A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Foto: Roque de Sá/Agência Senado

655 boatos desmentidos em um ano e meio: Lupa apresenta seu trabalho à CPMI das Fake News

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
03.dez.2019 | 17h07 |

Em um ano e meio de parceria com o Facebook, a Agência Lupa já verificou 655 boatos que circulavam nas redes sociais. Cerca de 70% desses conteúdos tinham a política como tema. Esse e outros dados foram apresentados pela Diretora de Conteúdo da agência, Natália Leal, em oitiva da CPMI das Fake News, realizada nesta terça-feira (3).

A Lupa foi convidada a apresentar seu trabalho na CPMI, junto com os sites de checagem Aos Fatos e Fato ou Fake e representantes da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), para mostrar o que tem sido feito no combate à desinformação no país. Representando a empresa, Leal apresentou números que mostram a atuação da agência nos últimos anos.

Desde maio de 2018, a Lupa faz parte do programa Third-Party Fact-Checking, do Facebook. Nesta parceria, agências de checagem avaliam conteúdos suspeitos de serem falsos que circulam na rede social. Caso a falsidade seja confirmada, o Facebook reduz a capacidade de viralização do conteúdo, e alerta os usuários que a informação não é verídica. Desde o início da parceria, 655 conteúdos foram verificados.

“A Lupa confere, em média, 40 desses boatos, mensalmente. Mais de um por dia. Cerca de 70% deles envolvem questões políticas”, afirmou Leal. Também são proporcionalmente relevantes boatos nas categorias “cidades”, que envolvem segurança pública, educação e outros assuntos, e “saúde”.

No início da parceria, cerca de 30% da produção de conteúdo da Lupa era dedicada à verificação de conteúdos potencialmente falsos. Atualmente, essa proporção é de cerca de 70%.

Leia a apresentação completa de Natália Leal abaixo:

Boa tarde a todos e todas presentes nesta sessão desta comissão. Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer o convite feito à Agência Lupa para este debate e para ocupar este espaço de discussão sobre um tema tão importante e contemporâneo como é a desinformação – que aqui chamamos de “fake news”. Eu sou Natália Leal, sou diretora de conteúdo da Agência Lupa desde maio deste ano. Sou jornalista, formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sou gaúcha e moro no Rio de Janeiro, onde a Lupa mantém seu escritório e sua redação. Eu trabalho diretamente com desinformação e checagem de fatos desde dezembro de 2017, quando me juntei à equipe da Lupa. A Lupa é a primeira agência de notícias especializada em checagem de fatos do Brasil e acompanha o processo de crescimento da desinformação na sociedade brasileira desde 2015, quando foi fundada pela jornalista Cristina Tardáguila. A Cristina foi pioneira no Brasil no que diz respeito à checagem de fatos. Em 2014, ela iniciou o trabalho nesta área com um blog chamado Preto no Branco, no jornal O Globo, onde ela trabalhava na época. Depois da eleição daquele ano, a Cristina deixou o jornal e trabalhou na estruturação do que seria, em 2015, a Lupa.

Nosso modelo de negócios é simples: se baseia em três linhas de receita. A primeira delas é a venda de checagens para outros meios de comunicação. Por isso nossas publicações aparecem ou apareceram na Folha, no UOL, na revista piauí, no Yahoo, na revista Época, na CBN, no Metrópoles, aqui de Brasília, e em muitos outros veículos regionais. Nossa segunda linha de financiamento é o LupaEducação. Desde 2017, ensinamos outras pessoas a fazer fact-checking. Já estivemos em escolas, universidades, empresas e neste exato momento estamos treinando a Justiça Eleitoral. A terceira linha de receita da Lupa são projetos com plataformas como o Facebook, o WhatsApp e o Google. Também com embaixadas, consulados e empresas. Esses projetos variam de treinamento em media literacy a construção de uma rede mais ampla de checadores, em vários estados. 

A Lupa, portanto, é uma sociedade anônima que nao recebe valores de fundos internacionais nem tem em sua direção membros de qualquer outra empresa. É muito comum dizerem que a Lupa é da piauí, da Folha, do UOL, que recebe dinheiro de George Soros, etc. Espero que fique claro que nada disso é verdadeiro.

Também aproveito para ressaltar que a agência é membro verificado da International Fact-Checking Network (IFCN) desde seu surgimento. Todas as auditorias por que a empresa passou estão disponíveis para leitura no site da Lupa e da própria IFCN. 

Dito isto, eu gostaria de falar um pouco sobre o trabalho que a Agência Lupa faz diariamente. O fact-checking, ou a checagem de fatos, não é uma atividade jornalística que surgiu com as plataformas de checagem brasileiras. Ele é uma técnica aplicada à reportagem há muitos anos e se transformou em um gênero jornalístico no início dos anos 90, nos Estados Unidos. Desde lá, surgiram muitas plataformas que fazem este trabalho ao redor do mundo, com destaque para iniciativas em países asiáticos e também nos Estados Unidos. Na América Latina, a principal referência para o que a gente observa hoje no Brasil é, certamente, a plataforma Chequeado, que faz lá um trabalho muito semelhante ao que é feito por aqui pela Lupa.

O fact-checking constitui, então, na verificação do discurso de agentes públicos e atores políticos. Isso significa conferir, com base em dados públicos, se o que dizem essas pessoas é verdadeiro ou falso. Cada plataforma de checagem tem sua própria metodologia de trabalho para isso. A da Lupa se baseia, primeiramente, em selecionar a frase a ser conferida, observando quem fala, o que fala e o impacto que tem esta determinada fala na sociedade. Para que algo seja verificável, ou checável, é necessário que se trate de dados ou fatos históricos, de estatísticas, de comparações ou afirmações ou de questões relacionadas à legislação. Não faz parte da metodologia da Lupa checar opiniões, conceitos amplos e futuro, ou seja, algo que ainda não aconteceu. A Lupa utiliza dados públicos, como qualquer plataforma de checagem, porque são esses mesmos dados que baseiam as políticas públicas. A Lupa também usa estudos, pesquisas de organizações renomadas, dados obtidos pela Lei de Acesso à Informação e consultas feitas a especialistas. Todas as informações usadas para construir uma verificação e atribuir uma etiqueta a determinada fala de um ator político são disponibilizadas no texto publicado no site da Lupa. Esse princípio de transparência permite que o próprio leitor refaça o caminho feito pela agência, pois entendemos que quem confere o nosso trabalho é a própria sociedade. Quem checa os checadores são todos os senhores e quem nos ouve. A Lupa nasceu fazendo fact-checking e jamais deixará de fazê-lo, pois temos convicção de que quanto mais informação as pessoas têm, maior é o seu poder de decisão e mais qualificado e transparente se torna o debate público.

Desde maio de 2018, a Lupa usa as técnicas do fact-checking para também contribuir com o esclarecimento de boatos e informações inverídicas que circulam em redes sociais, principalmente no Facebook. Há um ano e meio a plataforma trouxe para o Brasil seu projeto de verificação de notícias, conhecido em inglês como 3PFC ou Third Party Fact-Checking Project.

O funcionamento do projeto no Brasil repete o que acontece em mais de 50 países do mundo. Os usuários do Facebook reportam à plataforma algo que consideram falso e o Facebook envia aos checadores. Nós fazemos nossa análise, seguindo nossa metodologia, e devolvemos ao Facebook um link e uma classificação (verdadeiro, falso etc…)

O que acontece a partir daí são decisões do Facebook sobre as quais os checadores não tem qualquer poder de intervenção. Se o conteúdo for falso, são enviados alertas a pessoa/página que publicou a informação (foto, texto, vídeo) e notificações ao usuários que anteriormente compartilharam aquela postagem. Segundo o Facebook, esse post também passa a ser entregue a menos pessoas. Os fact-checkers gostariam de ter mais dados mais detalhados sobre esse impacto e parte tecnológica do programa, mas ainda não temos. Peço, inclusive, que questões relacionadas a isso sejam direcionadas ao Facebook – não aos checadores. 

Mas para elucidar o que é feito nesse programa, trouxe aqui dados  públicos que compilamos sobre a atuação da Lupa dentro do 3PFC. 

Em um ano e meio de programa, publicamos 655 checagens, que aparecem no site da agência com uma sinalização de “#Verificamos” nos títulos. Esses conteúdos são selecionados a partir de ferramentas de monitoramento de redes sociais. Uma delas é disponibilizada pelo Facebook. 

A Lupa confere, em média, 40 desses boatos, mensalmente. Mais de um por dia. Cerca de 70% deles envolvem questões políticas, e 20% dizem respeito ao que chamamos de cidades – ou seja questões relacionadas à segurança e educação, por exemplo. Em terceiro lugar aparece o conteúdo de saúde – o que nos preocupa demais. 

Para detectar a falsidade das informações, a Lupa utiliza as mesmas técnicas usadas no fact-checking, de recorrer a bases de dados públicas, e conta, também, com ferramentas de detecção de manipulação de fotos, vídeos e áudios. 

Como já disse, assim que a Lupa identifica o grau de veracidade do conteúdo, ela informa ao Facebook. Todas as consequências a partir de então são responsabilidade da plataforma.

Nesse um ano e meio, a checagem de notícias falsas cresceu bastante no Brasil e obviamente dentro da Lupa. Em 2015, os boatos respondiam por entre 20-/30% da produção da agência. Atualmente, gira em torno de 70% do conteúdo mensal. O resto é o que chamamos de checagem clássica – de frases ditas por pessoas conhecidas e que tem impacto no debate público.

E o interesse da audiência mostra que esse trabalho é importante. O número de pageviews obtidos pela Lupa com os #Verificamos mostra uma curva ascendente, com um pico, obviamente, em outubro 2018 (eleições). Naquele mês, 46 verificações tiveram 2,2 milhões de pageviews.

Analisamos também o conteúdo. Das 5 expressões mais frequentes nos títulos dos #Verificamos, 2 são nomes de políticos do PT: o ex-presidente Lula e o ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Dois são membros do atual governo. O presidente Jair Bolsonaro, que lidera o ranking, e o ministro Sérgio Moro. Para encerrar a lista das 5 expressões mais frequentes nas notícias falsas que verificamos, vale citar a presença do STF, alvo constante de dados equivocados.

Isso, senhores, mostra quem, ao longo desse um ano e meio de trabalho com o Facebook, tem sido mais alvo de notícias falsas, bem como o equilíbro entre nomes da oposição e do governo. São com levantamentos assim que a Lupa mostra seu compromisso com o código de ética da IFCN, entre eles a busca pelo apartidarismo.

Com relação ao que se convencionou chamar de “fake news”, antes de mais nada, eu gostaria de parabenizar esta comissão por manter essa questão em pauta. Nós, que trabalhamos com checagem de fatos, acreditamos que este termo não é o mais adequado para designar esse tipo de conteúdo, por se tratar de uma contradição. Algo que é falso não pode ser considerado notícia, de acordo com todas as teorias do Jornalismo das quais se tem conhecimento até agora. Por isso, adotamos o conceito de desinformação, que usamos para fazer referência, portanto, a esses conteúdos. Mas entendemos que a expressão se popularizou e que é natural que se faça uso dela.

É muito claro para quem tem trabalhado com este tema que ele ganha mais força a partir da polarização política no país. Mas, é preciso lembrar dos impactos que temos em outros âmbitos, como na área da saúde, por exemplo, com tratamentos sendo abandonados e a diminuição nos índices de cobertura vacinal no Brasil e em outros países do mundo. Também sabemos de casos extremos, em que um boato causou a morte de uma mulher, no interior de São Paulo, em 2014. Há casos de linchamento na Índia também. Portanto, gostaria de enfatizar que desinformação não é uma questão ligada apenas à política e que precisa ser observada sob os mais diferentes aspectos e também a partir do impacto na sociedade.

Também aproveito essa oportunidade para dizer que há checadores – não só no Brasil – que sofrem constantes ameaças e também são alvos de ódio digital, simplesmente por fazerem seu trabalho. Conto com a colaboração dos senhores, desde já, na luta pela manutenção de um diálogo não violento no mundo virtual e fora dele também. 

Por fim, eu – e a equipe de diretores da Lupa – acredito fortemente que a solução para lidarmos com este fenômeno passa muito mais pela educação do que pela criminalização do que se convencionou chamar de fake news. 

A Lupa tem farto material educativo e, como já disse antes, oferece treinamentos sobre checagem de fatos e sobre desinformação. Entendemos que precisamos de mais checadores em várias partes do país. Dentistas, médicos, professores, juízes, avós, tios… todos podem praticar a checagem. 

E eu gostaria de encerrar minha fala dizendo que a Lupa está disposta a trabalhar nesse sentido. Desde 2017 buscamos acesso a escolas e universidades para oferecer fact-checking como uma matéria curricular.

Temos a convicção de que algo assim  poderia render muito mais frutos à sociedade se estivesse presente nos planos de ensino do país desde os primeiros anos escolares. 

E acredito que esta vinda à CPI  também seja um espaço adequado para manifestar esse desejo de cooperação com as mais diferentes esferas públicas neste sentido. 

Fico à disposição para perguntas. Obrigada!

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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