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Foto: Isac Nóbrega, PR
Foto: Isac Nóbrega, PR

Decretos, obras e o sargento-traficante: as fakes sobre Bolsonaro mais populares em 2019

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.dez.2019 | 07h36 |

Neste 31 de dezembro, o Brasil completa seu primeiro ano com Jair Bolsonaro como presidente da República. Em apenas 365 dias, a Lupa verificou 43 conteúdos atribuindo ao atual governo ações que não foram tomadas. Alguns desses conteúdos visavam inflar os resultados reais da atual administração; outros, criticar o presidente por fatos que não ocorreram. Há, ainda, interpretações equivocadas de decisões tomadas pelo presidente.

Já no dia 8 de janeiro, circulava uma “notícia” de que Bolsonaro teria assinado um decreto decretando o fim da parada gay e do carnaval. Um mês depois, um decreto de Bolsonaro teria retirado R$ 600 bilhões dos aposentados. Nenhum dos dois era verdade. O segundo era um erro de interpretação de um decreto que transferia os recursos do Regime Geral da Previdência Social do Ministério do Desenvolvimento Social, que foi extinto, para o Ministério da Economia. O primeiro era pura imaginação.

Ao longo do ano, outros decretos falsos pipocaram nas redes. Um deles, convocava todos os homens brasileiros com entre 18 e 60 anos para participarem de um treinamento militar secreto em pleno carnaval. Outro, tornava toda a Amazônia uma “área militar”.

Foi comum, ao longo do ano, que internautas atribuíssem ações de governos passados a Bolsonaro. Em setembro, a Funai “reestruturada por Bolsonaro” descobriu uma fraude envolvendo venda de terras indígenas para uma empresa da Irlanda. Em dezembro, foi a vez dele acabar com a mamata de 2.272 prefeitos, vice-prefeitos e vereadores que recebiam Bolsa Família. Os dois casos são reais, mas aconteceram durante o governo de Dilma Rousseff (PT).

Ações do governo Michel Temer (MDB) também foram atribuídas ao atual presidente. Ao longo de todo ano, uma mensagem dizendo que Bolsonaro estava fazendo “o sertão virar mar”, com a instalação de 200 poços foi compartilhada nas redes, em diversas versões diferentes. Na realidade, a Operação Semiárido, realizada pelo Exército a partir de 2016, perfurou 593 poços na região, dos quais 307 tinham água e foram instalados. Apenas 95 foram feitos em 2019.

Durante todo ano, diversas fotos de obras de infraestrutura, incluindo pavimentação e construção de trilhos de trem, foram atribuídas ao atual governo, mas boa parte delas eram anteriores a 2019 – e, algumas, nem relação com o governo tinham.

Também foram comuns confusões sobre ações que o governo realmente tomou. Quando o governo anunciou a liberação de até R$ 500 de contas ativas e inativas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), muitos denunciaram falsamente que, ao aderir a essa medida, o trabalhador estaria abrindo mão de ter acesso a todos os recursos do fundo caso fosse demitido, por exemplo. Isso só vale para quem aderir a modalidade de saques anuais no aniversário, uma medida diferente tomada pelo governo neste ano.

Quando Bolsonaro completou 100 dias no poder, uma lista com 31 supostas ações do seu governo circulou nas redes sociais. A maioria delas era falsa ou exagerada, embora algumas, de fato, fossem verdadeiras.

Sargento onipresente

Durante 2019, várias fotos antigas de Bolsonaro foram “desenterradas”. Muitas delas, porém, erravam ao indicar os personagens envolvidos. O sargento Manoel Silva Rodrigues, preso após transportar 39 quilos de cocaína no avião presidencial, foi erroneamente identificado em duas fotos do presidente. Em uma delas, Bolsonaro, na verdade, posava com o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ). Em outra, com um segurança do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), filho do presidente. 

O próprio Flávio também foi vítima de uma notícia falsa similar envolvendo o sargento Rodrigues. A pessoa na foto era um sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro sem qualquer relação com o caso. Também filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) apareceu em uma montagem com o mesmo personagem.  

Também foram atribuídos ao presidente vários tuítes que ele jamais publicou. Em um deles, Bolsonaro se solidarizava com os ingleses pelo incêndio da Catedral de Notre Dame, na França. Em outro, dizia que o povo era soberano para pedir o impeachment de um governante caso ele “só fizesse merda”. Também foram inventadas declarações de Bolsonaro dizendo que “índios são animais” e que a indignação pela morte da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) era “mimimi”.

Família

Durante o ano, notícias falsas sobre a família de Bolsonaro também circularam nas redes. Um usuário do Twitter chegou a criar um perfil falso do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) com o nome “Carlos Boisonaro”, com o “i” capitalizado para simular um “l”. Esse fake fez um tuíte dizendo que o presidente tinha direito a roubar por mais 12 anos antes que alguém reclamasse.

Já a primeira-dama Michelle Bolsonaro apareceu, falsamente, como autora da seguinte pérola: “A Lua é muito mais importante que o sol, porque ela vem à noite, quando está escuro. Já o Sol aparece de dia, quando já está tudo claro, ou seja, não tem utilidade nenhuma”. Curiosamente, a autoria desse pensamento também foi falsamente atribuída a ninguém menos do que a ex-presidente Dilma.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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