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#Verificamos: Mulher que faz denúncias em vídeo não é tia de Marielle Franco

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.nov.2019 | 17h12 |

Circula nas redes sociais um vídeo com uma mulher que seria a tia da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em 14 de março do ano passado juntamente com o motorista Anderson Gomes. Na gravação, ela faz uma série de denúncias sobre o crime, que ainda não foi totalmente esclarecido. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da ​Lupa​:

“Tia de Marielle”

Legenda de vídeo no Facebook que, até as 15h de 7 de novembro de 2019, tinha mais de 11 mil compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A mulher que aparece no vídeo não é tia de Marielle Franco. Para verificar se existia algum grau de parentesco entre elas, a Lupa procurou Anielle Franco, irmã da vereadora. Ela informou, em mensagem de texto enviada pelo celular, que a mulher não faz parte da família. “Fake”, disse, ao ser questionada sobre a gravação e ver uma foto da pessoa.

Além disso, em nenhum momento do vídeo a pessoa afirma ser parente de Marielle. Isso só aparece nas legendas que acompanham os vídeos, o que mostra que alguém quis vincular as duas para dar mais credibilidade às denúncias. Não foi possível, no entanto, descobrir a verdadeira identidade a mulher. 


“Raquel Dodge, antes de sair da PGR, já havia denunciado Domingos Brazão como autor intelectual e mandante do crime”

Frase de vídeo no Facebook que, até as 15h de 7 de novembro de 2019, tinha mais de 11 mil compartilhamentos

EXAGERADO

Em 17 de setembro, pouco antes de deixar o cargo, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, denunciou o ex-deputado estadual e conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) Domingos Brazão e mais quatro pessoas pelos crimes de falsidade ideológica, favorecimento pessoal e de obstrução da Justiça no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Contudo, Dodge pediu a abertura de inquérito para apurar quem seria o mandante do crime, e Brazão foi apontado como suspeito. O processo está sob sigilo e apenas as informações já publicadas no site da Procuradoria-Geral da República (PGR) foram confirmadas à Lupa, por telefone, pela assessoria de imprensa do órgão.

A decisão de investigar Domingos Brazão baseou-se em investigações da Polícia Federal do Rio de Janeiro sobre o crime. Em depoimento, o miliciano Orlando Oliveira Araújo acusou Brazão e seu irmão, Chiquinho Brazão, de serem os mandantes dos homicídios. De acordo com Dodge, o ex-deputado estadual atuou para influir no curso das investigações para responsabilizar Araújo e o vereador Marcelo Siciliano pelo crime, tirando o foco dos verdadeiros culpados. 

Em entrevista à revista Veja, Brazão negou ser responsável pelos assassinatos. Tanto o Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro como a Polícia Civil do estado questionaram as denúncias feitas pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O MP alegou haver base para acusar apenas duas pessoas, não cinco, de atrapalhar as investigações.


“[Domingos Brazão] Ele pagou R$ 500 mil para que os criminosos matassem Marielle”

Frase de vídeo no Facebook que, até as 15h de 7 de novembro de 2019, tinha mais de 11 mil compartilhamentos

AINDA É CEDO PARA DIZER

A informação de que Domingos Brazão pagou R$ 500 mil pelo assassinato de Marielle Franco foi dita em uma conversa telefônica gravada entre o miliciano Jorge Alberto Moreth, conhecido como Beto Bomba, e o vereador Marcello Siciliano (PHS), de acordo com reportagem do UOL que teve acesso à denúncia feita pela PGR. O processo corre em segredo de Justiça. Trata-se, portanto, de um dos indícios investigados, mas que ainda precisa ser confirmado por outras provas.

Todo o diálogo estava gravado no celular de Siciliano, apreendido pela Polícia Federal. Beto Bomba acusou Brazão de pagar R$ 500 mil e indicou três integrantes do Escritório do Crime – milícia da qual é um dos chefes e que atua em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio – como autores dos assassinatos de Marielle e Anderson Gomes. A Polícia Civil e o MP-RJ, no entanto, apontaram como responsáveis pelos crimes o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz. Os dois foram presos em março.


“[Domingos Brazão] Ele é que manda no dinheiro do estado [como conselheiro do TCE-RJ]”

Frase de vídeo no Facebook que, até as 15h de 7 de novembro de 2019, tinha mais de 11 mil compartilhamentos

FALSO

O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), assim como órgãos similares de outras unidades da Federação, é responsável pela fiscalização dos gastos públicos no estado. Esse controle externo das despesas é feito para auxiliar a Assembleia Legislativa e outros órgãos, como o Ministério Público. O TCE não tem nenhum poder sobre a destinação dos recursos públicos – apenas verifica se há irregularidades. O órgão produz, por exemplo, parecer sobre a prestação de contas do governador.

Quem define o Orçamento a cada ano é o Legislativo, a partir de proposta enviada pelo Executivo. Toda a discussão sobre a distribuição de recursos ocorre nessas duas esferas. Os conselheiros do TCE-RJ – como Domingos Brazão, que foi afastado da função em março de 2017, após a Operação Quinto do Ouro – não têm poder algum nas decisões sobre onde será aplicado o dinheiro.


“[Domingos Brazão] Ele foi eleito pelo DEM, pelo PT e pelo PSOL”

Frase de vídeo no Facebook que, até as 15h de 7 de novembro de 2019, tinha mais de 11 mil compartilhamentos

FALSO

Domingos Brazão foi eleito conselheiro vitalício do TCE-RJ por 61 dos 70 parlamentares da Alerj. Apenas políticos do PSOL e PT do B votaram em outras candidaturas na ocasião. Diferentemente do que circula pelas redes, o DEM não tinha nenhum deputado estadual no Rio de Janeiro na época. Além disso, apenas uma parte dos representantes do PT apoiou Brazão.

Na sessão extraordinária da Alerj do dia 28 de abril de 2015, quatro deputados do PSOL – Doutor Julianelli, Eliomar Coelho, Flávio Serafini e Marcelo Freixo – votaram em um candidato adversário de Brazão, Isy Nicolaevski. Já o deputado Marcos Abrahão (PTdoB), que também disputava o cargo, votou em si mesmo. Outros quatro parlamentares não votaram – três estavam ausentes (um do PSOL e outros dois, do PT) e um, licenciado (PSC).

Brazão foi eleito com apoio majoritário dos parlamentares, com voto inclusive de Flávio Bolsonaro, na época deputado pelo PP. Em números absolutos, o partido que mais contribuiu para a sua eleição foi o PMDB, com 15 votos. Em seguida vieram o PR, com 8 votos, e o PSD, com 7. Nas outras 17 legendas, o total variou de um a quatro votos. Quatro dos seis deputados do PT votaram em Brazão. 


“Rodrigo Maia já disse claramente que o candidato dele é Marcelo Freixo”

Frase de vídeo no Facebook que, até as 15h de 7 de novembro de 2019, tinha mais de 11 mil compartilhamentos

FALSO

A Lupa não encontrou nenhuma declaração feita pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), dizendo que Marcelo Freixo (PSOL-RJ) será o seu candidato em uma futura eleição. DEM e PSOL são adversários políticos no Rio de Janeiro. Freixo inclusive concorreu contra Maia, no início do ano, na eleição para a Presidência da Câmara. O DEM, por exemplo, pode indicar o ex-prefeito Eduardo Paes, que é filiado à legenda, para concorrer no próximo ano.

Uma checagem semelhante foi feita pelos sites Boatos.org e Aos Fatos.

Nota: esta reportagem faz parte do projeto de verificação de notícias no Facebook. Dúvidas sobre o projeto? Entre em contato direto com o Facebook

Editado por: Nathália Afonso

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
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Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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