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Em nova entrevista na prisão, Lula volta a errar dados sobre a história do Brasil

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.set.2019 | 07h01 |

Na última quinta-feira (5), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma entrevista à Carta Capital. Nela, o petista errou ao mencionar dados históricos sobre o Brasil como escravidão, independência e criação de universidades. Além disso, Lula disse que o menor desemprego da história do país foi em dezembro de 2014. Será? A Lupa selecionou algumas frases do ex-presidente para verificar. Veja o resultado: 

Por que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão?”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em entrevista à Carta Capital, em 5 de setembro de 2019

FALSO

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a Mauritânia, no oeste da África, foi o último país a abolir a escravidão. No livro “Escravidão – Volume I”, o escritor Laurentino Gomes aponta que, embora o país tenha decretado o fim da escravatura em 1981, apenas em 2007 a prática passou a ser considerada crime, podendo ser punida. 

A obra de Gomes também cita outros países que deram fim à escravidão, legalmente, bem depois do Brasil: Etiópia, em 1942, Marrocos, em 1956, e Arábia Saudita, em 1962. No Brasil, a Lei Áurea, que aboliu a escravidão, foi aprovada na Câmara e no Senado do Império do Brasil e assinada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888

Procurada para comentar, a assessoria do Instituto Lula informou que o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. A informação está correta. “A escravidão brasileira insere-se no fenômeno do tráfico transatlântico. Não tem relação com o fenômeno interno da Mauritânia”, disse o instituto em nota.

No livro “Escravidão Volume I”, Gomes afirma: “o Brasil foi também a nação que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico negreiro e o último a abolir oficialmente o cativeiro no continente americano, em 1888 – quinze anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba.”


“[Brasil foi] O último [país do mundo] a fazer a independência?”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em entrevista à Carta Capital, em 5 de setembro de 2019

FALSO

O Brasil se tornou independente de Portugal em 7 de setembro de 1822 – e não foi o último país do mundo a “fazer a independência”. A frase está incorreta mesmo se analisada apenas a América do Sul. Entre os doze países que fazem parte da região, quatro declararam independência depois do Brasil. São eles: Bolívia (1825), Uruguai (1828), Guiana (1966) e Suriname (1975). O Equador e a Venezuela se tornaram independentes da Espanha antes do Brasil, mas formaram a Grã-Colômbia – da qual só se separaram em 1830

Há dezenas de países que só declararam, ou tiveram reconhecida, sua independência no século XX. É o caso de muitas colônias portuguesas na África, como Guiné Bissau, em 1974 e Angola, Cabo Verde e Moçambique, em 1975, por exemplo. Alguns territórios comandados pela França no continente africano também só se libertaram nos anos 1960: Camarões, Congo, Costa do Marfim, Mauritânia e Senegal, entre outros. Existem nações que declararam independência apenas nos anos 2000, como Sudão do Sul (2011), Kosovo (2008), Montenegro (2006) e Timor-Leste (2002).

Essa não é a primeira vez que o ex-presidente erra sobre o assunto. Em discurso feito no dia 4 de dezembro em Vitória (ES), Lula afirmou que o Brasil foi o último país da América Latina a declarar independência. Na época, a Lupa verificou a informação e classificou como falsa a frase do petista. 

Procurada para comentar, a assessoria do Instituto Lula não respondeu. 


“Por que o Brasil foi o último [país do mundo] a ter uma universidade federal?”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em entrevista à Carta Capital, em 5 de setembro de 2019

FALSO

A Lupa localizou pelo menos três países que tiveram sua primeira instituição de ensino superior inaugurada depois da pioneira no Brasil. 

A primeira instituição de ensino superior brasileira foi a Escola de Cirurgia da Bahia, criada em 1808. No entanto, de acordo com a FGV, a Universidade do Brasil – que virou parte da UFRJ –  deve ser considerada a primeira universidade do país. Ela foi criada por lei em julho de 1937.

A Universidade Agostinho Neto, a primeira de Angola, foi fundada ainda sob o domínio colonial português, em 1962 – com o nome de Estudos Gerais Universitários de Angola. Em 1985, já com o país independente, virou Universidade Agostinho Neto. Na Etiópia, a Universidade de Adis Abeba foi criada em 1950.Na Arábia Saudita, a Universidade Rei Saud foi fundada em 1956. Ambas também são as primeiras universidades desses países. Há vários casos similares.

Lula já havia feito esta afirmação em seu discurso em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, quando decidiu entregar-se à Polícia Federal para começar a cumprir a sentença determinada pelo TRF-4, em abril de 2018. À época, a Lupa já havia classificado a informação como falsa

Procurada para comentar, a assessoria do Instituto Lula informou que o Brasil foi o último da América Latina. A informação está correta


“Eles se esquecem de dizer à opinião pública que, em dezembro de 2014, nós tivemos o menor desemprego da história do país”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em entrevista à Carta Capital, em 5 de setembro de 2019

INSUSTENTÁVEL

Ao longo da história do Brasil, existiram diferentes pesquisas de medição do desemprego em escala nacional com diferentes metodologias, que não são comparáveis entre si. Portanto, metodologicamente, não é possível comparar os dados de desemprego da era Lula com, por exemplo, os da era Vargas ou mesmo da ditadura.

No ano de 2014, duas pesquisas eram realizadas pelo IBGE sobre o tema: uma delas era a Pesquisa Mensal do Emprego (PME), descontinuada em fevereiro de 2016. Neste caso, a taxa de desocupação para dezembro de 2014 (4,3%) foi a menor da série histórica – empatada com dezembro de 2013. 

A PME foi feita entre 1980 e 2016. Embora os dados tenham uma abrangência de 36 anos, o levantamento foi reformulado quatro vezes. Com isso, mudaram critérios, e os números das diferentes fases da PME não são comparáveis entre si. A última fase foi iniciada em março de 2002. Assim, não é possível comparar a taxa de desemprego da PME para dezembro de 2014 com dados anteriores a 2002 ou posteriores a 2016.

A outra era a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, ainda ativa e principal referência quando se trata dos números de ocupação no país. O levantamento começou somente em 2012. Na curta série histórica disponível, a menor taxa de desocupação, de 6,2%, foi registrada no trimestre de outubro-novembro-dezembro de 2013. O índice mais recente, de maio-junho-julho de 2019, ficou em 11,8%.

A Pnad Contínua é um levantamento muito mais completo e abrangente do que a PME, e envolve visitas a cerca de 210 mil domicílios em 3,5 mil municípios de todo o país. Em sua última etapa, a PME reunia dados sobre desemprego em apenas seis regiões metropolitanas (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre), com visitas a 44 mil domicílios. 

Procurada para comentar, a assessoria do Instituto Lula informou que “reafirma que em 2014 desemprego foi o mais baixo do país”.


“São quase 50 milhões de brasileiros trabalhando na informalidade”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em entrevista à Carta Capital, em 5 de setembro de 2019

EXAGERADO

Havia 38,2 milhões de pessoas na informalidade no país no trimestre encerrado em junho deste ano, de acordo com a edição mais recente da Pnad Contínua, do IBGE. O número citado por Lula é 30% superior ao total de trabalhadores nessa condição.

Embora não haja um dado oficial sobre informalidade, o IBGE considera ser possível identificá-la a partir de algumas das medições feitas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC). O resultado vem da soma dos trabalhadores do setor privado sem carteira assinada (11,5 milhões), trabalhadores por conta própria sem CNPJ (19,3 milhões), trabalhadores domésticos sem carteira assinada (4,4 milhões), trabalhadores familiares auxiliares (2,2 milhões) e empregadores sem CNPJ. 

Procurada para comentar, a assessoria do Instituto Lula disse que a “soma dos desempregados com os trabalhadores informais supera 50 milhões de brasileiros” e que o ex-presidente se referia a esse dado.


“Eu tenho orgulho de ser o meu partido responsável da concessão de 52 milhões de hectares de terra”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em entrevista à Carta Capital, em 5 de setembro de 2019

VERDADEIRO

Durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, de 2003 até o final de 2015, foram concedidos 51,5 milhões de hectares de terras para a reforma agrária, de acordo com dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A conta não inclui 2016, quando a ex-presidente sofreu impeachment, e Michel Temer (MDB) assumiu a Presidência. As áreas destinadas à reforma agrária naquele ano somaram 27.412 hectares.

Até 25 de fevereiro de 2019, os assentamentos feitos por diferentes governos somavam 89,5 milhões de hectares em todo o país. Os governos petistas foram responsáveis por 57,4% do total. 

O recorde foi registrado em 2005, no primeiro mandato de Lula, com 13,4 milhões de hectares concedidos. De acordo com a série histórica, a partir de 2012, no entanto, o volume de terras destinadas à reforma agrária teve uma drástica redução, chegando a 322,3 mil hectares. Em 2013, foram 315,5 mil hectares, menor quantidade registrada nos governos petistas. Em 2015 o volume subiu um pouco e chegou a 415,4 mil hectares.


“A vitória de Bolsonaro precisa ser relativizada. O Bolsonaro teve 39% do conjunto da sociedade brasileira [eleitores na eleição de 2018]. Ele teve 55% do conjunto dos que votaram”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em entrevista à Carta Capital, em 5 de setembro de 2019

VERDADEIRO, MAS

No segundo turno das eleições presidenciais de 2018, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) recebeu 57,8 milhões de votos. Isso representa 55,1% dos votos válidos e 39,2% do eleitorado total apto a votar, 147,3 milhões de pessoas. Embora seja verdadeiro, portanto, dizer que Bolsonaro não atingiu 50% do eleitorado total brasileiro, nenhum presidente eleito desde a redemocratização conseguiu.

Quando foi reeleita, em 2014, Dilma Rousseff (PT) recebeu uma proporção de votos ainda menor que a de Bolsonaro em 2018: 38,2%, contra 35,8% de Aécio Neves (PSDB). Em 2010, contra José Serra (PSDB), ela recebeu o voto de 41,1% do eleitorado.

Lula tampouco foi votado pela maioria dos eleitores brasileiros. No segundo turno de 2002, contra Serra, e 2006, contra Geraldo Alckmin, ele recebeu votos de, respectivamente, 45,8% e 46,2% do eleitorado apto a votar.

Fernando Henrique Cardoso (PSDB), por sua vez, ganhou as duas eleições que disputou para a presidência no primeiro turno. Em nenhuma delas, porém, conseguiu atingir 50% do eleitorado total. Veja os dados completos para as eleições desde 1994 aqui.

Não há, no TSE, dados referentes ao total de eleitores aptos a votar em 1989. Mesmo assim, Fernando Collor (PRN), eleito na ocasião, fez 49,9% dos votos totais – quando somamos os votos válidos aos votos brancos e nulos. Não atingiu, portanto, 50% do eleitorado.


“Se você procurar, entre 2003 e 2014, você vai perceber que houve um crescente nos investimentos públicos”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em entrevista à Carta Capital, em 5 de setembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo dados disponibilizados pelo governo federal, o investimento realizado diretamente pela União cresceu 187,5% entre 2006, primeiro ano da série histórica, e 2014, ou seja, praticamente triplicou. Em 2006, foram investidos R$ 34,3 bilhões, em valores corrigidos pelo IPCA. Oito anos depois, o investimento foi de R$ 98,7 bilhões, a cifra mais alta nos últimos 13 anos.

Em 2018, último ano completo, o investimento do governo federal foi de R$ 52,5 bilhões. Confira os dados completos aqui.

Editado por: Natália Leal

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