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Salles erra ao dizer que Greenpeace não ajudou a limpar praias atingidas por óleo no Nordeste

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
04.nov.2019 | 15h39 |

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu as ações do governo federal para lidar com o óleo nas praias do Nordeste em entrevista ao programa Central GloboNews na última quarta-feira (30). Segundo ele, são injustas as críticas sobre a demora na limpeza e na tentativa de conter o problema. O ministro disse que esteve no local na primeira oportunidade, ao voltar de uma viagem internacional. Em setembro, ele foi aos Estados Unidos e à Europa para corrigir o que chamou de distorções na imagem do país sobre queimadas e desmatamento. A Lupa checou algumas das falas de Salles. Veja o resultado:


“A primeira mancha [no Nordeste] foi no dia 2 de setembro”

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista para o programa Central GloboNews em 30 de outubro de 2019

FALSO

As manchas de óleo apareceram em dez praias da Paraíba, no Nordeste, entre 30 de agosto e 1º de setembro, de acordo com dados de mapeamento do desastre compilados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O material foi encontrado pela primeira vez no dia 30 de agosto, nas praias de Gramame, Jacumã e Tambaba, no município de Conde (PB), e na praia Bela, em Pitimbu (PB). Em 1º de setembro, as manchas chegaram a mais seis pontos: as praias Formosa, de Camboinha, do Poço e de Intermares, em Cabedelo (PB); e as praias de Tambaú e do Cabo Branco, em João Pessoa (PB).

No dia 2 de setembro, data citada pelo ministro, o petróleo já atingia os estados de Pernambuco e Sergipe. As manchas foram avistadas em 13 localidades naquela data: na praia do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá (PE); nas praias de Maria Farinha, Conceição, do Janga e Pau Amarelo, em Paulista (PE); na praia de Dell Chifre, em Olinda (PE); na praia de Suape, no Cabo de Santo Agostinho (PE); nas praias de Nossa Senhora do Ó, da Gamboa e Porto de Galinhas, em Ipojuca (PE); e na praias do Porto, da Costa e Atalaia Nova, em Barra dos Coqueiros (SE).

Procurado para comentar, o ministro não se manifestou.


“[Greenpeace] E ajudar que é bom eles não foram”

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista para o programa Central GloboNews em 30 de outubro de 2019

FALSO

Voluntários do Greenpeace participaram da limpeza de praias em vários pontos do litoral nordestino, além de documentar os efeitos do vazamento. Em 12 e 13 de outubro, por exemplo, eles estavam em praias nas cidades de Fortaleza e São Luís. Verificando os dados presentes nos arquivos das imagens, foi possível confirmar que as fotos foram tiradas, de fato, nesses dias. Em sua conta no Instagram, a organização também publicou fotos e vídeos de voluntários trabalhando em praias e manguezais na Bahia e em Pernambuco.

Procurado para comentar, Salles não respondeu.


“Cheguei da viagem [ao exterior], no dia seguinte já estava lá.”

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista para o programa Central GloboNews em 30 de outubro de 2019

FALSO

O óleo começou a chegar à costa brasileira em 30 de agosto, muito antes da viagem de Ricardo Salles para Estados Unidos, França, Alemanha e Inglaterra de 18 de setembro a 4 de outubro. Nos 18 dias que o ministro ficou no país antes de partir, o óleo foi detectado em 79 pontos da costa, de acordo com os dados do Ibama. Ele não visitou nenhum dos locais para analisar a situação. Só fez isso depois de retornar. 

Salles chegou ao Brasil apenas em um sábado, 5 de outubro, e esteve no Nordeste só no dia 7 do mês passado. Ou seja, levou 38 dias desde o início da crise para ir até um dos locais atingidos.

Na agenda do ministro não consta nenhuma reunião para discutir a questão do óleo no Nordeste entre 30 de agosto e 17 de setembro. Nesse período, Salles teve encontros com governadores da Amazônia Legal e outras autoridades – incluindo embaixadores, ministros, senadores e deputados federais –, participou de eventos como palestrante, despachou e deu entrevistas a jornalistas.

Procurado para comentar, o ministro não retornou.


“A Amazônia é a região (…) com o pior Índice de Desenvolvimento Humano [do Brasil]”

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista para o programa Central GloboNews em 30 de outubro de 2019

INSUSTENTÁVEL

Não há um cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apenas para a Amazônia ou para as regiões do Brasil que permita a comparação feita pelo ministro. Os dados disponíveis para este índice são municipais ou estaduais. Tanto a região Norte, onde está a maior parte da Amazônia Legal, quanto o Nordeste contam com estados com médio desenvolvimento humano – que têm os menores índices no país – e alto IDH, segundo a publicação Radar IDHM, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Em 2017, o pior índice do país estava em Alagoas (0,683). Em seguida aparecem o Maranhão (0,687), que fica em parte na Amazônia Legal, e o Piauí (0,697). O quarto pior IDH está no Pará (0,698), já na Amazônia. Esses valores são classificados como nível médio de desenvolvimento. Todos os outros estados das duas regiões, no entanto, têm alto desenvolvimento humano.

Procurado para comentar, Salles não respondeu.


“Ninguém disse que a Venezuela é responsável pelo acidente”

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista para o programa Central GloboNews em 30 de outubro de 2019

VERDADEIRO, MAS

Embora nenhum integrante do governo tenha acusado formalmente a Venezuela pelo vazamento, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que essa era uma tese cada vez mais forte, em tuíte publicado em 22 de outubro. Na mensagem, ele acusou organizações não-governamentais (ONGs) e da esquerda de silenciarem sobre o problema. “O apoio desses partidos ao ditador Maduro fortalece a tese de um derramamento criminoso”, escreveu.


“Esse desmatamento [na Amazônia] vem aumentando de 2012 para cá”

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista para o programa Central GloboNews em 30 de outubro de 2019

VERDADEIRO, MAS

A taxa de desmatamento medida pelo Programa de Cálculo do Desmatamento da Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), chegou ao seu menor nível em 2012, quando foram derrubados 4.571 quilômetros quadrados de floresta na Amazônia Legal. A partir daí, os números oscilaram ao longo dos anos, mas sempre confirmando uma tendência de alta.

Após sucessivas reduções desde 2008, houve aumento em 2013 (5.891 quilômetros quadrados), seguido de uma queda em 2014 (5.012 quilômetros quadrados). Em 2016, o Prodes registrou crescimento de novo (7.893 quilômetros quadrados), com outra queda em 2017 (6.947 quilômetros quadrados). O número mais recente, de 2018, indicou alta na taxa de desmatamento (7.536 quilômetros quadrados).

Editado por: Natália Leal e Nathália Afonso

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