A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Washington Post e o desafio de corrigir 15 erros em um mesmo texto

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.ago.2019 | 07h00 |

A pauta era simples: uma reportagem não muito longa — com cerca de 500 palavras  — sobre a vida dos produtores agrícolas no estado americano da Virgínia. O texto, assinado pela freelancer Korsha Wilson, teria como foco os negros da região e ocuparia um pedacinho bem discreto na seção de gastronomia da edição do The Washington Post de 23 de julho. Duas semanas mais tarde, no entanto, essa mesma reportagem se transformaria na maior prova de que a checagem de fatos como técnica de reportagem é vital, bem como uma boa edição e uma política de correção ampla e robusta. O jornal que ajudou a definir o jornalismo investigativo e o fact-checking derrapou, mas soube se recuperar.

“Estamos envergonhados pela quantidade de erros contidos no artigo dessa freelancer”, escreveu o editor executivo do The Washington Post, Marty Baron, na última quarta-feira, dia 7 de agosto. “Publicamos uma correção detalhada de cada um dos pontos que estavam equivocados e atualizamos a história (no site do jornal) com base numa nova apuração feita por membros da redação do Post”.

A lista de erros de Wilson era farta. De coisas simples, como a grafia do nome de um de seus personagens e o número de filhos em sua família, até erros factuais grotescos, como datas trocadas e situações que pareciam inventadas. Entre as correções publicadas pelo WP na semana passada, o jornal listou pelo menos dois pontos que haviam sido omitidos na primeira versão da reportagem e que, sem dúvida, alterariam a compreensão do todo. É o que, no mundo do fact-checking, chamamos de contexto — e que pode levar um checador a trocar uma etiqueta de classificação de falso para exagerado ou contraditório, por exemplo.

Cinco dias se passaram desde que veio a tona a “mãe das correções”. Mas pouco se sabe o que aconteceu dentro da redação do Post. Baron e seu time fecharam-se em silêncio depois dos quinze ajustes. Mas é de se supor que faltou um pouco de tudo: apuração, checagem, revisão e obviamente edição. Faltou jornalismo. 

Sobrou, por outro lado, confiança. A repórter possivelmente confiou demais em sua memória. Possivelmente não checou suas anotações. Não perguntou o suficiente. Talvez não tenha recorrido a fontes oficiais para confirmar dados nem para verificar fatos. Falhou. 

Também não há dúvidas de que a linha de produção do imenso jornal da capital americana pecou. Confiou demais na freelancer. Não checou sua apuração. Não duvidou de seus personagens. Não hesitou em imprimir algo sem verificar. Mandou para a gráfica um texto repleto de equívocos e omissões. 

Há décadas, a figura do checador clássico (não os fact-checkers como conhecemos hoje em dia) desapareceu. No Brasil, Veja e revista piauí mantêm em suas equipes membros que se dedicam a colocar à prova aquilo que seus repórteres e freelancers escrevem. São indivíduos que duvidam daquilo que leem internamente e que pedem provas do que foi apurado e do que está escrito aos jornalistas. Não tenho notícias de outras redações brasileiras que tenham o hábito de demandar de seus repórteres que apresentem provas de suas apurações. Ou que sabatinem os entrevistados mais uma vez para se certificar de que aquilo que o repórter escreveu realmente condiz com a realidade. 

Nos Estados Unidos, o time da New Yorker é conhecido e respeitado pelo rigor de suas apurações e checagens. Deve ter ficado boquiaberto ao ler a correção de quinze pontos publicada pelo Washington Post na semana passada. Mas vale destacar que, na publicação dessa “mãe das correções”, o WP marcou um ponto muito forte. Mostrou que entende como se retoma credibilidade.

Antes que o pequeno texto repleto de erros virasse uma crise digital e afrontasse a marca como um todo, o jornal foi transparente. Gastou mais papel (em sua versão impressa) para corrigir seus erros do que para publicar o texto original. Lavou a roupa suja em público e se desculpou. Colocou sua equipe na rua para refazer a reportagem e entregou o material na versão mais ampla e correta que pôde. 

Tom Jones, um dos mais respeitados críticos de mídia dos Estados Unidos, entrou no debate sobre o assunto na última quinta-feira, pedindo uma salva de palmas para o The Washington Post. 

“É claro que, ao publicar aquele texto, o jornal foi descuidado, irresponsável e que não há desculpas para isso. Como uma repórter pode errar tanto? Como um editor (ou vários editores) podem permitir que tantos erros passem por eles? Esses erros corroem a confiança do leitor. Causam danos reais. O Post deve fazer uma investigação séria sobre o que ocorreu, especialmente no que diz respeito ao uso de freelancers. Mas o Post colocou a verdade à frente do orgulho. E isso deve ser reconhecido e aplaudido.”

Prova de que Baron acertou depois de ter errado.

*Este artigo foi publicado originalmente na edição digital da revista Época, no dia 12 de agosto de 2019.

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo