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Ciro Gomes erra dados sobre PIB, déficit da Previdência e educação pública

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.nov.2019 | 17h15 |

O ex-candidato a presidente Ciro Gomes (PDT) falou sobre o desempenho da economia do país em entrevista ao Canal Livre, da Band, no último domingo (24). Ciro questionou a retomada do crescimento, citando períodos em que houve maior aumento da riqueza no Brasil, como entre 1945 e 1980. Também comparou o Produto Interno Bruto (PIB) atual com o que foi registrado em 2014, o que mostraria problemas persistentes para que o país se desenvolva, e voltou a elogiar a qualidade do ensino no Ceará, estado que governou de 1991 a 1994. A Lupa checou algumas das falas. Veja o resultado:

“Entre 1945 e 1980 o Brasil multiplicou por 100 sua riqueza”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

FALSO

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 1945 e 1980 o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 12,23 vezes, considerando preços de mercado. O número citado por Ciro é oito vezes maior. É possível atestar essa variação em duas tabelas publicadas no site do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Uma delas mostra o PIB brasileiro em valores de mercado entre 1900 e 2018, tendo o ano de 2010 como índice. Outra, mostra a variação do PIB ano a ano, nesse mesmo período.

Atualizado às 15h do dia 28 de novembro de 2019: Em nota, a assessoria de Ciro Gomes respondeu que ele se referia a todo o século 20. Neste período, o PIB brasileiro cresceu 124 vezes, segundo o IBGE.


“10 anos atrás o Brasil tinha 58 milhões de carteiras assinadas. Hoje, o Brasil tem 32 milhões”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

FALSO

O patamar de 58 milhões de postos de trabalho formais, incluindo o setor público, jamais foi alcançado no Brasil. O ano com maior número de vagas formais preenchidas no país foi 2014: 49,6 milhões, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais)

Além disso, a quantidade de postos de trabalho formais preenchidos no país não diminuiu no período citado por Ciro. Há 10 anos, o Brasil tinha 41,2 milhões de postos de trabalho formais ocupados. Em 2018, último ano com dados disponíveis, o número de vagas formais preenchidas era de 46,6 milhões. Veja os dados completos aqui.

Atualizado às 15h do dia 28 de novembro de 2019: Em nota, a assessoria de Ciro Gomes disse que “o dado pode estar impreciso, mas não é falso dizer que tem menos carteiras assinadas hoje que antigamente”. Entretanto, não é isso o que dizem os números da Rais e do próprio IBGE.

Na resposta, a assessoria citou que, segundo o Censo de 2010, 43,7 milhões de pessoas estavam empregadas formalmente, incluindo o setor público. O número está correto, mas é ligeiramente inferior ao que mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua Trimestral (Pnadc/T), do IBGE, referente ao terceiro trimestre de 2019: 43,9 milhões. 

Já a Rais, que mostra o total de postos de trabalho formais no final de cada ano, mostra uma diferença maior. Eram 44,1 milhões em 2010 contra 46,6 milhões no final de 2018, último dado disponível. 

A assessoria de Ciro disse, ainda, que a PNAD de 2009 mostra 54 milhões de pessoas empregadas e o Censo de 2010, 61 milhões. Novamente, os números estão corretos, mas, dessa vez, eles incluem também empregados sem carteira assinada. Ou seja, o número de carteiras assinadas é, sim, maior hoje do que em 2008, 2009 ou 2010.


“Se você tirar a DRU, o déficit da Previdência esse ano é de R$ 50 bilhões”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

FALSO

O mais recente Relatório Resumido de Execução Orçamentária (RREO) do Tesouro Nacional, com dados que vão de janeiro a setembro de 2019, informa que o déficit da Seguridade Social – o que inclui a Previdência e outras despesas, como saúde e seguro desemprego – foi de R$ 218,8 bilhões, considerando-se as receitas realizadas e as despesas liquidadas. Excluindo-se a quantia usada na Desvinculação de Receitas da União (DRU), o valor cai para R$ 136,6 bilhões – ou seja, ainda é quase três vezes maior do que o número citado por Ciro. Esses valores desconsideram o pagamento a militares na reserva – entram apenas pensões.

A DRU é um mecanismo que permite o uso de até 30% dos tributos federais vinculados por lei a fundos e despesas para outros fins. Em vez de utilizar o dinheiro para as despesas de Seguridade Social, o governo dá outra destinação a essa verba. Até setembro deste ano, a DRU somou R$ 82,2 bilhões dentro da Seguridade Social.

O número citado por Ciro estaria incorreto mesmo se fossem considerados os dados apenas da Previdência, que representam um rombo de R$ 238,7 bilhões até setembro. O Regime Geral da Previdência Social (RGPS), que compreende os benefícios pagos para trabalhadores da iniciativa privada, teve déficit de R$ 165,2 bilhões no período, considerando-se receitas realizadas e despesas liquidadas. Já o Regime Próprio de Previdência dos Servidores (RPPS), que reúne os pagamentos para funcionários públicos, teve rombo de R$ 39,1 bilhões. O déficit com militares inativos e pensionistas foi de R$ 34,4 bilhões.

Atualizado às 15h do dia 28 de novembro de 2019: Em nota, a assessoria de Ciro Gomes disse que “a apuração do déficit da seguridade social deve se dar conforme a Constituição”.

Atualizado às 18h25 do dia 28 de novembro de 2019: Corrigido o trecho que cita o porcentual permitido para a DRU, que hoje é de 30%. Os valores da DRU citados no texto não mudam, porque foram extraídos do Relatório Resumido de Execução Orçamentária.


“Sabe quanto é a contribuição dos militares para esse déficit (…) [deste ano]? R$ 43 bilhões”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

AINDA É CEDO PARA DIZER

O déficit com funcionários inativos e pensionistas das Forças Armadas somou R$ 34,4 bilhões até setembro deste ano, segundo a edição mais recente do Relatório Resumido de Execução Orçamentária do Tesouro Nacional, considerando-se receitas realizadas e despesas liquidadas. O número aproxima-se daquele citado por Ciro, no entanto, se forem consideradas as despesas empenhadas – ou seja, que tiveram recursos já reservados pelo governo. Nesse caso, o déficit é estimado em R$ 44,3 bilhões até o momento, o que pode ou não se confirmar.

Em 2018, o déficit com pensionistas e inativos militares foi de R$ 43,8 bilhões, segundo o Relatório Resumido de Execução Orçamentária de dezembro. O rombo na Previdência naquele ano, considerando-se o RGPS, o RPPS e as Forças Armadas, ficou em R$ 284,5 bilhões.


“O Ceará tem a melhor educação pública do Brasil”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

FALSO

O Ceará não tem o melhor resultado em nenhuma das três séries avaliadas pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), indicador de qualidade da educação criado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). 

Nos anos iniciais do ensino fundamental (até o 5º ano), a rede pública (federal, estadual e municipal) do Ceará ficou na quinta posição em 2017 – dado mais recente disponível –, com 6,1, atrás de São Paulo (6,5), Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina (todos empatados com 6,3). Foi a melhor pontuação obtida.

A melhor posição do estado no ranking foi o terceiro lugar na avaliação dos anos finais do ensino fundamental (até o 9º ano), com 4,9. À sua frente estão Goiás (5,1) e Santa Catarina (5,0). 

No ensino médio (3º ano), os dados sobre a rede pública mostram os resultados apenas da rede estadual, que, segundo o resumo técnico do Ideb, responde a 97% da oferta desta etapa de ensino no país. No Ceará, a nota obtida foi 3,8. É o pior desempenho do estado na avaliação, atrás de Goiás (4,3), Espírito Santo (4,1) e Pernambuco (4,0). 

Atualizado às 15h do dia 28 de novembro de 2019: Em nota, a assessoria de Ciro Gomes disse que o Ceará tem “o melhor IDEB do Ensino Fundamental da Rede de Ensino estadual do país, com 6,7 de média”. Isso é verdade apenas para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Essa etapa de ensino costuma ser de responsabilidade dos municípios, e não dos estados. Segundo a Sinopse Estatística da Educação Básica de 2018, 3.344 alunos estudavam em escolas estaduais nessa etapa de ensino no Ceará, o que representa 0,6% do total de alunos matriculados na rede pública do estado entre o 1º e o 5º ano, 504.061.

A assessoria diz, ainda, que “das 100 melhores escolas públicas do Brasil, 82 estão no Ceará no último IDEB”. Isso também é verdade, mas apenas para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental.


“O Dieese calcula como R$ 4,9 mil o valor [do salário mínimo necessário]”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

EXAGERADO

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o chamado salário mínimo necessário está, atualmente, em R$ 3.978,63. Ao longo do ano, esse valor foi mais alto, mas não chegou a atingir os R$ 4,9 mil citados por Ciro. Desde 1994, o Dieese calcula mensalmente o valor mínimo que um trabalhador precisa ganhar para atender a suas necessidades básicas e de sua família.

Atualizado às 15h do dia 28 de novembro de 2019: Em nota, a assessoria de Ciro Gomes disse que o número citado pela Lupa está correto, mas que esse valor chegou a atingir R$ 4.385,75 em abril, o que é verdade.


“Chegamos a crescer 14,5% em um único ano”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo o IBGE, o Brasil registrou crescimento no patamar citado por Ciro em duas ocasiões desde o século passado. Em 1901, durante o governo Campos Salles, o país cresceu 14,3%. Já em 1973, durante o chamado “milagre econômico”, na ditadura militar, o crescimento foi de 14%. A variação superou os 10% em outras 12 ocasiões de 1901 a 2000. 

No século atual, o melhor resultado foi observado em 2010, durante o governo Lula. Naquele ano, o país cresceu 7,5%.


“De 1980 pra cá nós estamos crescendo 2,2% ao ano”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo o IBGE, o crescimento médio do país no período citado por Ciro foi de 2,36%. Os melhores anos foram 1980 (9,2%), 1985 (7,85%) e 2010 (7,53%). Os piores, 1990 (-4,35%), 1981 (-4,25%) e 2015 (-3,54%).


“Nós estamos com o nível de produção [PIB] anterior a 2014”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo as Contas Nacionais Trimestrais (CNT), do IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, hoje, é menor do que em 2014. No segundo trimestre de 2019, último com dado disponível, o índice calculado pelo instituto estava em 167,85. No mesmo trimestre de 2014, esse índice estava em 173,97.

Esse índice atribuído pelo IBGE atribui o valor arbitrário de 100 para a produção do país no último trimestre de 1995. Esse modelo é adotado para evitar distorções inflacionárias e de câmbio.


“Um terço da riqueza do Brasil era tirado da indústria em 1980. Hoje, é menos de 11%”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência, em entrevista para o Canal Livre, da Band, em 24 de novembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo o IBGE, em 1980, a indústria de transformação era responsável por 33,7% do PIB, ou seja, quase exatamente um terço. O auge da participação da indústria na economia do país foi em 1985, quando o setor foi responsável por 35,88% da produção. Em 2018, a participação era de apenas 11,3%. Os dados estão no Ipeadata, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Veja aqui.

Nos dois primeiros trimestres de 2019, o PIB da indústria esteve abaixo de 10% do PIB total: 8,8% no primeiro, 9,5% no segundo.

Editado por: Natália Leal

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