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Doria exagera ao dizer que chefes não comandam mais principal facção paulista de dentro de presídios de SP

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.jul.2019 | 07h00 |

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), falou sobre suas ações na área de segurança pública em entrevista para o jornalista José Luiz Datena no programa Brasil Urgente, da Band, na terça-feira (23). Ao lado do comandante-geral da Polícia Militar, Marcelo Vieira Salles, e do delegado-geral da Polícia Civil, Ruy Ferraz Pontes, ele elogiou operações que terminaram com a eliminação de criminosos, como a que resultou na morte de 11 suspeitos em Guararema, no interior do estado. Também prometeu aumentar o salário dos policiais até o final do seu mandato. A Lupa checou algumas das frases ditas pelo político. Veja o resultado:

“Não tem mais essa situação de PCC comandando o crime dentro de penitenciárias do estado”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista ao Brasil Urgente, da Band, em 23 de julho de 2019

EXAGERADO

A transferência de 22 integrantes da cúpula da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), em fevereiro deste ano, para presídios federais teve impacto limitado no comando da organização. Isso porque o PCC está dividido em diferentes núcleos de comando, as chamadas “sintonias”, que cuidam de atividades criminosas específicas. Os integrantes dessas células, chefiadas por mais de uma pessoa, podem estar em cadeias ou nas ruas, como mostra o livro A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, de Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias (Todavia, 2018). Desde 2010, o PCC montou um time de administradores que atua fora das cadeias, para manter o funcionamento da facção sem depender de suas lideranças em prisões.

Além da Sintonia Final Geral – última instância de comando da facção, da qual fazem parte Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e outros dos membros transferidos em fevereiro –, o PCC conta com os seguintes grupos de comando: Sintonia dos Estados e Países, responsável pela gestão dos negócios no exterior; Sintonia dos Gravatas, que cuida da contratação e pagamento de advogados; Sintonia do Cadastro, que tem sob sua responsabilidade o batismo de novos integrantes; Sintonia do Progresso, responsável por atividades que geram lucros para a facção; e Sintonia da Cebola, que arrecada as mensalidades pagas pelos membros do PCC, entre outros núcleos.

A criação de um time de administradores externos foi descoberta a partir de uma conversa captada entre dois integrantes da Sintonia Geral Final. “O nosso sonho está quase realizado… Tudo anda praticamente sozinho na rua: Rifa, Progresso, pé de borracha, ajudas”, disseram, em troca de mensagens em 2010, os presos Abel Pacheco de Andrade, o Vida Loka, e Roberto Soriano, o Betinho Tiriça. 

A montagem dessa estrutura de comando externa foi pensada para reduzir o impacto causado pelo isolamento de integrantes da cúpula da facção no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), adotado em cadeias paulistas de segurança máxima. Vida Loka e Tiriça foram transferidos para presídios federais anos antes da ação que ocorreu este ano. Atualmente, cumprem pena na Penitenciária Federal de Brasília, para onde foi enviado Marcola. Com isso, três dos principais integrantes da facção voltaram a ficar no mesmo local após sete anos em prisões diferentes.

Procurada para comentar, a assessoria de Doria afirmou que o “governo de São Paulo está enfrentando o crime organizado com diversas iniciativas e uma delas é a desarticulação das suas lideranças.” A assessoria lembrou que, recentemente, uma transferência de presos foi feita do estado para presídios federais.


“Nós autorizamos a contratação de 12 mil policiais militares e 5 mil policiais civis”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista ao Brasil Urgente, da Band, em 23 de julho de 2019

VERDADEIRO, MAS

O governo do Estado de São Paulo abriu dois concursos para a contratação de 5,4 mil policiais militares, em março e maio deste ano. Está prevista a realização de mais dois concursos, que foram autorizados por Doria, mas só vão ocorrer em maio e novembro do ano que vem. Isso representa um total de 10,8 mil soldados. Também foram nomeados 590 soldados de segunda classe, vindos de concurso anterior. A PM fez ainda um concurso para selecionar 190 alunos-oficiais

Na Polícia Civil, foram convocados em julho 1.100 aprovados em concursos anteriores e há uma seleção para 1.650 vagas em andamento, o que totaliza 2.750 agentes. Também foram nomeados 449 policiais técnicos-científicos em março. Foi autorizada ainda a abertura de concursos para a contratação de 2.939 policiais civis e técnicos-científicos, que só vão ser abertos no ano que vem. No total, portanto, são 6,1 mil contratações.


“[O Complexo Penitenciário de Ribeirão das Neves, em Minas Gerais, teve] uma única fuga em cinco anos”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista ao Brasil Urgente, da Band, em 23 de julho de 2019

VERDADEIRO, MAS

Nos últimos cinco anos, apenas uma fuga foi registrada no Complexo Penitenciário de Ribeirão das Neves. O caso ocorreu em 2015, quando dois presos que cumpriam pena em regime semiaberto fugiram do local. Entretanto, apenas dois anos antes, já tinha acontecido outra fuga no Complexo, de um preso no regime fechado. As informações são da Gestores Prisionais Associados (GPA), responsável pela administração do complexo.


“Nenhuma rebelião [no Complexo Penitenciário de Ribeirão das Neves]”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista ao Brasil Urgente, da Band, em 23 de julho de 2019

VERDADEIRO

Desde que começou a funcionar, em 2013, o Complexo Penitenciário de Ribeirão das Neves, em Minas Gerais, não registrou nenhuma rebelião, segundo nota da GPA, administradora da unidade. O presídio conta com duas unidades para detentos em regime fechado e uma para os de regime semiaberto. 


“E os presos ali [no Complexo Penitenciário de Ribeirão das Neves] trabalham e estudam”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista ao Brasil Urgente, da Band, em 23 de julho de 2019

VERDADEIRO, MAS

Há oportunidades para estudo e trabalho para os detentos do Complexo Penitenciário de Ribeirão das Neves, mas apenas uma parte deles participa dessas atividades. Em nota, a assessoria de imprensa da GPA, que administra o presídio, informou que 903 presos trabalham para empresas parceiras. Isso corresponde a 50,1% dos que estão aptos para atividades laborais. Além disso, há 657 na escola ou 77,3% do total apto a estudar está matriculado em atividades de ensino regular. 

Por telefone, a assessoria do GPA informou que as vagas de trabalho dependem do interesse das empresas em contratar os detentos para que o número seja ampliado. No caso da educação, há limites na estrutura do próprio complexo que impedem a expansão, bem como problemas de documentação dos presos. De acordo com a concessionária, mais de 2 mil detentos participam de atividades educacionais, como oficinas e sessões de cinema. O presídio conta hoje com 2.164 presos no total.


“Mais de 82 mil presos [pelas polícias paulistas] em seis meses”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista ao Brasil Urgente, da Band, em 23 de julho de 2019

VERDADEIRO

De acordo com as estatísticas mais recentes divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública, houve 94.090 prisões no primeiro semestre deste ano no estado de São Paulo. As Polícias Civil e Militar prenderam 65.001 suspeitos em flagrante e 43.928 pessoas por mandado judicial nesse período


“Um policial militar só vai para a rua depois de um ano de treinamento”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista ao Brasil Urgente, da Band, em 23 de julho de 2019

VERDADEIRO

Os aprovados em concurso público para trabalhar como soldados da Polícia Militar têm de fazer um curso de dois anos na Escola Superior de Soldados, localizada na capital paulista. Há uma formação básica inicial, que dura seis meses. Em seguida, há mais seis meses de formação específica nas unidades operacionais da PM. Somente depois desse período os soldados podem atuar nas ruas, em um estágio supervisionado que dura mais um ano.

Editado por: Chico Marés

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VERDADEIRO, MAS
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AINDA É CEDO PARA DIZER
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EXAGERADO
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CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
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Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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