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Dezembro Vermelho: mitos e verdades no Twitter sobre o vírus HIV e a Aids

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.dez.2019 | 07h01 |

Em dezembro de 2017, o Congresso Nacional aprovou uma lei que institui a campanha Nacional de prevenção ao HIV/AIDS e outras infecções sexualmente transmissíveis. Com isso, o mês de dezembro passou a ser denominado “dezembro vermelho”, para conscientizar os brasileiros sobre a questão. 

O HIV é um retrovírus que ataca o sistema imunológico, responsável por defender o corpo contra doenças, e pode ser contraído durante relações sexuais, uso de drogas injetáveis ou transfusões de sangue. A infecção por esse vírus pode resultar no desenvolvimento da Aids.

Os dados do Boletim Epidemiológico de HIV/Aids 2019 mostram que 43.941 pessoas foram diagnosticadas com o vírus no Brasil em 2018. Contudo, ainda existem casos de pessoas que não sabem que têm o HIV. O Ministério da Saúde estima que 135 mil brasileiros estão infectados e desconhecem esta situação. O dado é tema da Campanha de Prevenção ao HIV/Aids, anunciada em 29 de novembro deste ano. 

No Dezembro Vermelho, a Lupa checou tuítes feitos recentemente sobre o assunto. Veja o resultado:

“Acabei de lembrar do dia do acidente que eu tava fazendo os primeiros socorros no homem e ele sangrando e minha prima falando (gritando) que eu ia pegar AIDs”
Usuário do Twitter no dia 4 de dezembro de 2019

FALSO

A situação mencionada pelo usuário do Twitter não é listada como uma forma de contrair o vírus HIV, que causa a Aids. Em seu site, o Ministério da Saúde informa sete maneiras de transmissão do vírus. São elas: sexo sem camisinha (vaginal, anal e oral); compartilhamento de seringas; transfusão de sangue, se ele estiver contaminado; da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação e através de instrumentos que furam ou cortam e que não tenham sido esterilizados.

No cenário citado no tuíte, teoricamente, a pessoa prestando o primeiros socorros poderia contrair o vírus caso ela também tivesse com um corte no corpo e houvesse contato com sangue infectado. Entretanto, as chances dessa transmissão ocorrer podem ser consideradas nulas. Em todo caso, ao prestar primeiros socorros, é sempre recomendável o uso de luvas quando o paciente estiver sangrando, visto que há o risco de contágio por outras doenças.

O ministério lembra ainda outras situações em que uma pessoa não é contaminada pelo HIV. São elas: sexo desde que se use corretamente a camisinha; masturbação a dois; beijo no rosto ou na boca; suor e lágrima; picada de inseto; aperto de mão ou abraço; sabonete/toalha/lençóis e entre outros


“O Brasil é o único país que oferece tratamento gratuito pro vírus HIV”
Usuário do Twitter no dia 10 de dezembro de 2019

FALSO

A assessoria de imprensa do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids) informou, em nota, que o Brasil não é o único país a oferecer o tratamento gratuito. Segundo a entidade, “alguns países oferecem o tratamento com recursos domésticos, outros utilizam recursos internacionais”. A Unaids, no entanto, informou que não tem uma lista atualizada com todos os países nessas situações.

A assessoria de imprensa do Médicos Sem Fronteiras (MSF) também confirma que o Brasil não é o único país que oferece o tratamento gratuitamente. Em nota, a entidade destaca o trabalho realizado na África do Sul, que atualmente conseguiu alcançar bons níveis de erradicação do vírus. 

Por telefone, o coordenador no Brasil da Campanha de Acesso a Medicamentos do MSF, Felipe Carvalho, informou que Argentina, Tailândia e Reino Unido são outros exemplos de países que oferecem o tratamento de forma gratuita.


“O sexo anal é a prática sexual que tem maior risco de exposição ao HIV”
Usuário do Twitter no dia XX de dezembro de 2019

VERDADEIRO, MAS

O sexo anal é, de fato, a prática sexual com maior probabilidade de uma pessoa ser exposta ao vírus HIV. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids), a probabilidade de se contrair o vírus por sexo anal receptivo é 17 vezes maior do que sexo vaginal receptivo. 

Quando uma pessoa faz sexo anal receptivo com um parceiro infectado, a chance de transmissão é de 138 para 10.000. Para o sexo vaginal receptivo, a probabilidade cai para oito. No caso do sexo anal insertivo, a chance é de 11 para 10.000, enquanto no sexo vaginal insertivo a chance é de quatro para 10.000. 

No entanto, a prática sexual não é a única forma de ser contaminado pelo HIV e também não é a mais provável. Segundo a Unaids, a contaminação por transfusão de sangue infectado é a forma com maior probabilidade de uma pessoa ser exposta ao HIV. O risco de uma pessoa ser exposta ao vírus em uma transfusão é 67 vezes maior do que por sexo anal: 9.250 para cada 10.000. Isso, claro, quando o sangue utilizado na transfusão contém o vírus.


“Pretas e pretos no topo. (…) Do HIV/AIDS”
Usuário do Twitter no dia 10 de dezembro de 2019

VERDADEIRO

Segundo o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids 2019, 54,3% das pessoas diagnosticadas como portadoras do vírus HIV de 2007 até junho de 2019 são negras, considerando somente as pessoas cuja raça é conhecida – 275,4 mil casos (o que equivale a 91,6% dos casos). Destas, 42,7% são pardas e 11,6% são pretas.

A proporção se assemelha à distribuição racial no país: segundo o IBGE, 46,9% das pessoas do país se declaram pardas, enquanto 9,2% se declaram pretas. Entretanto, proporcionalmente, o crescimento no número de infectados é maior entre pessoas negras.

Em 2007, primeiro ano com dados no boletim, o número de negros infectados era equivalente a 43,4% do total, desconsiderando as pessoas cuja raça não é informada. Em 2019, eles representam 65,9% do total.

O relatório mostra, ainda, que, atualmente, o número de mortes por Aids é mais alto entre negros: 59,9% do total em 2018. 45,4% dos óbitos são de pardos e pardas e 14,5%, de negros e negras. Nos óbitos relacionados à doença, é possível verificar a mesma tendência de crescimento proporcional.


“Atenção: Porto Alegre é a capital brasileira que tem maior nº de gestantes com HIV”
Usuário do Twitter no dia 29 de novembro de 2019

VERDADEIRO

De acordo com o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids 2019, Porto Alegre é a capital com a maior taxa de gestantes infectadas pelo HIV no país. Em 2018, para cada mil partos realizados na capital gaúcha, 20,2 eram de mulheres portadoras do vírus. Essa taxa é mais do que o dobro da segunda colocada, Florianópolis, com 9,3, e quase sete vezes superior à média nacional, 2,9. Porto Alegre lidera esse ranking em todos os anos da série histórica, iniciada em 2008.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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