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Em discurso, Lula erra dados ao atacar Bolsonaro e falar de emprego no país

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.nov.2019 | 18h13 |

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez, neste sábado (9), o segundo discurso após ser liberado da prisão. Lula falou a militantes e apoiadores em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, em São Paulo. O petista deixou a carceragem da Polícia Federal em Curitiba na última sexta-feira (8), após 580 dias detido. Em sua manifestação, Lula relembrou os governos do PT e também fez ataques ao presidente Jair Bolsonaro, aos ministros Paulo Guedes e Sergio Moro e a pessoas centrais na operação Lava Jato, que o levou à prisão. A Lupa conferiu a veracidade de frases ditas pelo ex-presidente. Veja o resultado:

“[Bolsonaro] construiu um patrimônio de 17 casas”
Luiz Inácio Lula da SIlva, ex-presidente da República, em discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 9 de novembro de 2019

FALSO

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou ter cinco casas na declaração de bens apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para concorrer à eleição de 2018. Os imóveis são: um apartamento em Brasília, com valor declarado de R$ 240 mil; três casas na na cidade do Rio de Janeiro, sendo uma delas em Bento Ribeiro, de R$ 40 mil, na zona norte da cidade, e as outras duas no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, nos valores de R$ 603 mil e R$ 400 mil; e um imóvel na Vila Histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), de R$ 98 mil.

Um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), está sendo investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pela compra e venda de 19 imóveis no Rio de Janeiro. Os promotores apuram se o parlamentar fez as transações, entre 2010 e 2017, para lavar dinheiro. Na lista de bens declarados na eleição de 2018, no entanto, Flávio afirmou ter apenas dois imóveis: um apartamento na Barra da Tijuca, no Rio, no valor de R$ 917 mil, e uma sala comercial no mesmo bairro, de R$ 150 mil.


“Estão falando que não vão aumentar mais o salário mínimo durante dois anos”
Luiz Inácio Lula da SIlva, ex-presidente da República, em discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 9 de novembro de 2019

AINDA É CEDO PARA DIZER

O governo federal apresentou no Senado, na terça-feira (5), a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 186/2019, ou PEC Emergencial, um conjunto de alterações que incluem dispositivos para cortes de gastos quando a União, estados e municípios estiverem com problemas financeiros. Entre as medidas previstas se o governo descumprir a chamada regra de ouro – um dispositivo constitucional que proíbe o endividamento para pagar despesas correntes, como salários, aposentadorias e o custeio – está a proibição de qualquer reajuste de despesa obrigatória acima da variação da inflação, incluindo o salário mínimo (artigo 167-A, inciso IX). Isso valeria por dois anos.

Não se trata, portanto, de uma regra já adotada pelo governo federal. A PEC ainda será analisada pelo Congresso. Caso seja aprovada, não congelará automaticamente o salário mínimo. Isso só aconteceria se a União estiver com problemas nas contas públicas. 

A equipe econômica, no entanto, tem sinalizado que, em 2020, o salário mínimo será corrigido apenas pela inflação. Ou seja, não haverá aumento real. Hoje em R$ 998, o valor subiria para R$ 1.030. Um aumento acima da inflação nos próximos anos estaria condicionado à aprovação de reformas fiscais.


“[Desde que fui preso] (…) O povo tem menos emprego”
Luiz Inácio Lula da SIlva, ex-presidente da República, em discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 9 de novembro de 2019

FALSO

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua Trimestral (PnadC/T), a população ocupada cresceu e a população desocupada diminuiu ligeiramente no período em que Lula ficou preso.

No segundo trimestre de 2018, o IBGE estimava a população ocupada do Brasil em 90,9 milhões e a população desocupada em 12,9 milhões. Um ano depois, a população ocupada subiu para 93,3 milhões e a população desocupada caiu ligeiramente para 12,8 milhões. A população fora da força de trabalho, que incluiu os chamados desalentados, caiu de 65,4 milhões para 64,8 milhões.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mostra a variação no número de empregos formais, também mostra um crescimento no número de vagas no período. Entre maio de 2018 e setembro de 2019, foram criados 954,5 mil empregos formais no país.


“A ONU já afirmou que aquele príncipe [elogiado por Bolsonaro] é o príncipe que mandou matar um jornalista na embaixada da Arábia Saudita em Istambul”
Luiz Inácio Lula da SIlva, ex-presidente da República, em discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 9 de novembro de 2019

AINDA É CEDO PARA DIZER

Em junho de 2019, foi publicado relatório de investigação do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) sobre o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi. No relatório, investigadores confirmam que há “evidência crível”, que exige investigações aprofundadas, de que houve participação de autoridades sauditas, incluindo o príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammed bin Salman. Ou seja, há evidências, mas ainda não há uma conclusão definitiva. O relatório pode ser baixado, em inglês, aqui.

Radicado nos Estados Unidos desde 2017, Khashoggi era um dos críticos mais ferrenhos do regime autoritário saudita. Na época de seu assassinato, ele escrevia para o jornal The Washington Post. Em 2 de outubro de 2018, ele foi assassinado no consulado saudita em Istanbul, na Turquia. Segundo as investigações, seu corpo foi esquartejado e embalado em sacolas plásticas. Os restos mortais nunca foram encontrados. Pelo menos 15 cidadãos sauditas participaram diretamente do crime, alguns deles ligados ao príncipe.

Segundo o relatório, todos os especialistas consultados concordaram em dizer que seria “inconcebível” que uma ação dessa magnitude fosse realizada sem o conhecimento de bin Salman. Além disso, também não é possível que o mandatário saudita não tivesse conhecimento da operação para destruição de provas realizada na sequência.

No final de outubro, Bolsonaro visitou a Arábia Saudita e declarou que “todo mundo gostaria de passar uma tarde com o príncipe”. Ele disse, ainda, que tem “certa afinidade” com bin Salman, atualmente o líder de fato do país. 


“A Bolívia tá crescendo 5% (…) ao ano”
Luiz Inácio Lula da SIlva, ex-presidente da República, em discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 9 de novembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo dados do Banco Mundial, a taxa média de crescimento da Bolívia desde que Evo Morales assumiu a presidência do país, em janeiro de 2006, é de 4,85% ao ano. Nos últimos três anos, a média foi ligeiramente inferior: 4,2%. Isso significa que, em 13 anos, a economia do país cresceu 85%, ou seja, quase dobrou de tamanho.

Nesse período, o melhor ano foi o de 2013, quando o PIB do país cresceu 6,8%. O pior foi 2009, auge da crise econômica mundial, quando o crescimento foi de 3,3%. 


“Em 12 anos, geramos 22 milhões de empregos com carteira profissional assinada”
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, em discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 9 de novembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), em 2002, quando Lula venceu as eleições, o número de vagas de emprego formais no Brasil era de 28,7 milhões. 12 anos depois, em 2014, esse número era de 49,6 milhões. Ou seja, houve um aumento de 20,9 milhões, ligeiramente abaixo do valor citado por Lula. Já o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mostra apenas a variação no número de vagas formais no setor privado, mostra um crescimento de 16,1 milhões de vagas no período.

Editado por: Natália Leal e Nathália Afonso

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VERDADEIRO
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VERDADEIRO, MAS
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AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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