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O que os 39 kg de cocaína na Espanha ensinam sobre fake news no Brasil?

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
10.jul.2019 | 07h14 |

Passaram-se exatos 12 dias desde que o segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues foi preso na Espanha com 39 quilos de cocaína. Como se sabe, Rodrigues dava apoio à comitiva que levava o presidente Jair Bolsonaro ao encontro do G-20, no Japão, e foi flagrado com drogas na cidade andaluza de Sevilha. Seus advogados alegam que se trata de “uma armação” e já disseram que pedirão sua extradição para o Brasil assim que possível. Mas o mundo das notícias falsas – e os brasileiros em geral – tem ao menos três lições para extrair desse caso.

Nestes 12 dias, a notícia que ganhou as redes sociais sob a hashtag #BolsoNarcos gerou ao menos sete grandes fake news. Juntas, elas foram compartilhadas mais de 13.500 vezes no Facebook, provocando um mar de desinformação e fotos absurdas. Em todas elas, a tentativa de politização ficou explícita, apoiando-se em dados enganosos e em velhos truques de ilusionismo para atacar partidos, pessoas físicas e, de certa forma, desestabilizar ainda mais o ambiente noticioso do país. 

Antes que haja qualquer dúvida sobre os conteúdos que estão à solta por aí, é importante dizer que é falso que o sargento Manoel Silva Rodrigues seja filiado ao PT ou ao PSL. A Constituição de 1988 é clara nesse ponto: proíbe integrantes ativos das Forças Armadas brasileiras de se filiarem a partidos políticos. Isso aparece de forma bem legível no inciso V, parágrafo 3º, do artigo 142. Mesmo assim, nos últimos dias, mais de 3,2 mil usuários do Facebook compartilharam a lorota sobre o PT e outros 768, sobre o PSL. Ajudaram a aumentar a já intolerável troca de ofensas político-partidárias que tanto maltrata o Brasil e que tanto opõe seus cidadãos. 

E daí tiro a primeira lição: falsas filiações partidárias viraram uma espécie de fake news padrão no Brasil dos dias de hoje. Por não exigirem muito esforço, costumam ser as primeiras a pipocar nas redes sociais. Basta que um indivíduo qualquer ganhe destaque na mídia – para o bem ou para o mal – para que seu nome seja imediatamente associado a uma sigla política. Às vezes, duas ou três… De memória, cito os casos alarmantes de Adélio Bispo e João de Deus. Mas há dezenas de outros exemplos do tipo. Assim, atenção ao primeiro alerta: em meio a uma notícia quente, é preciso duvidar de filiações partidárias. Elas tendem a ser falsas.

O segundo alerta parece óbvio, mas não é. Ao que tudo indica, o Brasil deverá se acostumar com as falsas capas de revistas semanais. Elas brotam de todos os lados – Facebook, Twitter, WhatsApp e Instagram – a partir da segunda ou terceira hora de um escândalo. Se ele acontecer perto de um fim de semana, quando as revistas geralmente são publicadas, a situação fica ainda pior.

No caso dos 39 quilos de cocaína do sargento Rodrigues, por exemplo, o que viralizou foi uma versão fake da capa da Veja. Não importou muito o fato de a tipografia utilizada ser totalmente diferente da realmente adotada pela publicação. A falsa capa foi compartilhada quase mil vezes no Facebook, insinuando que a família Bolsonaro “sabia do pó” apreendido em Sevilha. 

Esse modus operandi vem – pelo menos – das eleições de 2018. Na campanha, foram flagradas capas da Veja com o ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa pedindo para que ninguém votasse no PT, com Bolsonaro “dizendo” que acabaria com tudo que o PT fez. E várias outras “mostrando” Gerardo Icaza, diretor da Organização dos Estados Americanos (OEA), “confirmando” a fragilidade das urnas eletrônicas. Centenas de milhares de eleitores compartilharam esses conteúdos.

Com o avançar das horas e das notícias quentes, a manipulação das imagens parece ganhar requintes de sofisticação. Surgem, então, fotos adulteradas, com personagens inseridos e retirados de quadro. Há também falsas atribuições. No caso do sargento, a tentativa daqueles que produziram esse tipo de notícia falsa foi “mostrá-lo” próximo a Eduardo e Flávio Bolsonaro, os filhos do presidente. Falso. 

A lição aqui é um projeto de cidadania. É urgente levar às escolas, universidades, canais de televisão e salas de cinema pequenos cursos de verificação de imagem. Há pelo menos cinco ferramentas gratuitas, de fácil uso, disponíveis na internet. Elas permitem que qualquer um – não apenas os fact-checkers – verifique a autenticidade de uma foto. Demora segundos. Mas, para tanto, é preciso ter certeza de que casos como o da cocaína em Sevilha podem ser usados para aprimorarmos conhecimentos. Ou será que interessa a alguém manter educação e cultura restritos a uma pequena elite de cidadãos?

*Este artigo foi publicado originalmente na edição digital da revista Época em 8 de julho de 2019.

Editado por: Natália Leal

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