A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: José Cruz/Agencia Brasil
Foto: José Cruz/Agencia Brasil

Críticas ao STF, Foro de SP e inflação: Bolsonaro erra em fala a O Antagonista

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
13.nov.2019 | 15h17 |

Na última segunda-feira (11), o presidente Jair Bolsonaro concedeu uma entrevista ao site O Antagonista. Nela, Bolsonaro falou sobre a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, autorizada após decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a impossibilidade de prisão depois da condenação em segunda instância, na semana passada. O presidente também comentou o envolvimento de seu nome no caso Marielle e falou sobre Foro de São Paulo e indicadores do seu governo. A Lupa verificou algumas frases. Veja o resultado: 

“Não emiti minha opinião quando o Supremo [Tribunal Federal] decidiu tipificar como racismo a homofobia”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em entrevista ao site O Antagonista no dia 11 de novembro de 2019

FALSO

No dia 14 de junho de 2019, um dia após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir criminalizar a homofobia, o presidente Jair Bolsonaro disse que a decisão do órgão foi “completamente equivocada”. No último 13 de junho, o STF deliberou sobre o tema e, por 8 votos a 3, decidiu que atos criminais homofóbicos e transfóbicos sejam enquadrados na mesma lei que condena os crimes de racismo. No dia seguinte, Bolsonaro se reuniu com jornalistas em um café da manhã no Palácio do Planalto e criticou a decisão. 

“A decisão do Supremo, com todo o respeito que tenho aos ministros, foi completamente equivocada. Além de estar legislando, está aprofundando a luta de classes cada vez mais. No meu entender, não poderia ter esse tipo de penalidade. A penalidade se você ofender uma pessoa, dar uma facada, dar um tiro só porque é gay, tem que ser agravada a pena dessa pessoa e ponto final”, disse Bolsonaro. 

O presidente disse acreditar que a decisão do STF prejudicaria os homossexuais e citou como exemplo o mercado de trabalho.”[O empregador pensa] E se der um problema aqui dentro? Ele me acusa disso ou daquilo, o que que vai acontecer, como que fica a minha empresa?”, ponderou o presidente. 

Procurado para comentar, o Palácio do Planalto não se manifestou.


“Agora você tem o Foro [Grupo] de Puebla, mudou de nome o Foro de São Paulo”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em entrevista ao site O Antagonista no dia 11 de novembro de 2019

FALSO

O Foro de São Paulo e o Grupo de Puebla não são a mesma coisa. O primeiro é uma organização de diferentes partidos e movimentos sociais da América Latina e do Caribe, enquanto o segundo é um movimento de lideranças políticas da região.

Fundado em 1990, o Foro de São Paulo reúne organizações políticas de esquerda. Atualmente, são listados 119 partidos e movimentos de 27 países diferentes da América Latina e do Caribe. A última reunião ocorreu em Caracas, na Venezuela, em julho desse ano. No Brasil, há cinco partidos que, atualmente, estão listados como parte da organização: PDT, PCdoB, PCB, PT e PPS (hoje chamado de Cidadania e que, embora ainda conste como membro, diz não atuar na organização desde, pelo menos, 2004). Em agosto deste ano, o PSB deixou a instituição e não aparece mais na lista de membros.

Já o Grupo de Puebla é um fórum de lideranças de esquerda fundado neste ano na cidade de Puebla, no México. Os integrantes são 29 ex-presidentes, políticos e intelectuais da América Latina e o ex-primeiro ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero. Doze países têm representação no grupo: Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, México, República Dominicana e Espanha. Os brasileiros que fazem parte são os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e os ex-ministros Fernando Haddad e Aloísio Mercadante. Todos são filiados ao PT.

Procurada para comentar, a assessoria do Planalto não respondeu.


“Até as Farc fizeram parte [do Foro de São Paulo]”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em entrevista ao site O Antagonista no dia 11 de novembro de 2019

EXAGERADO

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) participaram de reuniões do Foro de São Paulo nos anos 1990, mas nunca foram parte integrante da instituição. Em entrevista ao jornal O Globo, Rodrigo Granda, um dos ex-líderes do grupo guerrilheiro, disse que a organização enviou representantes para participar de reuniões da instituição até 2002, quando o governo de Álvaro Uribe classificou as Farc como organização terrorista. Até 2010, o grupo não participou de encontros do Foro de São Paulo.

De acordo com Granda, alguns dos partidos e movimentos sociais do Foro se opuseram à participação do grupo armado colombiano entre eles o PT e a Frente Ampla, aliança de partidos de esquerda uruguaios.

Em 2016, as Farc abandonaram a luta armada após acordo de paz com o governo colombiano, e, desde então, atuam como partido político legalmente reconhecido na Colômbia. Hoje, a sigla se traduz como Força Alternativa Revolucionária do Comum. Em 2019, o grupo enviou representantes para a última reunião do Foro, realizada em julho em Caracas, na Venezuela, mas ainda não é oficialmente parte da organização. 

Procurada, a assessoria do Palácio do Planalto não respondeu.


“Nunca se viu uma taxa de juros [Selic] tão baixa”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em entrevista ao site O Antagonista no dia 11 de novembro de 2019

VERDADEIRO

A taxa básica de juros da economia, definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, ou taxa Selic, atingiu 5% ao ano em 30 de outubro deste ano, o patamar mais baixo da série histórica iniciada em 1996. Segundo a ata da 226ª reunião do órgão, a redução ocorreu por conta da recuperação da economia em ritmo gradual e do alto nível de ociosidade na produção industrial, além de cenário externo favorável e inflação controlada.

Vale ressaltar que outras taxas que chegam ao consumidor final, como os juros de parcelamento no cartão de crédito ou do cheque especial, tiveram aumento nos período de 12 meses encerrado em setembro, de acordo com dados divulgados pelo Banco Central em outubro (tabelas 14B e 15). Os juros do parcelamento no cartão de crédito subiram 23,7 pontos percentuais no período, chegando a 132,4% ao ano. No cheque especial, a taxa teve aumento de 6,2 pontos percentuais e atingiu o valor de 307,6% ao ano.


“[Nunca se viu] A inflação [tão baixa] também”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em entrevista ao site O Antagonista no dia 11 de novembro de 2019

FALSO

Ao longo dos últimos anos, o Brasil registrou taxas de inflação mais baixas do que a atual, considerando os valores acumulados em 12 meses.

Entre setembro de 1998 e fevereiro de 1999, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses variou entre 2,27% e 2,24%, atingindo seu menor valor em dezembro e janeiro: 1,65%. Mais recentemente, em agosto de 2018, esse índice foi de 2,46%. Em outubro de 2019, último mês com dados disponíveis, estava em 2,54%.

Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado em 12 meses está em 2,55%. O valor mais baixo já registrado ocorreu no ano passado: 1,56%, no mês de março. 

Esses dois índices inflacionários são medidos pelo IBGE desde 1979. O IPCA indica a variação de preço no consumo de famílias entre um e 40 salários-mínimos, enquanto o INPC é restrito a famílias que recebem entre um e cinco salários-mínimos.

Já o Índice Geral de Preços Mercado (IGP-M), medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) desde 1994, está em 3,15%. Em alguns meses de 2006, 2009, 2010, 2017 e 2018, esse índice chegou a ser negativo. O valor mais baixo foi registrado em dezembro de 2009: -1,72%. Ao contrário do IPCA e do INPC, o preço de bens de produção, e não de consumo, tem maior peso neste índice. As séries históricas para esses três índices podem ser vistas aqui.

Procurada para comentar, a assessoria do Planalto não respondeu.


“Diminuiu em 22% o número de mortes por arma de fogo”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em entrevista ao site O Antagonista no dia 11 de novembro de 2019

INSUSTENTÁVEL

Não há estudos que mostram o número de mortes por arma de fogo no Brasil em 2019. Esse dado é, normalmente, divulgado pelo Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mas a última atualização do estudo mostra os dados de 2017. Na última pesquisa, houve um aumento de 6,8% no números de homicídios por arma de fogo de 2017 a 2016. Dados de 2018 e 2019 ainda não estão disponíveis no Atlas da Violência. 

O Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, também não traz dados sobre o número de mortes por arma de fogo. Os números do órgão são sobre estupro, furto de veículos, homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, roubo à instituição financeira, roubo de carga, roubo de veículo e roubo seguido de morte. Além disso, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, outro estudo que analisa dados de segurança no país produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com base nas informações fornecidas pelos estados, não detalha as “mortes por arma de fogo”

A diminuição de 22% mencionada por Bolsonaro aparece no Monitor da Violência do G1 como a queda no número de mortes violentas – e não nas morte por armas de fogo. Segundo o levantamento, nos primeiros oito meses deste ano, 27,5 mil  pessoas foram assassinadas. No mesmo período do ano passado, o número era maior: 35,4 mil brasileiros mortos. O monitor considera “mortes violentas” os dados de homicídio, latrocínio e lesão corporal seguida de morte.

Procurada para comentar, a assessoria do Planalto não respondeu.


 

“Em nenhum momento eu falei em controle social da mídia”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em entrevista ao site O Antagonista no dia 11 de novembro de 2019

VERDADEIRO, MAS

Embora Bolsonaro não tenha falado sobre instituir um “controle social da mídia”, o presidente tem atacado veículos da imprensa desde o início do seu governo. Mais recentemente, ele determinou o cancelamento de todas as assinaturas do jornal Folha de S.Paulo e ameaçou a Rede Globo após reportagem que trazia o depoimento do porteiro do seu condomínio, incluída na investigação dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, no ano passado.

Ao longo do ano, houve outros episódios de conflito. Em setembro, Bolsonaro qualificou parte da imprensa como “inimiga”, após reportagem da revista Época que o desagradou. O presidente criticou o jornal Valor Econômico, dizendo que iria fechar, em agosto, ao assinar uma medida provisória que desobrigava empresas de publicarem balanços em jornais. 

Bolsonaro também usou desinformação para atacar duas jornalistas.  Em março, a jornalista Constança Rezende foi alvo de ataque em post na rede social do presidente. Na ocasião, ele utilizou informações falsas para criticá-la. Em julho, atacou a jornalista Miriam Leitão, colunista do jornal O Globo e comentarista em telejornais da Rede Globo, a partir de uma história inverídica.

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo