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Reajuste do diesel, Previdência e Censo do IBGE: erros de Paulo Guedes no Central GloboNews

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.abr.2019 | 07h01 |

Na última quarta-feira (17), o ministro da Economia, Paulo Guedes, concedeu uma entrevista ao Central GloboNews. O economista falou sobre Petrobras, reforma da Previdência e crescimento econômico brasileiro. Também criticou o Censo do IBGE e errou ao falar sobre a pesquisa. A Lupa verificou algumas frases ditas pelo ministro. Veja:

“Em nenhum momento ele [Bolsonaro] mandou suspender o reajuste ou mandou não dar o reajuste [do preço do diesel]”
Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

FALSO

A Petrobras anunciou aumento no preço do diesel no dia 11 de abril. Em média, o valor do litro do combustível subiria 5,7%, passando de R$ 2,1432 para R$ 2,2662 nas refinarias. Ao ser comunicado sobre o reajuste, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) ligou para a empresa e determinou que a medida fosse suspensa. No final daquela tarde, a Petrobras divulgou uma nota, explicando o adiamento: “A Petrobras informa que, em consonância com sua estratégia para os reajustes dos preços do diesel, divulgada em 26/03/19, revisitou sua posição de hedge e avaliou, ao longo do dia, com o fechamento do mercado, que há margem para espaçar mais alguns dias o reajuste no diesel.”

Na última segunda-feira (15), Guedes, o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco e outras autoridades se reuniram para discutir a política de preços da estatal. Em seguida, ainda no mesmo dia, Guedes e Bolsonaro se encontraram. E, em 17 de abril, a Petrobras anunciou um reajuste do preço do diesel nas refinarias de até 5,147%, ou seja, menor do que o aumento que havia sido anunciado anteriormente.

Procurada para comentar, a assessoria de Paulo Guedes não retornou.


“A inflação está abaixo de 4% [ao ano]”
Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

EXAGERADO

Nem analisando os últimos 12 meses de inflação nem levando em conta a previsão para o fim deste ano obtém-se um dado de inflação “abaixo de 4%” ao ano, como sugeriu o ministro.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou aceleração e ficou em 0,75% em março. Considerando o acumulado dos últimos 12 meses, o IPCA está em 4,58% – valor 14,5% acima do citado pelo ministro da Economia.

Em 2019, a inflação acumulada no período que vai de janeiro a março pelo IPCA é de 1,51%. Em sua edição mais recente, de 12 de abril, o boletim Focus, do Banco Central – um relatório que reúne as expectativas do mercado sobre os números da economia –, prevê que o índice fechará o ano em 4,06% – ou seja, também acima do que Guedes falou.

Procurada para comentar, a assessoria de Paulo Guedes não retornou.


“Essa reforma [da Previdência] era para ter sido feita pelo Fernando Henrique [Cardoso]. Por um voto não fez”
Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

EXAGERADO

No seu primeiro mandato como presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) apresentou uma proposta de reforma da previdência. O projeto original não continha uma definição sobre a idade mínima para aposentadoria no setor privado, mas estabelecia que isso deveria ser definido por lei complementar.

No entanto, durante a tramitação da proposta, o Senado aprovou a idade mínima em 60 anos para homens e 55 para mulheres. Quando a matéria voltou ao plenário da Câmara, esse artigo foi votado como destaque, e recebeu 307 votos – um a menos do que o necessário para sua aprovação. O presidente Jair Bolsonaro, então deputado federal pelo PPB, foi um dos deputados que votaram contra. Foi a esse fato que Guedes se referiu.

Porém, a reforma proposta por FHC foi aprovada e hoje é a Emenda Constitucional 20/1998. Portanto, é exagerado dizer que não foi feita, como menciona o ministro.

Procurada para comentar, a assessoria de Paulo Guedes não retornou.


“O Censo nos países mais avançados do mundo tem 10 perguntas, 12 perguntas”
Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

FALSO

A Organização das Nações Unidas disponibiliza os questionários do censo de grande parte de seus países membros. Entre os que fazem parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – considerados desenvolvidos -, Áustria, Japão, Coreia do Sul e Suécia (de 1990) têm listas com entre 14 e 19 perguntas. Apenas os Estados Unidos têm um questionário curto como o mencionado por Guedes, com apenas 10 perguntas. Em todos os outros, a lista contém mais de 20 questões, podendo passar de 100, como no caso de Israel.

Procurada para comentar, a assessoria de Paulo Guedes não retornou.


“O Brasil (…) faz 360 perguntas [no Censo]”
Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

FALSO

No Censo 2010, o último realizado, o IBGE utilizou dois questionários. O primeiro, o Questionário Básico, foi aplicado a todos os domicílios, e tem 49 perguntas. O segundo, o Questionário da Amostra, foi respondido em cerca de 11% dos domicílios do país e tem 119 perguntas – 70 novas além das 49 do Questionário Básico. A seleção da amostra que responde a essa lista de perguntas é aleatória.

Segundo o IBGE, o Questionário da Amostra fornece informações mais detalhadas sobre aspectos demográficos do país, utilizando uma metodologia por amostragem. “Aplicar um questionário extenso em todos os domicílios do País não é uma alternativa viável diante dos custos envolvidos e do prazo que seria necessário para liberar os resultados”, diz o site do instituto.

O número de questões que serão utilizadas no Censo 2020 ainda não foi definido.

Procurada para comentar, a assessoria de Paulo Guedes não retornou.


“Qual é a média de crescimento dos últimos dez anos? 0,6%”
Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

EXAGERADO

O Brasil teve um crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,17% ao ano no período de 10 anos que vai de 2008 a 2018, segundo as Contas Nacionais Trimestrais (CNT) do IBGE. No período anterior, de 1998 a 2008, o PIB aumentou em média 3,45% ao ano. Veja a variação desde 1996 aqui.

Procurada para comentar, a assessoria de Paulo Guedes não retornou.


“O desemprego lá [nos Estados Unidos] é 3%”
Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

EXAGERADO

No último dia 5 de abril, o Current Employment Statistics (CES) informou que a taxa de desemprego foi de 3,8% em março de 2019 nos Estados Unidos. Segundo o CES, esse indicador permaneceu inalterado com relação ao mês anterior (fevereiro), com um total de 6,2 milhões de desempregados.   

Procurada para comentar, a assessoria de Paulo Guedes não retornou.


“Tem 50 milhões [de pessoas] que pagam [a previdência], estão no mercado formal”

Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

VERDADEIRO, MAS

Segundo o Boletim Estatístico da Previdência Social (BEPS) de janeiro de 2019, em 2017, 51,1 milhões de pessoas contribuíam para a previdência, considerando somente o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), ou seja, o setor privado. Nem todos, porém, estão no mercado formal. Dos 51,1 milhões contribuintes, 9,4 milhões eram contribuintes individuais, grupo que inclui desde trabalhadores autônomos até empregadores, e 1,2 milhão eram contribuintes facultativos – ou seja, pelo menos 10,6 milhões não estavam contratados em regime CLT.

Além disso, esse número não inclui servidores públicos contribuintes de regimes próprios da Previdência (RPPS). Se considerados, esse número sobe para 58,2 milhões, segundo a mesma edição do boletim.


“A população economicamente ativa é 106 milhões de pessoas”

Paulo Guedes, ministro da Economia, em entrevista ao Central GloboNews no dia 17 de abril de 2019

VERDADEIRO

O IBGE não trabalha com o conceito de população economicamente ativa desde o fim da Pesquisa Mensal do Emprego, em 2016. O levantamento foi substituído pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que tem abrangência nacional e mede um conceito similar, pessoas na força de trabalho, entre outros indicadores.

A edição mais recente da Pnad Contínua, que considera o trimestre de dezembro a fevereiro, identificou 105,2 milhões de pessoas na força de trabalho. O número é bem próximo daquele citado por Guedes.

Editado por: Natália Leal

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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