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Meio Ambiente: Salles exagera sobre coleta de lixo, e Araújo nega mudanças climáticas

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
08.jun.2019 | 07h52 |

O combate ao aquecimento global não é prioridade no governo de Jair Bolsonaro. Tanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, quanto o de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, têm feito declarações públicas em que contestam a relevância do tema. Salles compareceu a uma sessão no Senado, referente ao Dia Mundial do Meio Ambiente, e destacou que a pasta cuidará prioritariamente de problemas urbanos e de licenciamento ambiental, além de rever unidades de conservação para resolver conflitos. Araújo, por sua vez, questionou informações referentes às mudanças climáticas em sessão na Câmara na última semana. A Lupa checou algumas declarações recentes dos dois ministros. Confira:

“[Resíduo sólido e lixo] Também outro quadro em que até hoje não se avançou, quer seja na análise municipal do tema – ou seja, como estão os municípios brasileiros –, quer seja com relação a políticas públicas de outros entes federativos sobre o tema”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em pronunciamento na Sessão do Dia Mundial do Meio Ambiente no Senado, em 6 de junho de 2019

EXAGERADO

Os dados do estudo “Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil”, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), mostram que a quantidade de resíduos sólidos urbanos (RSU) coletados em 2017 cresceu 32% na comparação com 2010. Em 2017, foram coletados 71,6 milhões de toneladas de RSU, enquanto, em 2010, foram recolhidos 54,1 milhões de toneladas.

Além disso, os estudos da Abrelpe apontam ainda que o número de municípios com iniciativas de coleta seletiva aumentou 22% de 2010 para 2017. No levantamento mais recente divulgado pela entidade, 3.923 cidades tinham coleta seletiva, o que correspondia a 70,4% do total de municípios no Brasil. Em 2010, o número era menor: 3.205 – o equivalente a 57,6% das cidades brasileiras.

Em 2010, com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) ficou estabelecida a política de logística reversa, ou seja, o setor empresarial passou a ser responsável pelo descarte de seus produtos ou de resíduos derivados deles. Desde então, a destinação adequada de embalagens de agrotóxicos, por exemplo, aumentou no país. Em 2010, foram descartadas corretamente 31.266 toneladas de embalagens. Esse número aumentou para 44.512 em 2017.   

Além da reciclagem, os resíduos sólidos podem ser descartados em lixões, aterros controlados ou aterros sanitários. Os dados do Panorama divulgados pela Abrelpe indicam que o número de  aterros sanitários no Brasil é maior do que a quantidade de aterros controlados e lixões. Em 2017, existiam 2.218 aterros sanitários, 1.742 aterros controlados e 1.610 lixões.

Procurado para comentar, o ministro Ricardo Salles não retornou.


“O governo, no caso específico do [Ministério do] Meio Ambiente, representado aqui pelo ministro, não nega a existência de mudanças climáticas”

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em pronunciamento na Sessão do Dia Mundial do Meio Ambiente no Senado, em 6 de junho de 2019

VERDADEIRO, MAS

Embora o ministro Ricardo Salles não tenha negado a ocorrência de mudanças climáticas, deu pouca importância ao tema em manifestações anteriores. Além de minimizar o impacto do aquecimento global na agenda do governo, ele colocou em dúvida o papel do homem na elevação de temperatura no planeta.

Logo após ser nomeado como ministro do Meio Ambiente, em dezembro do ano passado, Salles afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que o debate sobre aquecimento global não deveria ser priorizado. “A discussão se há ou não há aquecimento global é secundária”, declarou. “Porque as questões tangíveis de preservação do meio ambiente, havendo ou não havendo aquecimento global, têm que ser feitas. Portanto, essa discussão neste momento é inócua.”

Já no governo, questionou a responsabilidade dos seres humanos nas alterações climáticas, durante audiência na Comissão do Meio Ambiente do Senado, em 27 de março. “As variações climáticas são perceptíveis, seja o regime de chuvas, nível do oceano, enfim, há uma série de critérios que nós poderíamos elencar aqui exaustivamente”, disse. “A discussão a seguir é: qual é o percentual de contribuição das atividades humanas para esse aquecimento? Quanto disso é decorrente da atividade humana e quanto é consequência natural da dinâmica do planeta, da natureza? Nesse aspecto, (…) há verdades absolutas e há questões de bom senso e de equilíbrio de parte a parte.”

Outros integrantes do governo, no entanto, como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, colocam em dúvida a própria existência do aquecimento global. Em declarações públicas, Araújo tem questionado estudos cientîficos sobre o tema. Chegou a dizer que o aumento da temperatura registrado pelos pesquisadores se deveu à localização das estações de medição, que estariam hoje em áreas mais urbanizadas e, portanto, mais quentes (veja abaixo).


“Muitas estações [meteorológicas nos Estados Unidos] que até os anos 1930,1940, ficavam no meio mato, hoje ficam no asfalto. É óbvio que aquela estação vai registrar um aumento de temperatura”
Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, em reunião da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara, dia 29 de maio de 2019

FALSO

Em 2009, um levantamento feito pelo site surfacestations.org, do jornalista Anthony Watts, mostrou que mais de 800 estações meteorológicas de superfície estariam em locais inapropriados que poderiam causar distorções em medições históricas. No mesmo ano, um estudo científico mostrou que as estações em questão mostraram variações históricas de temperatura máxima inferiores à média das estações americanas. Ou seja, o estudo citado pelo ministro já foi refutado há quase 10 anos.

O levantamento de Watts, que não tem formação científica em meteorologia ou física, questionava a confiabilidade das medições históricas pela localização, visto que muitas delas estavam em áreas asfaltadas, ou próximas de fontes emissoras de calor como exaustores de sistemas de ar-condicionado.

No mesmo ano, o professor de física da Universidade da Carolina do Norte Matthew J. Menne revisou o levantamento de Watts. Embora Menne aponte que, de fato, as características de exposição das estações em questão estejam “longe do ideal”, o estudo mostrou que as medições feitas por elas mostram uma variação de temperatura máxima ligeiramente inferior a de estações em condições adequadas.

O estudo conclui que, ao contrário do que o levantamento de Watts sugere, o conjunto de dados históricos de temperatura não foi afetado significativamente pela urbanização ou pela localização inadequada de estações metereológicas.

Em 2011, estudo do doutor Richard Müller, professor de física na Universidade de Berkeley que se dedica a avaliar dúvidas colocadas por céticos das mudanças climáticas, também concluiu que as ilhas de calor não influem na medição histórica de temperatura.

Vale pontuar, ainda, que as medições de temperatura não se baseiam somente em medições de temperatura em terra. Dados que confirmam que o planeta está ficando mais quente também são fornecido por satélites que medem a temperatura da atmosfera, por avaliações da temperatura da água dos oceanos, pela quantidade de gelo glacial e por inúmeras outras métricas.

Procurado para comentar, Araújo não retornou.


“O que se verifica é que basicamente todos os modelos [de mudança climática do IPCC], desde o começo dos anos 1990, têm previsto uma mudança muito abrupta de temperatura que não tem se verificado”
Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, em reunião da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara, dia 29 de maio de 2019

FALSO

Ao contrário do que o ministro afirma, as medições atuais de temperatura média global estão dentro das previsões realizadas já no primeiro relatório do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), de 1990. No Anexo I do relatório, está previsto um aumento de temperatura entre 0,8°C e 0,4°C até o ano de 2020 dependendo das ações de mitigação realizadas a partir de então.

Segundo o instituto Berkeley Earth, o crescimento da temperatura média do planeta está dentro dessa margem. Em 1990, ano que o relatório foi publicado, a temperatura média global esteve 0,361°C acima da temperatura de referência utilizada pelo instituto. Em 2018, esse valor foi de 0,774°C. Ou seja, uma crescimento de 0,413°C.

É importante pontuar que 1990 foi um ano mais quente que os anteriores, e 2018 foi um ano mais frio e, ainda assim, teve a quarta maior média de temperatura na série histórica. Quando comparamos a média de cinco anos anteriores, essa diferença cresce para 0,574ºC.

Esses números aumentam quando consideramos somente a temperatura em terra firme, ou seja, descontamos as medições da temperatura em oceanos. Esse valor cresceu de 0,603ºC em 1990 para 1,126ºC em 2018. Veja todos os dados aqui.

Procurado para comentar, Araújo não retornou.

Editado por: Natália Leal

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