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Foto: Licia Rubinstein, Agência IBGE Notícias
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A silenciosa (e triste) apatia do Brasil ante o corte de 25% no Censo 2020 do IBGE

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
15.abr.2019 | 13h00 |

Na primeira vez em que tomou um microfone e fez um pronunciamento como presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Susana Cordeiro Guerra foi direto ao ponto: “Em oito anos, o IBGE perdeu mais de 30% de seus funcionários e corre o risco de perder mais 30% com os aposentáveis este ano.” No dia 22 de fevereiro de 2019, Susana sabia que um desafio gigantesco a aguardava e, mesmo assim, não recuou um milímetro: “em respeito às boas práticas de qualidade e a responsabilidade que são tradição do IBGE, nossa prioridade vai ser o Censo” 2020.

Sentado a seu lado, naquela cerimônia, estava o ministro da Economia, Paulo Guedes, que, ao se pronunciar, elogiou o órgão e reconheceu que o IBGE “sempre foi um pano de fundo na vida de todos nós, brasileiros.” Em seguida, o ministro sugeriu, para garantir a realização do Censo em sua plenitude, que o instituto tomasse duas medidas drásticas. A primeira seria a venda de alguns de seus prédios “com vista para o mar.” A segunda, a redução do número de perguntas feitas em seus questionários. Em sua opinião, brincou, “quem pergunta muito acaba descobrindo demais.”

Pouco mais de um mês depois da posse de Susana, o presidente Jair Bolsonaro foi à TV Record e disse que o IBGE “é uma coisa que não mede a realidade.” Já não restam dúvidas de que se equivocou. Mas, na semana passada, o jornal Valor Econômico revelou em primeira mão algo que se temia: o orçamento do Censo 2020 terá um corte de 25%. Em nota, o instituto confirmou.

Ao que tudo indica, o Brasil terá menos recenseadores, e os salários pagos a esse grupo serão menores. Os questionários aplicados no Censo 2020 serão ajustados para enxergar apenas as informações “fundamentais”, e os pesquisadores deverão ficar menos tempo na casa dos cidadãos – de forma a poder passar por mais domicílios num mesmo dia de trabalho.

Procurado pelo Valor, o instituto disse que “o objetivo do IBGE é realizar um Censo menos custoso, com qualidade e sem perda de informação”. Fiquei em dúvida: um questionário menor obviamente recolherá menos informações. Disso ninguém pode duvidar, não é? A gigantesca operação estava inicialmente avaliada em R$ 3,4 bilhões e seria capaz de visitar mais de 70 milhões de domicílios nos 5.570 municípios de todo o país. Entendo que seguirá deste tamanho. Mas saberemos menos sobre essas pessoas – nós mesmos, os brasileiros.

Como fact-checker profissional, acompanho com preocupação a evolução da relação governo federal-IBGE. Talvez seja excessivo e redundante dizer que os dados produzidos pelo instituto são vitais para o meu dia a dia. Servem de matéria-prima diária para o trabalho dos verificadores. Qualquer tentativa de dificultar a produção ou o acesso a eles coloca meus pares em estado de total alerta e profunda preocupação.

Argentina e Venezuela são países próximos que padeceram ou padecem da falta de estruturas oficiais capazes de oferecer estatísticas sobre suas populações e economias. Não desejamos que essa situação cruze fronteiras e aterrisse por aqui.

Afinal, tenho dificuldades para imaginar que brasileiros – independentemente da corrente política que sigam – saiam de suas casas e encham avenidas e praças para defender a atuação dos estatísticos. Tampouco imagino que algum dia ouvirei panelaços em favor do livre trabalho do IBGE ou em defesa do orçamento robusto de que o órgão precisa para atuar. Mas não duvido – nem por um instante sequer – que todos os cidadãos de bem que aqui vivem desejam que as políticas públicas municipais, estaduais e federais sejam traçadas e implementadas a partir de dados de realidade, e não em ficções científicas.

O ministro Paulo Guedes acerta ao dizer que quem muito pergunta muito descobre. Mas é exatamente disso que o Brasil precisa: se descobrir mais e mais. Sem dados robustos e sem indivíduos capazes de analisá-los, as políticas governamentais não passarão de chutes populistas. Serão erros e acertos feitos na base da ignorância e regados por rios de impostos. Fica aqui minha defesa do Censo 2020. Que o Brasil seja capaz de atualizar todos os dados angariados em 2000 e nas décadas anteriores para que as séries históricas sigam intactas e possam refletir a evolução (ou não) da nação.

*Esta coluna foi publicada no site da revista Época em 15 de abril de 2019.

Editado por: Natália Leal

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