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Em 19 palavras, 3 dados falsos: assim é Donald Trump em busca da reeleição nos EUA

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
24.jul.2019 | 07h00 |

Na tarde do sábado 13 de julho, já em ritmo de reeleição, Donald Trump foi para o Twitter celebrar sua popularidade dentro do partido Republicano. Fez login em sua conta pessoal, @realDonaldTrump, seguida por 62 milhões de pessoas, digitou de-ze-no-ve palavras e acabou postando três informações falsas de uma só vez.

O tuíte que certamente entrará para a história da checagem de fatos foi o seguinte: “94% Approval Rating in the Republican Party, an all time high. Ronald Reagan was 87%. Thank you!”. Traduzindo: “94% de aprovação dentro do partido Republicano, a maior da história. [O ex-presidente] Ronald Reagan teve 87%. Obrigado!”

Vamos aos fatos. 

Primeiro: como candidato à reeleição em 2020, Trump não tem 94% de apoio entre os republicanos. As últimas pesquisas feitas pelo Gallup, instituto de pesquisas de opinião americano, dão-lhe 90% de popularidade entre seus correligionários. Os levantamentos feitos por The Washington Post/ABC registram 87%, e as pesquisas da CNN, 89%. 

Segundo: mesmo que Trump tivesse 94% de aprovação entre os republicanos, ele não seria o presidente mais querido do partido. De acordo com um longo histórico mantido pelo Gallup, George W. Bush chegou a 99% entre os republicanos depois do 11 de Setembro e o pai dele, George H. W. Bush, bateu 97% no fim da Guerra do Golfo, em 1991. 

Terceiro: a popularidade mais alta atingida pelo ex-presidente Ronald Reagan não foi 87%, como insinuou Trump, mas 94% – logo após sua reeleição, em 1984, também de acordo com o Gallup. 

Todos os detalhes e todas as fontes usadas nessa incrível e robusta checagem estão disponíveis para leitura na seção Facts First, da CNN. Trata-se de um trabalho imperdível realizado pelos repórteres da casa. Uma espécie de aquecimento para a eleição da desinformação que está por vir.

E trabalhos de checagem desse tipo ganham ainda mais relevância se levado em consideração o fato de que, até a última sexta-feira, esse único tuíte presidencial havia sido compartilhado 40 mil vezes no Twitter. São números digitais gigantescos, de uma campanha que está apenas começando e na qual o presidente certamente terá que se adaptar a novas regras.

No último dia 9, a Justiça americana decidiu – em segunda instância – que Trump viola a Constituição dos Estados Unidos ao bloquear pessoas que o criticam ou o satirizam no Twitter. A sentença, assinada por três juízes de Nova York, explica que, tendo em vista que ele faz uso da rede social para tratar de assuntos de governo, não pode impedir nenhum americano de ler suas postagens e de interagir com elas. O fato de não concordar que os cidadãos respondam ou com a forma como interagem com ele nas redes não pode ser motivo para vetar o acesso deles a esse conteúdo.

A repercussão nos Estados Unidos – e no mundo político que faz uso intenso das redes sociais – foi grande. O Departamento de Justiça cogita, mas ainda não anunciou publicamente, levar o caso à Suprema Corte americana. E não há dúvidas de que o impacto de uma decisão desse tipo no mais alto tribunal dos Estados Unidos pode reverberar pelo mundo. Seria interessante ver seus ecos pelo Brasil.

Falando em eco, tem sido interessante observar que, enquanto Trump alega nos Estados Unidos que o Twitter tem dificultado o acesso de seguidores a sua conta, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro adotou publicamente o discurso de que o WhatsApp o censurou.  Ambos os argumentos parecem equivocados aos olhos dos checadores de fatos. 

O site de checagem PolitiFact, dono de prêmio Pulitzer, fez uma longa e detalhada verificação sobre o acesso à conta @realDonaldTrump. Ela aparece em todos os mecanismos de busca e pode ser seguida por qualquer um. Os fact-checkers entraram, então, em contato com a Casa Branca, solicitando evidências que pudessem sustentar a posição do presidente e não obtiveram nenhum retorno. Acabaram classificando a afirmação do americano como falsa.

No Brasil, Bolsonaro critica o aplicativo de mensagens criptografadas por ter limitado para cinco o número de encaminhamentos de uma mesma mensagem de uma só vez. Diz que foi censurado e anunciou: “Temos que lutar contra isso”. Mas quem realmente sabe o significado de censura concordará: há, no mínimo, exagero nisso.

*Este artigo foi publicado originalmente na edição digital da revista Época no dia 22 de julho de 2019.

Editado por: Natália Leal

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