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Foto: TerraBrasilis, Reprodução
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Ante dados oficiais negativos, Bolsonaro ataca quem os produziu

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.ago.2019 | 07h00 |

 

Quando o governo Jair Bolsonaro não gosta de um dado — matéria prima para o trabalho diário dos checadores de fato —, ele age sempre da mesma forma: ataca quem o produziu. 

Foi assim em abril, quando criticou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) por ter divulgado uma taxa de desemprego abaixo do que ele próprio desejava.

Foi assim, de novo, na semana passada, com o diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) Ricardo Galvão, que ousou falar em público sobre a alta no desmatamento da Amazônia e acabou colocando o assunto na pauta dos principais jornais e revistas do mundo. 

Haja paciência.

Aos olhos de Bolsonaro, não pareceram confiáveis as informações oficiais extraídas por Galvão e seu time dos sistemas e programas mantidos há anos pelo próprio governo dentro do Inpe. Pareceu-lhe bem mais provável que Galvão estivesse atuando a “serviço de alguma ONG” ambiental, disposto a manchar a imagem do Brasil no exterior — como chegou a afirmar o presidente ao ser perguntado sobre o assunto.

Então, para que não haja pano para fake news em torno do currículo do ex-diretor do Inpe, é importante dizer que, até onde os dados mostram, não há qualquer ligação dele com ONGs verdes. Galvão chegou à direção do instituto em 2016. Naquela época já era graduado em engenharia de telecomunicações pela UFF, já tinha mestrado em engenharia elétrica pela Unicamp e doutorado em física de plasmas aplicada pelo MIT, nos EUA. Havia feito livre-docência em física experimental pela USP. 

Galvão é um nome respeitado na ciência nacional. É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Entrou no Inpe pelas mãos do ex-ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações Gilberto Kassab quando lecionava como professor titular da USP e era presidente da Sociedade Brasileira de Física. Hoje, é membro do conselho da Sociedade Europeia de Física e ex-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. 

Mas Jair Bolsonaro preferiu duvidar dele e dos dados. Optou por demiti-lo.

Enquanto isso ocorria em Brasília, a revista The Economist mandava para a gráfica um dos editoriais mais preocupantes sobre o Brasil. Num texto longo, escrito em inglês, a publicação sugere que a Amazônia está perto de atingir um grau de desmatamento irreversível e, por conta disso, disparou contra Bolsonaro: “É, possivelmente, o líder mundial mais perigoso para o meio ambiente.”

No texto, The Economist usa números extraídos do Inpe (não só da gestão de Galvão) para mostrar a dura realidade que Bolsonaro insiste em negar. “Desde 1970, cerca de 800 mil quilômetros quadrados dos 4 milhões de quilômetros quadrados originais da Floresta Amazônica já foram perdidos para habitação, fazendas, mineração, rodovias, represas e outras formas de desenvolvimento. Isso representa uma área equivalente à da Turquia e maior do que a do Texas.”

A revista ainda ressalta que, neste mesmo período de tempo, a temperatura média da bacia amazônica subiu cerca de 0,6°C e que a região sofreu com secas — o que coloca em risco não só o Brasil, mas todo o planeta.

Bolsonaro, por sua vez, mantém falas como a seguinte: “Com toda a devastação de que vocês nos acusam de estar fazendo e ter feito no passado, a Amazônia já teria se extinguido.”

Haja paciência.

E, para fazer frente a esse desarranjo, talvez também faça falta mais checadores de fatos ligados a questões ambientais. No universo da International Fact-checking Network (IFCN), rede mundial de checadores que dirijo desde março, ainda são poucas as iniciativas que têm o verde como foco prioritário. 

Não restam dúvidas de que o exemplo do Science Feedback poderia ser replicado em outras línguas e países. Divididos entre Climate Feedback e Health Feedback, os fact-checkers dessa rede são, na verdade, links rápidos dos curiosos mundo afora com acadêmicos de ponta — um time de cientistas de primeira linha que se colocou à disposição dos fact-checkers para elucidar de forma rápida, objetiva e isenta temas sobre meio ambiente e saúde.

Galvão poderia fazer parte.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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