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Bolsonaro, Salles e Onyx erram ao comparar incêndios na Amazônia e Austrália
10.01.2020 - 07h00
Rio de Janeiro - RJ
O presidente Jair Bolsonaro e os ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, começaram o ano comparando a onda de incêndios que atinge a Austrália com as queimadas na Amazônia no ano passado. Em suas redes sociais, os três criticaram figuras públicas que haviam se manifestado sobre o problema brasileiro, como o presidente da França, Emmanuel Macron, e a ativista Greta Thunberg, alegando que os dois silenciaram sobre a catástrofe recente. Também citaram números sobre o fogo na Amazônia, numa tentativa de minimizar o problema. A Lupa checou algumas das falas das três autoridades. Confira o resultado:
“Na Austrália, [queimou] quase seis vezes mais [que a Amazônia]”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em post publicado no Twitter no dia 3 de janeiro de 2020
Exagerado
Embora os incêndios na Austrália tenham sido maiores do que os da Amazônia, a proporção está longe da citada pelo ministro. Em 6 de janeiro, estimativa mais recente feita pela Australia Associated Press (AAP) com base em dados divulgados em nível estadual, os incêndios tinham afetado uma área de 107 mil km² desde agosto de 2019. Isso representa pouco mais do que o dobro da área queimada na Amazônia nos meses entre julho e novembro de 2019, 50,9 mil km².
Salles usou a comparação entre os incêndios na Austrália e na Amazônia para criticar organizações não-governamentais de defesa do meio ambiente e jornalistas. Segundo ele, ambos “só se importam em falar mal de seu próprio país e, claro, sempre contra o governo”. Para o ministro, há “seletividade absoluta” nesses comentários.
A Lupa procurou o ministro para comentar a checagem, mas ele não respondeu.

“Sibéria queimou três vezes mais que a Amazônia”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em post publicado no Twitter no dia 3 de janeiro de 2020
Exagerado
Entre junho e julho de 2019, auge do verão na Rússia, a Sibéria registrou severas queimadas. Entretanto, a área atingida não foi “três vezes maior” do que os incêndios registrados na Amazônia, e sim menos que o dobro. Segundo a Agência Federal de Florestamento da Rússia, durante esses dois meses, cerca de 70 mil km² de florestas queimaram. Na Amazônia, também em dois meses, agosto e setembro, a área atingida foi de 41,2 mil km².
A Lupa procurou o ministro para comentar a checagem, mas ele não respondeu.

“Aquela menina também lá [Greta Thunberg], aquela ‘pequeninha’ lá, falou alguma coisa também? Não falou nada também?”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em live no Facebook em 2 de janeiro de 2020
Falso
Ao contrário do que o presidente afirma, a ativista sueca Greta Thunberg se pronunciou inúmeras vezes sobre os incêndios na Austrália. Ela chegou, inclusive, a trocar farpas pelo Twitter com o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison.
Em 22 de dezembro, ela escreveu, no Twitter: “Nem mesmo catástrofes como essa parecem gerar alguma ação política. Como é possível?”, disse, ao compartilhar vídeo de incêndio na Austrália. Morrison respondeu que não achava pertinente comentar “o que pessoas de fora da Austrália acham que a Austrália deve fazer”.
Essa, porém, não foi a primeira vez que ela se manifestou sobre os incêndios que atingem aquele país no Twitter. Em 10 de novembro, Greta compartilhou um artigo sobre incêndios florestais em New South Wales, publicado no jornal Sidney Morning Herald. Dois dias depois, ela compartilhou uma carta aberta escrita por um estudante australiano ao premiê Morrison, dizendo que “orações não são o suficiente”. Desde então, ela compartilha textos e faz comentários frequentes sobre os incêndios no país.
A Lupa procurou o presidente para comentar a checagem, mas ele não respondeu.

“Muito triste a perda de vidas com os incêndios florestais na Austrália. Mas também é preciso registrar o silêncio ensurdecedor de Macron e a ‘Europa verde’.”
Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, em post publicado no Facebook em 1º de janeiro de 2020
Verdadeiro, mas...
No dia 1º de janeiro, quando o ministro Onyx Lorenzoni comentou sobre os incêndios na Austrália no Facebook, o presidente da França, Emmanuel Macron, ainda não havia se manifestado sobre o fogo naquele país. Em 22 de agosto, Macron convocou integrantes do G7 para discutir a crise das queimadas na Amazônia, ao publicar um tuíte sobre o tema. Isso provocou uma crise com o governo brasileiro, que o acusou de interferir na soberania nacional.
No último domingo (5), o presidente francês anunciou o envio de ajuda para combater as queimadas, por meio de um post no seu perfil oficial no Twitter: “Expresso nossa solidariedade com o povo australiano diante dos incêndios que estão atualmente devastando o país. Liguei para @ScottMorrisonMP [Scott Morrison, primeiro-ministro da Austrália] esta manhã para oferecer assistência operacional imediata da França no combate a incêndios, proteção da população afetada e preservação da biodiversidade.”

“‌Não podemos esquecer o que ocorreu em 2019, e as fake news capitaneadas por eles [Macron e a ‘Europa verde’] com as queimadas abaixo da média histórica na Amazônia.‌”
Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, em post publicado no Facebook em 1º de janeiro de 2020
Verdadeiro, mas...
As queimadas na Amazônia em 2019 de fato ficaram abaixo da média da série histórica, de acordo com dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foram detectados 89.178 focos de incêndio no bioma no último ano, contra uma média de 112.032 pontos na série histórica, iniciada em 1998. O número, contudo, indicou alta de 30,4% em relação a 2018, quando o Inpe detectou 68.345 focos de incêndio. Além disso, o número foi ligeiramente superior à média dos últimos 10 anos, 87.992.
O mesmo vale para a área afetada: 72,5 mil km² foram queimados no período, contra uma média histórica de 87,3 mil km² na série histórica, iniciada em 2002, e 68,3 mil km² nos últimos dez anos. Em 2018, a área afetada foi de 43,2 mil km².

“Mas o somatório do que aconteceu no Brasil no ano passado [nas queimadas da Amazônia] (…) [está] abaixo das médias nos últimos anos (…)”
Jair Bolsonaro, presidente da República, em live no Facebook em 2 de janeiro de 2020
Exagerado
O número de focos de incêndio na Amazônia em 2019 – 89.178 – superou a média registrada nos últimos dez anos, de 87.992 pontos, de acordo com os dados do Inpe. Esse total só não foi maior do que o de 2010 (134.614), 2015 (106.438) e 2017 (107.439).
Os dados se repetem quando é considerada a área atingida pelo fogo, de 72,5 mil km² no bioma. Segundo o Inpe, o valor também foi maior que a média dos últimos dez anos (68,3 mil km²) e superou o total em 2010 (112,8 mil km²), 2015 (93,6 mil km²) e 2017 (91,2 mil km²).
A Lupa procurou o presidente para comentar a checagem. Por e-mail, o Palácio do Planalto disse que ele não falaria.
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