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Lula erra ao falar de seus governos e da eleição de 2018

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.abr.2019 | 07h01 |

Na última sexta-feira (26), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), preso desde abril do ano passado em Curitiba, concedeu uma entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País. Em setembro de 2018, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux tinha proibido o ex-presidente de falar à Folha na prisão. No dia 18 de abril deste ano, no entanto, o atual presidente da Corte, Dias Toffoli, decidiu liberar o petista para receber os veículos que haviam solicitado um encontro.

Em sua primeira entrevista após a prisão, Lula comentou as ações de seu governo e as eleições de 2018. A Lupa analisou algumas frases ditas por ele. Veja o resultado a seguir:  

“A previdência era superavitária no meu governo”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

FALSO

Em nenhum dos oito anos nos quais Lula governou o Brasil (2003-2010), a previdência foi superavitária. No Regime Geral de Previdência Social, o déficit oscilou, em valores nominais, de R$ 28,2 bilhões a R$ 35,1 bilhões. Nos regimes próprios da União, incluindo os militares, o déficit foi de R$ 59,4 bilhões a R$ 86,1 bilhões. Os dados são dos Relatórios Resumidos de Execução Orçamentária do Tesouro Nacional.


“Esse cidadão aqui (…) juntou US$ 370 bilhões de reservas [internacionais]”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

EXAGERADO

Segundo o Banco Central, em dezembro de 2010, último mês de Lula como presidente, as reservas internacionais do país estavam em US$ 288,5 bilhões. Quando Lula assumiu a presidência, eram US$ 37,8 bilhões. O crescimento, portanto, foi de US$ 250,7 bilhões. As reservas atingiram o patamar citado por Lula no dia 19 de abril de 2012, já na gestão de Dilma Rousseff.


“Eu cresci 16 pontos [em intenção de voto] aqui dentro [depois de preso, durante a campanha eleitoral]”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

EXAGERADO

O crescimento da intenção de voto em Lula em 2018 não foi tão grande após sua prisão. A alta oscilou entre dois e 14 pontos. Segundo o Datafolha, Lula tinha entre 34% e 37% das intenções de voto em 31 de janeiro de 2018. Em 16 de abril, nove dias após a prisão, o petista oscilava entre 30% e 31%. No dia 22 de agosto, na última pesquisa Datafolha com Lula entre os presidenciáveis, ele tinha 39% das intenções de voto. Nos levantamentos do Ibope, o petista tinha 35% das intenções de voto em outubro de 2017 – a última pesquisa antes de ele ser detido -, 33% em junho de 2018 e 37% em agosto do mesmo ano. Já o instituto Vox Populi, vinculado ao PT, indicava que Lula tinha 42% das intenções de voto em novembro de 2017, 56,1% em maio de 2018 e, em julho, o percentual havia diminuído para 41%.


“Em 2006, terminei meu mandato com 87% de bom e ótimo, 10% de regular e 3% de ruim e péssimo”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

FALSO

Em 2006, quando o ex-presidente Lula encerrou o seu primeiro mandato, 52% dos brasileiros avaliaram seu governo como ótimo ou bom, 34%, como regular e 14%, como ruim ou péssimo. Os dados são do Datafolha, em 18 de dezembro de 2006. O Instituto Lula informou que o ex-presidente se referia ao fim de seu segundo mandato, em 2010. Naquele ano, o Datafolha mostrou que 83% dos brasileiros consideravam o governo Lula ótimo ou bom, 13%, regular e 4%, ruim ou péssimo.


“O país [Peru] cresceu 5% ao ano na mão do [ex-presidente Alejandro] Toledo, do [ex-presidente] Alan Garcia (…)”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

VERDADEIRO

Alejandro de Toledo governou o Peru entre 2001 e 2006, e Alan García o sucedeu, de 2006 a 2011. Neste período, o Peru cresceu, em média, 5,6% ao ano. No mandato de Toledo, o crescimento médio foi de 4,8%. No de García, foi de 6,6% ao ano. Os dados são do Fundo Monetário Internacional (FMI).


“(…) e eles [Toledo e Alan Garcia] terminam o mandato com 10% de aprovação”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

FALSO

As pesquisas do instituto Ipsos Perú de julho de 2006 e julho de 2011, mostram que Toledo (2001-2006) terminou o mandato com 33% de aprovação. García (2006-2011) teve um desempenho melhor e concluiu seu mandato com 42% de aprovação. Outro instituto de pesquisa, a Compañía Peruana de Estudios de Mercado y Opinión Pública SAC-CPI, mostra Toledo com 36,2% de aprovação e García com 46,2% de aprovação. Assim, o dado real é mais do que o dobro do citado pelo ex-presidente.


“Em 2013, a Dilma [Rousseff] tinha quase que 75% de preferência eleitoral neste país”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

EXAGERADO

Em 2013, o Datafolha publicou cinco levantamentos de intenção de voto para a eleição de 2014. A ex-presidente Dilma Rousseff tinha, no máximo, 58% da preferência do eleitorado naquele ano, registrados na pesquisa feita de 20 a 21 de março. Já segundo o Ibope, o potencial máximo de votação de Dilma alcançou 60%, também em março.


“Eu mostrei pra ele [Geraldo Alckmin] que quem tinha feito o acordo para financiar o metrô de Caracas [na Venezuela] foi o FHC”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

VERDADEIRO, MAS

O BNDES financiou três operações para a construção do metrô de Caracas, na Venezuela – todas para a construtora Odebrecht, que executou as obras. O primeiro contrato, de fato, foi assinado durante o governo FHC, em 31 de julho de 2001, no valor de US$ 107,5 milhões. Mas os outros dois foram feitos durante a administração de Lula. Em 2004, o BNDES emprestou US$ 78 milhões ao país vizinho e, em 2009, celebrou o maior dos três contratos para a obra do metrô venezuelano, no valor de US$ 527,8 milhões. A obra ligava a cidade de Los Teques com a capital venezuelana. Os dados são do próprio BNDES.


“[No meu governo] O Brasil quadruplicou as exportações”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

VERDADEIRO

Em 2002, último ano do governo de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil exportou US$ 60,3 bilhões. Em 2011, quando Lula concluiu seu mandato, as exportações brasileiras alcançaram US$ 260 bilhões. As vendas do Brasil para o exterior cresceram, portanto 4,3 vezes. Os dados são do Comex Stat, portal de estatísticas do Ministério da Economia.


“Eu tinha sido multado em R$ 32 milhões (…).  O STJ diminuiu para R$ 2 milhões”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País no dia 26 de abril de 2019

VERDADEIRO, MAS

Em agosto de 2018, a Justiça Federal determinou que Lula pagasse R$ 31.195.712,78 no caso do tríplex do Guarujá. O valor é dividido entre multa (R$ 1,2 milhão), reparação de danos (R$ 29,8 milhões) e custas processuais (R$ 99,32). No dia 23 de abril, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reduziu o valor relativo à reparação para R$ 2,4 milhões. Assim, o valor total se aproxima de R$ 3,6 milhões – e não de R$ 2 milhões, como disse Lula.

*Esta coluna foi publicada pela edição impressa do jornal Folha de S.Paulo em 30 de abril de 2019.

Editado por: Natália Leal

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