A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Principal alvo de Weintraub, ciências sociais e humanas recebem um quarto das bolsas de pesquisas do país

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.maio.2019 | 07h00 |

Apontadas como as áreas “produtivas” para a pesquisa pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, as ciências Exatas, Biológicas, Agrárias e da Saúde e as Engenharias já recebem cerca de dois terços de todas as bolsas de estudo fornecidas pelo governo federal. Ao todo, são 119,3 mil benefícios concedidos a essas áreas entre os 185,4 mil disponíveis pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Desde que o governo federal anunciou os contingenciamentos em verbas para as universidades federais, o assunto tem sido o foco dos debates na redes sociais. A Lupa analisou os números relacionados ao ensino superior e mostrou que as matrículas em graduações que o governo considera que tenham “retorno imediato ao contribuinte” já superam as de Filosofia e Sociologia juntas em universidades federais. Também mostrou que as instituições públicas são responsáveis por 80% dos programas de pós-graduação disponíveis atualmente no Brasil.

Na última quarta-feira (15), manifestações contra os cortes tomaram conta das ruas de diversas capitais do país. Ao mesmo tempo, Weintraub falou aos deputados na Câmara sobre a redução nos repasses da pasta. O ministro criticou a suposta concentração de bolsas de ensino nas áreas de Ciências Sociais e Humanas. “As ciências sociais aplicadas, humanidades e linguística geram pouquíssimas publicações com impacto científico. (…) Onde estão as bolsas? Elas estão justamente nas áreas que não geram a produção científica”, disse Weintraub.

Os dados públicos sobre ensino superior no Brasil, no entanto, mostram um cenário diferente do descrito pelo ministro. As ciências Exatas, Biológicas, Agrárias, da Saúde e as Engenharias, que, segundo Weintraub, “baseiam a pesquisa científica”, concentram 64,3% das bolsas. Ciências Humanas, Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes, por sua vez, recebem 24,3% delas.

A afirmação de que há concentração da pesquisa em Ciências Humanas, Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes também é falsa quando consideramos o número de alunos de pós-graduação. Na rede federal, 30,8% dos pós-graduandos estão em programas em uma dessas três áreas. Essa proporção é muito maior na rede privada, na qual esses cursos respondem por 55,1% do total de alunos.

Produção científica brasileira se destaca nas Biológicas, Agrárias e da Saúde

Segundo o SCImago, portal de indicadores da produtividade científica mundial, o Brasil foi o 14º país que mais produziu artigos científicos no mundo em 2017, último ano com dados disponíveis: 73.697. Isso representa 2,1% do total da produção mundial.

Apesar de parecerem modestos, esses números mostram uma evolução significativa no status do país. Em 1996, primeiro ano com dados disponíveis, o Brasil era apenas o 21º maior produtor, responsável por 0,7% dos artigos no mundo.

O número de publicações cresceu, mas o impacto das pesquisas segue sendo um problema. Esse impacto é medido pelo número de citações feitas de um artigo em outros trabalhos científicos. Em média, cada artigo na base de dados do SCImago, entre 1996 e 2017, foi citado 17,4 vezes. Entre os produzidos no Brasil, a média é menor: são 10,4 citações.

Em algumas das 27 áreas de conhecimento listadas pelo SCImago, a ciência brasileira se destacou em 2017. Em odontologia e veterinária, o Brasil foi o segundo país que mais produziu artigos no mundo (10,5% e 8,5% do total, respectivamente, atrás somente dos Estados Unidos em ambos os casos). Ficamos em 3º lugar no ranking para ciências biológicas e da agricultura (4,8% da produção total).

 

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo