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Discurso de Bolsonaro contra ‘dados e mensagens infundadas’ sobre a Amazônia não resiste 24h

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
28.ago.2019 | 07h00 |

Na sexta-feira (23), o presidente Jair Bolsonaro foi à televisão para fazer um pronunciamento sobre as queimadas na Amazônia e surpreendeu os fact-checkers. No terceiro minuto de sua fala, Bolsonaro pediu serenidade aos telespectadores e disparou: “Espalhar dados e mensagens infundadas, dentro ou fora do Brasil, não contribui para resolver o problema e se prestam apenas ao uso politico e à desinformação”.

Acertou em cheio. Na mosca. 

Naquele momento, Bolsonaro implicitamente se referia às centenas de fotos antigas e fora de contexto postadas nas redes sociais por celebridades como Madonna, Leonardo DiCaprio, Cristiano Ronaldo, e Emmanuel Macron – conteúdo que havia sido pontuado como inadequado tanto pela Agência Lupa quanto pela AFP no Brasil.

Mas a crença de que Jair Bolsonaro e seu governo passariam a ter mais cuidado ao falar e postar sobre as queimadas da Amazônia durou apenas algumas horas. 

No sábado (24), ao divulgar pelo Twitter ações de combate a focos de incêndio na Amazônia, o Ministério da Defesa inseriu uma foto antiga entre as imagens que haviam sido feitas naquele dia. E o presidente compartilhou. Sem checar.

Na foto em questão, feita pelo Sgt.Johnson da Agência Força Aérea, vê-se o interior de uma aeronave Hércules C-130. Ao fundo, um foco de chamas é alvo de fortes jatos de água emitidos pelo avião da FAB. É, sem dúvida, uma prova de ação. 

Mas, uma busca no TinEye, ferramenta gratuita de checagem de fotos, revela que a imagem em questão está disponível na internet desde, pelo menos, março de 2015, no site da Força Aérea Brasileira.

Uma breve navegação no portal do próprio Ministério da Defesa mostra que essa mesma imagem foi usada para ilustrar uma notícia publicada pela pasta em 30 de setembro de 2014. A reportagem fala sobre missões de treinamento realizadas por nove pilotos do Primeiro Grupo de Transporte de Tropa (1°GTT) entre os dias 19 a 26 de setembro daquele ano nas proximidades de Sobradinho (DF).

A Folha noticiou o mau uso da foto. Procurou o Ministério da Defesa para saber o que havia acontecido e ouviu da assessoria de imprensa da pasta que a imagem em questão realmente era antiga. Foi usada de forma “meramente ilustrativa”, para tratar sobre uma atividade de combate a queimadas que ainda ocorreria.

Nesse ponto vale retornar à fala que Bolsonaro havia feito algumas horas antes: “Espalhar dados e mensagens infundadas, dentro ou fora do Brasil, não contribui para resolver o problema e se prestam apenas ao uso politico e à desinformação”.

Enfatizo, por dever profissional, uma parte: “se prestam apenas ao uso político e à desinformação”.

E acrescento: desvirtua o debate. E muito.

É função dos fact-checkers apontar dados falsos, exagerados e contraditórios sempre que eles aparecem no discurso dos poderosos e das celebridades. Não importa a hora, o local ou o assunto em pauta. Durante a atual crise da Amazônia, não está sendo – nem será – diferente. 

É mais do que evidente que, com os focos de incêndio na Amazônia, o Brasil já tem um problema de proporções territoriais gigantescas para resolver. Não precisa de nenhum outro, parasitando a seu redor. A desinformação, neste momento, consome energia e tira o foco das discussões fundamentais. É para evitar isso que os fact-checkers continuarão atentos.  

*Este artigo foi publicado originalmente na edição digital da revista Época no dia 25 de agosto de 2019.

Editado por: Natália Leal

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