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Auxílio pet shop, adega milionária e Globo nas arábias: as notícias falsas sobre adversários de Bolsonaro

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
31.dez.2019 | 10h13 |

Em 2019, não foi só o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seus ministros que foram alvos de notícias falsas, contra ou a favor. Políticos de oposição, assim como instituições de controle, organizações não-governamentais, empresas e governos estrangeiros também foram alvo de desinformação nas redes. Ao todo, a Lupa verificou 242 conteúdos falsos envolvendo esses personagens.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi um dos alvos preferenciais dos divulgadores de informações falsas. Ao todo, foram 36 conteúdos inverídicos verificados pela Lupa ao longo do ano, uma média de três por mês. Apesar de as acusações terem ficado mais frequentes no mês de novembro, quando ele deixou a prisão em Curitiba, o ex-presidente foi lembrado ao longo de todo ano.

Alguns dos conteúdos envolvem acusações de desvios de dinheiro como uma “poupança” de US$ 108 milhões de dólares no exterior, jamais comprovada. Fotos de falsas propriedades do ex-presidente também foram divulgadas. Foram atribuídos a Lula uma adega – que, na verdade, é de um restaurante em Curitiba -, uma propriedade em Goiás de empresários do setor farmacêutico e até mesmo o campus de uma universidade em Piracicaba, interior de São Paulo.

Também foram atribuídas a Lula falsas declarações, como a de que compraria “o voto dos baianos por R$ 10” e que “nem a volta de Jesus Cristo” iria impedi-lo de voltar à presidência. Alguns conteúdos inverídicos, porém, buscavam enaltecer a imagem do ex-presidente, como uma foto da Torre Eiffel iluminada de vermelho supostamente em sua homenagem. A imagem era antiga, e a homenagem era à China.

Outras personalidades do PT também foram alvo de notícias falsas em 2019. A Lupa desmentiu oito conteúdos sobre a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), presidente do partido, entre eles uma falsa declaração de que a seca no Nordeste seria um “patrimônio cultural” do Brasil

A ex-presidente Dilma Rousseff também foi alvo de factoides. Ela foi acusada, por exemplo, de confundir uma estátua de John Lennon com Elvis Presley e de dizer que a Lua era mais útil que o Sol por iluminar à noite, “quando está tudo escuro”. Frase idêntica foi atribuída também à primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Nenhuma das duas jamais falou algo parecido.

Outros alvos

Embora não possa ser considerada uma instituição de “oposição” ao governo, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi bastante atacado por defensores de Bolsonaro. Ao todo, a Lupa verificou 18 conteúdos falsos sobre a corte, acusada de libertar criminosos conhecidos, como Elias Maluco, João de Deus e Alexandre Nardoni. Também circulou que o STF aprovou um “auxílio pet shop” para os ministros, algo que, obviamente, nunca existiu.

A imprensa também foi alvo de várias notícias falsas. A Lupa encontrou 10 conteúdos falsos envolvendo o Grupo Globo, incluindo uma falsa operação da Polícia Federal contra a empresa. Também foi publicado que o grupo pertence a “países árabes”, em uma publicação com erros notórios sobre política do Oriente Médio, e que a companhia recebeu R$ 2 bilhões do ex-presidente Lula – com direito a uma “nota fiscal” grosseiramente manipulada

O Grupo Folha também foi alvo de ataques. Em dezembro, uma suposta organização de checagem trouxe “provas” de que uma pesquisa do Datafolha tinha sido fraudada. A “prova” era uma compreensão bastante equivocada de como funciona o arredondamento de números racionais. Já o Estadão foi alvo de uma inverdade divulgada, inclusive, pelo próprio Bolsonaro. A jornalista Constança Rezende, à época repórter do Estadão, foi acusada de dizer que queria “arruinar” o governo pelo site Terça Livre. No vídeo que “provaria” a acusação, publicado pelo próprio site, ela não disse isso em nenhum momento.

No segundo semestre, governos estrangeiros como o da França e o da Noruega, ONGs como o Greenpeace e a ativista sueca Greta Thunberg também foram alvo de conteúdos falsos após se posicionarem contra a política ambiental do governo Bolsonaro. 

Alvos temporários

É possível perceber que, ao longo do ano, houve ataques a determinadas pessoas e organizações assim que elas entravam em choque com o governo. Em 3 de julho, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) chamou Sérgio Moro de “juiz ladrão”. A Lupa verificou três notícias falsas circulando contra o parlamentar nos dias 4 e 5. Uma delas era um vídeo do mensalão do DEM, de 2009, no qual um dos personagens era falsamente identificado como o deputado do PSOL. 

Algo parecido aconteceu com o jornalista Glenn Greenwald, do The Intercept Brasil, acusado de ligar 17 vezes para o autor do atentado contra Bolsonaro, e com Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Neste caso, o alvo das notícias falsas foi seu pai, Fernando Santa Cruz, morto por agentes da repressão durante a ditadura militar.

Em outros casos, notícias falsas envolvendo adversários do governo foram usadas para tentar legitimar ações da presidência. Quando Bolsonaro tentou indicar seu filho, Eduardo Bolsonaro, para embaixador em Washington, foram “inventados” vários ocupantes do mesmo cargo, como o senador Aloysio Ferreira Nunes (PSDB-SP), a economista Zélia Cardoso de Mello e a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ)

Caso Marielle

Em março de 2018, a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e o motorista Anderson Gomes foram assassinados no Rio de Janeiro. Um ano depois, notícias falsas sobre a investigação do caso continuam circulando. Uma das mais compartilhadas foi a de que a polícia teria prendido um criminoso chamado Thiago Macaco, e que ele seria o responsável pelo crime – algo que foi negado pelos investigadores. Em novembro, um vídeo com acusações falsas contra a vereadora foi publicado por uma mulher identificada, erroneamente, como sua tia.

Editado por: Natália Leal

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