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Em entrevista, Mandetta erra ao falar dados sobre o Programa Mais Médicos 

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
04.dez.2019 | 16h29 |

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, falou sobre o programa Mais Médicos e sobre os desafios da sua pasta em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no último domingo (1º). O Senado aprovou, na semana passada, a criação do programa Médicos pelo Brasil. A iniciativa vai substituir o Mais Médicos, criado em 2013, que procurava ampliar a oferta desses profissionais em todo o território brasileiro e contava com a participação de médicos brasileiros, cubanos (cooperados) e de outras nacionalidades. Em novembro de 2018, Cuba rompeu o acordo unilateralmente e saiu do programa.

Mandetta também falou sobre a luta contra a aids, uma vez que em dezembro é o mês de conscientização no combate a essa doença. A Lupa verificou algumas frases ditas pelo ministro da Saúde. Confira o resultado:

“Do ápice do programa [Mais Médicos] (…), ali [2014] chegou a ter quase 15 mil cubanos (…)”
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no dia 1º de dezembro de 2019

EXAGERADO

O número de profissionais cubanos no programa Mais Médicos jamais chegou a 15 mil. Os dados do Sistema Integrado de Informação Mais Médicos (SIMM) mostram que o maior número de médicos cooperados daquele país foi registrado em setembro de 2014: 11.234 profissionais. O dado mencionado pelo ministro da Saúde é 33,6% maior do que o real. 

A quantidade de médicos cubanos cresceu nos primeiros meses de 2014. Em janeiro daquele ano, apenas 5.941 profissionais daquele país estavam trabalhando no Mais Médicos. Esse número aumentou para 7.141 em fevereiro e cresceu para 11.197 em março – uma alta de 56,8%. Depois disso, os dados do SIMM apontam que a quantidade de cooperados no programa permaneceu na casa de 11 mil até 2015. Em 2016, no entanto, o número voltou a cair e, até o desligamento de Cuba, em novembro de 2018, jamais voltou aos patamares anteriores. 

Outro gráfico do SIMM mostra que 14.462 médicos trabalhavam no Mais Médicos em 2014. Desse total, no entanto, apenas 11.429 eram cubanos. Os outros 3.033 eram brasileiros ou profissionais de outras nacionalidades. 

Procurada, a assessoria do ministro não comentou.


“(…) Quando eles [Cuba] romperam [o contrato com o governo brasileiro] tinha 8.500 médicos cubanos no programa”
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no dia 1º de dezembro de 2019

VERDADEIRO

Os dados do Sistema Integrado de Informação Mais Médicos (SIMM) mostram que existiam 8.470 médicos cubanos no Programa Mais Médicos em outubro de 2018, ou seja, antes de Cuba decidir romper com o acordo. No dia 14 de novembro, o governo cubano anunciou a saída do programa e explicou que essa decisão foi baseada nas declarações feitas pelo presidente Jair Bolsonaro

Já uma reportagem da Veja mostrou que os médicos cooperados, na data do anúncio, representava mais da metade do total de profissionais do Mais Médicos. Segundo o veículo, naquela data, o programa contava com  8.332 cubanos, 4.525 brasileiros e outros 3.725 médicos intercambistas (de outras nacionalidades sem serem cubanos ou brasileiros). 


“Você trazia o cubano, sem a mulher, sem os filhos”
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no dia 1º de dezembro de 2019

FALSO

No acordo realizado entre os governos brasileiro e cubano, não havia previsão de que os médicos participantes não poderiam trazer seus filhos e cônjuges para o Brasil. Essa informação foi confirmada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que apoia ações dentro do Mais Médicos

Além disso, a Lei nº 12.871/2013, que institui e regulamenta o programa, indica que “o Ministério das Relações Exteriores poderá conceder o visto temporário (…) aos dependentes legais do médico intercambista estrangeiro, incluindo companheiro ou companheira, pelo prazo de validade do visto do titular”. 

Procurada, a assessoria do ministro não comentou.


“Nós passamos de 148 faculdades [antes do Mais Médicos] (…)”
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no dia 1º de dezembro de 2019

SUBESTIMADO

Segundo a Sinopse Estatística da Educação Superior de 2012, último ano antes do Mais Médicos, o número total de cursos de medicina ofertados no Brasil era de 199, espalhados em 184, e não 148, instituições de ensino. 88 desses cursos, ou 44,2%, estavam em instituições públicas. Veja os dados aqui.

Procurada, a assessoria do ministro não comentou.


“(…) [Passamos] para mais de 300, 320 [cursos de medicina atualmente]”
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no dia 1º de dezembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo a Sinopse Estatística da Educação Superior de 2018, havia 322 cursos de medicina no Brasil naquele ano, em 268 instituições. Desse total, 131 cursos, ou 40,6%, estavam em instituições públicas. Veja os dados aqui.


“Nós formávamos algo em torno de 13 mil médicos por ano [antes do Mais Médicos] (…)”
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no dia 1º de dezembro de 2019

SUBESTIMADO

Segundo a Sinopse Estatística da Educação Superior de 2012, eram 16.280 concluintes do curso de medicina naquele ano. Destes, 41,1% estavam matriculados em instituições públicas. Veja os dados aqui.

Procurada, a assessoria do ministro não comentou.


“(…) vamos entregar o diploma agora no final do ano para mais de 32 mil médicos”
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no dia 1º de dezembro de 2019

AINDA É CEDO PARA DIZER

Ainda não há dados disponíveis sobre o número de concluintes de cursos de medicina para 2019. Entretanto, no ano passado, o número estava muito abaixo do citado pelo ministro. Segundo a Sinopse Estatística da Educação Superior de 2018, o número total de concluintes era 19.234. Destes, 38,2% estavam matriculados em instituições públicas. Veja os dados aqui.


“200 mil pessoas que têm HIV e não fazem o teste”
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no dia 1º de dezembro de 2019

EXAGERADO

O Ministério da Saúde estima que 135 mil brasileiros estão infectados pelo vírus HIV e não sabem. O dado é tema da Campanha de Prevenção ao HIV/Aids, anunciada em 29 de novembro deste ano. O número mencionado pelo ministro é 48% maior do que o dado oficial divulgado pela sua pasta. 

Pessoas que têm o HIV podem desenvolver aids, ou síndrome da imunodeficiência adquirida. Nesses casos, o vírus ataca células do sistema imunológico da pessoa, responsável por defender o organismo de outras doenças, deixando-a vulnerável. 

A transmissão do HIV acontece nas seguintes situações: sexo vaginal sem camisinha, sexo anal sem camisinha, sexo oral sem camisinha, uso de seringa por mais de uma pessoa, transfusão de sangue contaminado, da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação e pelo uso de instrumentos que furam ou cortam não esterilizados.

Atualização às 20h20 do dia 4 de dezembro de 2019: Em nota, a assessoria do ministro afirmou que 135 mil é “uma estimativa” e que, por isso, o número foi “arredondado”.

Editado por: Maurício Moraes

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EXAGERADO
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A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
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Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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