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Cinco dias, oito notícias falsas e milhares de shares: o rastro de desinformação sobre os diálogos da Lava Jato

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.jun.2019 | 07h00 |

Que a revelação de conversas privadas, travadas em aplicativos de celular entre procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato e o ex-juiz do caso e hoje ministro, Sérgio Moro, provocaria um tsunami de notícias falsas não havia qualquer dúvida. Mas, passados 11 dias da revelação desse conteúdo, vale a pena olhar para trás e ver o dano causado pelas mentiras virtuais. Vale observar que o ciclo das notícias falsas não poupa ninguém. Não pondera, não respira. Vai passando, sem deixar ninguém de pé.

Em cinco dias úteis de verificação, os checadores flagraram ao menos oito frases e/ou fotos falsas circulando no Facebook. Juntas, elas foram compartilhadas mais de 14 mil vezes. Obviamente o ministro Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol aparecem no centro desse turbilhão. Viralizou, por exemplo, uma falsa reprodução fotográfica de um diálogo que teria sido extraído do conjunto de divulgações feitas pelo site The Intercept Brasil. Nessa montagem, Moro “diz” a Dallagnol que a sentença de condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ‘já está combinada’. Falso.

O site The Intercept Brasil foi procurado e informou, em nota, que a conversa não consta nos arquivos que estão sendo divulgados pelo portal. “Esta imagem não foi produzida pela equipe do Intercept Brasil e nós não somos responsáveis pela divulgação dela”. Mas só esse conteúdo foi compartilhado por pelo menos 34 páginas do Facebook na última semana.

As notícias falsas se voltaram – como também era esperado que acontecesse – contra o jornalista Glenn Greenwald, do The Intercept. Mas o massacre virtual se espalhou por sua família. A frase “Glenn Greenwald (…) e seu par sexual (David Miranda-PSOL) são acusados de atentar contra a segurança pública do Reino Unido”, estampada em uma imagem com o rosto do jornalista, foi compartilhada 5,9 mil vezes no Facebook e é falsa. Tal fato jamais ocorreu.

Houve pedidos de prisão a Greenwald, baseados em desinformação. Um falso tuíte vindo da conta oficial do Telegram ganhou força nas redes com a frase: “Urgente! A invasão já seria crime, agora o Telegram confirma que o texto divulgado foi manipulado. Atitudes imediatas, tirar o site do ar e prender Glenn Greenwald!”.  

Tratava-se, no entanto, de uma montagem, com vários erros de português. A imagem, compartilhada quase 2 mil vezes no Facebook, foi colada sobre a resposta oficial dada pelo Telegram a um usuário que a consultou sobre o vazamento das conversas. Na mensagem original, o Telegram afirma o seguinte: “De fato, não há evidências de qualquer hack. Muito provavelmente foi um malware [software malicioso] ou alguém não usou a senha de verificação em duas etapas”.

E ainda sobrou “fake news” para a OAB, o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Por que, nessas horas, os ódios ficam todos à flor da pele.

Uma foto feita no dia 11 de junho tentou “provar” que a OAB só havia aconselhado o afastamento de Moro e Deltan de seus respectivos cargos depois de uma reunião do presidente da entidade com parlamentares de esquerda. O posicionamento da Ordem, no entanto, ocorreu um dia antes da fotografia. Ah! E também vale ressaltar que é falsa a informação de que a OAB pediu o fim da Lava Jato.

Mourão, ao contrário do que pregam as redes, também não pediu a punição de Moro. O perfil falso responsável pela publicação de um texto em seu nome no Twitter usa a letra “I” maiúscula no lugar do “L”de Hamilton e não tem o selo de conta verificada. Mas poucos – pouquíssimo – são os usuários de internet que se atentam a isso. O conteúdo sobre Mourão e Moro foi compartilhado mil vezes no Facebook.

Paulo Guedes também não postou no Twitter uma foto do jornalista Glenn Greenwald cumprimentando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não foi às redes sociais criticar o vazamento das conversas de Telegram do caso #VazaJato. O ministro, destaca sua assessoria de imprensa, sequer tem conta pessoal no Twitter. Mas a falsa postagem já teve mais de mil compartilhamentos.

E assim o Brasil (não) avança: imerso nas revelações de polêmicas conversas, à espera de possíveis investigações e soterrado em muitas, muitas notícias falsas.

Editado por: Natália Leal

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