A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: IFCN/Uğurcan Akın
Foto: IFCN/Uğurcan Akın

O que significa a discreta presença do Brasil no maior evento de checagem do mundo

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
26.jun.2019 | 07h18 |

Na semana passada mais de 250 checadores de todo o mundo reuniram-se na Cidade do Cabo, na África do Sul, para participar do Global Fact – o maior encontro de fact-checking do planeta. No evento anual, a comunidade de verificadores se reúne para debater os avanços que teve nos últimos 12 meses e os obstáculos que enfrenta. O Brasil, no entanto, só enviou três participantes. Estavam lá representados Agência Lupa e Aos Fatos.

No fim do ano passado, com o desfecho das eleições, o país assistiu ao que parecia ser o boom do fact-checking por aqui. Em novembro de 2018, havia no Brasil ao menos oito plataformas de checagem ativas, além do consórcio Comprova, que conseguiu reunir 24 redações do país para verificar informações que circulavam pela internet.

Naquele momento, parecia que finalmente o Brasil havia se atinado para a importância desse modelo de jornalismo – que busca fatos concretos para colocar à prova frases, fotos, vídeos e áudios compartilhados à exaustão. Parecia mesmo que o país estava pronto para deixar para trás seu atraso nesse quesito. Fact-checking existe nos Estados Unidos, no modelo em que conhecemos hoje, desde os anos 1990, quando George Bush pai tentava se reeleger. Rendeu um prêmio Pulitzer ao site americano Politifact em 2009.

Mas só em 2018 o jornalismo brasileiro resolveu investir na verificação de conteúdos. Parecia ser um passo definitivo, no rumo certo. Mas a ausência de vários veículos de comunicação no Global Fact da África do Sul me fez titubear. Será que tudo que foi feito em 2018 era apenas temporário? Será que a checagem de fatos no Brasil ficará colada às eleições e será vista de forma bienal? Ou pior: será que foi apenas marketing e não desejo real de buscar a verdade por trás de tudo que se vê, se ouve e se fala em território nacional?

A International Fact-Checking Network, organização que dirijo desde março, mantém um código de ética e, com base nele, faz auditorias anuais em mais de 60 plataformas de checagem. O intuito disso é garantir que o produto final entregue pelos checadores de fatos em seus países seja transparente, justo e apartidário. No Brasil, atualmente, há três plataformas com o selo de membro verificado da IFCN: Lupa, Aos Fatos e Estadão Verifica.

O fato de não ter esse atestado, no entanto, não impede ninguém de participar dos eventos promovidos pela rede. A proposta dos Global Facts – que neste ano chegaram a sua sexta edição – é justamente promover a troca de experiências entre velhos e novos checadores. É ampliar a comunidade. Assim sendo, é de se lamentar que a maioria dos fact-checkers que estavam ativos nas eleições de 2018 tenham perdido essa oportunidade. Havia até bolsa para participar.

Não viram, por exemplo, como os britânicos do Full Fact já são capazes de capturar áudios, transcrevê-los para texto e, sem qualquer ajuda de humanos, encontrar nas bases de dados do Reino Unido a tabela capaz de apontar se o dado citado é verdadeiro ou não. Também não viram os belgas do Lead Stories transformar – também de forma automática – um artigo checado em vídeo com apenas alguns cliques de mouse.

Não participaram das mesas sobre projetos colaborativos e não estão integrados nas ideias de atuação em conjunto que de lá saíram para enfrentar, por exemplo, as notícias falsas relacionadas a saúde e bem-estar. Não estiveram sequer nos workshops sobre ameaças digitais – algo que achei que pudesse atrair a atenção dos brasileiros.

O Global Fact 7 já tem data e local para acontecer. Será em Oslo, na Noruega, em junho do ano que vem. A IFCN espera reunir mais de 300 fact-checkers, pesquisadores e empresas de mídia, além de representantes de Facebook, Twitter, Google e Youtube (que sempre costumam aparecer e palestrar). Deixo por aqui o desejo de que a ausência de brasileiros em 2019 se transforme em presença massiva em 2020 – com projetos interessantes a apresentar e situações de sucesso a serem compartilhadas com a comunidade. O Brasil é grande o suficiente para isso.

*Este artigo foi publicado na edição digital da revista Época no dia 24 de junho de 2019.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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