações tomadas por generais em São Paulo e no Rio, o Correio da Manhã, também do Rio de Janeiro, noticiava: “Estados já em rebelião contra JG [João Goulart]”. O próprio Goulart preferiu deixar o Rio, por não se sentir seguro, e rumar para Brasília. Seu afastamento só ocorreu na madrugada do dia 2 de abril.

Procurado para comentar, Olavo de Carvalho não retornou.

Atualização feita às 10h30 do dia 15 de abril de 2019: Em resposta enviada por e-mail, Olavo de Carvalho questionou quantos deputados e senadores estavam informados de uma trama militar secreta.


“A política do dia não me interessa absolutamente”
Olavo de Carvalho, filósofo, em entrevista ao programa Conversa com Bial, em 11 de abril de 2019

CONTRADITÓRIO

Olavo de Carvalho publica constantemente posts nos quais comenta sobre a política nacional em suas redes sociais. Apoiador do presidente Jair Bolsonaro, ele costuma defender as ações do governo e criticar a esquerda e a oposição. Dos 45 posts publicados por Carvalho no Facebook entre a meia-noite do dia 10 de abril e as 13h30 de 11 de abril, 16 faziam referência a fatos recentes da política nacional.

Às 12h43 do dia 11, por exemplo, o filósofo elogiou o desempenho dos 100 primeiros dias do governo. “Paralisia? Nenhum outro presidente fez em cem dias tanto quanto o Bolsonaro”, escreveu. Minutos antes, criticou o vice-presidente, Hamilton Mourão. “Mourão é cúmplice da difamação internacional do presidente que ele diz representar. Leiam a apresentação da conferência que ele deu no Wilson Center”, postou. Antes disso, havia feito outras críticas ao vice: “Mourão, FHC e Toffoli – a trinca mais adorável do ano.”

Procurado para comentar, Olavo de Carvalho não retornou.


“Live de quinta-feira [do Bolsonaro] atinge no máximo 100 mil pessoas”
Olavo de Carvalho, filósofo, em entrevista ao programa Conversa com Bial, em 11 de abril de 2019

FALSO

Desde que Bolsonaro começou a fazer transmissões ao vivo – as lives – como presidente, em 7 de março, apenas um dos seis vídeos publicados teve menos do que 1 milhão de visualizações no Facebook: o que ele gravou ao lado do seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), durante a viagem aos Estados Unidos. A primeira live promovida pelo presidente Jair Bolsonaro no Facebook, em 7 de março, teve 2,4 milhões de visualizações, maior audiência registrada na sua página.

No YouTube, os vídeos têm um desempenho pior, mas ainda assim costumam superar as 100 mil visualizações citadas por Olavo de Carvalho. Dos seis publicados, dois ficaram abaixo desse número e os outros foram assistidos mais de 120 mil vezes, cada um, na plataforma.

Procurado para comentar, Olavo de Carvalho não retornou.


“Um terço da população brasileira não tem internet”
Olavo de Carvalho, filósofo, em entrevista ao programa Conversa com Bial, em 11 de abril de 2019

VERDADEIRO

De acordo com o estudo TIC Domicílios 2017, feito pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), o Brasil tinha cerca de 150 milhões de usuários de internet em 2017. Esse número representaria 73% dos 206,8 milhões de habitantes estimados para aquele ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Assim sendo, 27% da população ainda não usava internet – dado muito próximo de um terço do total.

O levantamento Internet Usage in Brazil, mantido pelo site Statista, colocava o Brasil como o maior mercado na América Latina e o quarto do mundo em acesso à rede mundial em 2016.


“O Barack Obama já foi escolhido aqui o pior presidente americano desde a Segunda Guerra”
Olavo de Carvalho, filósofo, em entrevista ao programa Conversa com Bial, em 11 de abril de 2019

VERDADEIRO, MAS

Em 2 de julho de 2014, uma pesquisa feita pela Quinnipiac University indicou que, para 33% dos entrevistados, o democrata Barack Obama era considerado o pior presidente dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. Em segundo lugar, aparecia o republicano George W. Bush. Mas, em março de 2018, o mesmo instituto refez o levantamento e concluiu que, para 41% dos entrevistados, o título de pior presidente desde a Segunda Guerra Mundial deveria ser de Donald Trump. O segundo lugar ficou com Obama, com 21%. Checagem semelhante foi publicada pelo site de verificação americano Snopes.com.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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