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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Precisamos falar sobre suicídio: 4 mitos e 2 verdades sobre o tema em redes sociais

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.set.2019 | 07h01 |

Em 2015, o Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria escolheram o setembro para ser o mês dedicado à prevenção do suicídio. A partir de então, as ações da campanha Setembro Amarelo tentam alertar para a importância de se discutir o tema.

Dados do DataSUS mostram que o número de suicídios vem aumentando no Brasil nos últimos anos. Ainda assim, falar sobre suicídio é um tabu no Brasil – o que não ajuda nas ações de conscientização e alimenta a propagação de informações inverídicas a respeito do assunto. 

A Lupa reuniu alguns conteúdos sobre suicídio que circulam em redes sociais, como frases, dados e orientações diversas, e verificou a veracidade deles. Veja o resultado

“A campanha Setembro Amarelo foi assim chamada por causa de um jovem americano que se suicidou em uma colisão proposital de seu veículo, que era amarelo”

FALSO

Há duas versões que atribuem a criação do Setembro Amarelo ao suposto suicídio de um jovem americano. Uma delas afirma que amarela seria a cor do carro que ele dirigia – e que teria sido o meio usado para cometer suicídio, em um acidente provocado. A outra dá conta de que a família teria distribuído laços amarelos após o suicídio do jovem, por se tratar da cor preferida dele. Segundo a assessoria da campanha Setembro Amarelo, nenhuma delas tem fontes confiáveis, e as duas parecem ser uma fantasia e “uma romantização perigosa do suicídio.”

Na verdade, o Setembro Amarelo é inspirado no Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio (World Suicide Prevention Day), da Associação Internacional de Prevenção do Suicídio (IASP, na sigla em inglês). 

Nesta campanha mundial, uma das atividades incentivada pela IASP é que todos acendam uma vela no dia 10 de setembro, em homenagem às vítimas de suicídio e para prestar apoio àqueles que lutam contra desordens psiquiátricas. Na divulgação do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, a associação usa um laço amarelo e laranja como símbolo, o que serviu como inspiração para os brasileiros.

O Setembro Amarelo foi criado em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria. Segundo a coordenação da campanha, “a ideia é pintar, iluminar e estampar o amarelo nas mais diversas resoluções, garantindo mais visibilidade à causa”. 


“Não se deve falar sobre suicídio, e a imprensa não deve divulgar casos ou dados sobre o tema”

FALSO

A ideia de que falar sobre suicídio é um problema é equivocada. Segundo o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria, “falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão” que pensamentos suicidas costumam trazer. Essa orientação consta na cartilha “Suicídio: informando para prevenir”, elaborada pelas duas entidades. 

A publicação ainda destaca o papel da imprensa nesta discussão. “A mídia tem obrigação social de tratar deste importante assunto de saúde pública e abordar este tema de forma adequada. Isto não aumenta o risco de uma pessoa se matar; ao contrário, é fundamental dar informações à população sobre o problema”, diz a cartilha. 


“O poder público não disponibiliza canais que auxiliem na prevenção do suicídio”

FALSO

Existem, sim, mecanismos de prevenção do suicídio vinculados ao governo. Um deles é o telefone 188, que, em uma parceria do governo com o CVV, passou a ser gratuito para todo o Brasil em junho de 2018. Quem liga para o 188 pode conversar com um voluntário do CVV para receber orientações ou simplesmente desabafar. O número está disponível 24 horas por dia e recebe ligações de telefone fixo e de celular. 

Outra iniciativa do governo considerada uma ação de prevenção ao suicídio é o atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Lá, a pessoa tem acesso a um tratamento de saúde mental, podendo ter consultas com psicólogos e psiquiatras. Além disso, os médicos e atendentes das Unidades Básicas de Saúde e das unidades de pronto-atendimento, como UPA 24h, recebem treinamento específico para o caso de pacientes que tenham atentado contra a própria vida. 

Mais recentemente, em julho de 2019, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, assinou um acordo de cooperação técnica para treinar atendentes de canais de denúncia sobre automutilação e suicídio. Os atendentes que vão receber o treinamento do Disque 100 (Disque Direitos Humanos) e Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher). 


“Mulheres cometem mais suicídio do que homens”

FALSO

O boletim epidemiológico de tentativa e óbito de suicídio, do Ministério da Saúde, mostra que os homens se suicidam mais do que as mulheres em todas as faixas etárias. No entanto, entre os idosos, essa diferença é maior e chama atenção. A taxa de suicídio para homens com mais de 70 anos é de 17,1 a cada 100 mil habitantes. Para as mulheres na mesma faixa etária, são três suicídios a cada 100 mil habitantes.

Contudo, vale mencionar que, em números absolutos, as mulheres são as que mais tentam suicídio (página 6) – em todas as faixas etárias analisadas pelo ministério.


“As pessoas dão sinais quando pensam em cometer suicídio”

VERDADEIRO

Segundo o Ministério da Saúde, não existe uma receita pronta para se detectar quando uma pessoa está vivendo uma crise suicida. Por essa razão, a pasta destaca que é importante prestar atenção aos sinais que cada indivíduo emite e observar se eles se manifestam ao mesmo tempo. 

Em primeiro lugar, o ministério destaca o “aparecimento ou agravamento de problemas de conduta ou de manifestações verbais durante pelo menos duas semanas”. Segundo a pasta, essas manifestações não devem ser  “interpretadas como ameaças nem como chantagens emocionais”. O segundo tópico ressaltado é uma súbita preocupação com a morte, associada a uma espécie de falta de esperança. Ambas podem se manifestar em textos escritos, em falas ou mesmo em desenhos feitos pela pessoa. 

Também podem haver expressões de ideias ou de intenções suicidas, com frases como “eu preferia estar morto”, “eu não posso fazer nada”, “eu não aguento mais”, eu sou um perdedor e um peso pros outros” e “os outros vão ser mais felizes sem mim”. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também lista expressões que podem indicar uma tendência suicida e devem servir de alerta, como “vou desaparecer”, “vou deixar vocês em paz”, “eu queria poder dormir e nunca mais acordar” e “é inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar”.

O isolamento também deve ser visto como sinal de alerta, segundo o Ministério da Saúde. Quem tem pensamentos suicidas tende a evitar contato com outras pessoas, recusando telefonemas, reduzindo ou até mesmo cancelando atividades sociais e até mesmo diminuindo a interação nas redes sociais.    


“O suicídio pode ser prevenido”

VERDADEIRO

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% dos suicídios que acontecem no mundo podem ser prevenidos com uma rede de apoio em torno da vítima. A organização considera o suicídio como uma prioridade de saúde pública, já que é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. 

A OMS cita seis medidas que podem ser tomadas para diminuir os casos, entre elas: redução de acesso aos meios utilizados para cometer suicídio (pesticidas, armas de fogo e determinadas medicações, por exemplo), introdução de políticas para reduzir o uso nocivo do álcool e formação de trabalhadores não especializados em avaliação e gerenciamento de comportamentos suicidas.

 

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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