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#Verificamos: Vendedores de GeniuX usam falsa reportagem, inventam instituto e pirateiam site de dr. Drauzio

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.jan.2020 | 16h19 |

Circula nas redes sociais um texto que afirma que o médico Drauzio Varella, em entrevista para o programa Fantástico, da TV Globo, recomendou um produto chamado GeniuX para a perda de memória. A publicação diz que a revista Forbes chamou o produto de “Viagra para o cérebro”, que pesquisas da Universidade de Miami mostraram que o medicamento causa “a ativação de áreas do cérebro ligadas à memória” e que a Anvisa liberou a compra do produto para “melhorar a memória do brasileiro”. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da ​Lupa​:

“Reportagem do Fantástico Anuncia: O Fim da Perda de Memória Finalmente Chega ao Brasil”
Texto publicado em site pirata do médico Drauzio Varella que, até as 16h do dia 10 de janeiro de 2020, tinha sido compartilhado por cerca de 400 pessoas no Facebook

FALSO

A afirmação analisada pela Lupa é falsa. Segundo o texto, a reportagem do Fantástico foi uma entrevista com o doutor Drauzio Varella, na qual ele recomenda um produto chamado GeniuX. Essa entrevista nunca existiu, e Varella já afirmou em diversas ocasiões que não faz propaganda para nenhum produto. Em seu site oficial, há um banner com os dizeres: “Dr. Drauzio não faz propaganda de remédios, não compre”.

O texto foi publicado em uma página com layout copiado do site oficial de Varella, mas hospedado em um domínio chamado “jornal-hoje.news”. O logotipo do site do médico foi pirateado, e as fontes utilizadas nos títulos e no texto são similares. 

Essa mesma estratégia foi utilizada na venda de outros produtos. No ano passado, a Lupa observou as mesmas características em uma falsa propaganda de um remédio para diabetes e de um suplemento alimentar contra o envelhecimento.

A reportagem procurou a assessoria de Varella, que confirmou a falsidade da recomendação. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o médico classificou a associação de seu nome com produtos similares como “estelionato”. “Caro leitor, se você caiu na armadilha de adquirir esse produto, nem se dê ao trabalho de cancelar a compra. O site dos vigaristas não aceita devolução. Jogue essa porcaria no lixo. Não vá tomar as cápsulas, sabe-se lá que m.. puseram dentro”, disse.


“O instituto de neurociências da Universidade de Miami realizou um teste com mais de 2.000 indivíduos. 97% deles apresentaram resultados similares aos mostrados na foto, com a ativação das áreas cerebrais ligadas à memória, raciocínio e pensamento lógico”
Texto publicado em site pirata do médico Drauzio Varella que, até as 16h do dia 10 de janeiro de 2020, tinha sido compartilhado por cerca de 400 pessoas no Facebook

FALSO

Não existe um Instituto de Neurociências na Universidade de Miami, nos Estados Unidos. O mais próximo disso são o Instituto do Cérebro Evelyn F. McKnight e o Departamento de Neurologia. Não foi possível encontrar nenhuma pesquisa feita por essas duas instituições vinculando o uso de GeniuX e ativação de áreas cerebrais.

Essa imagem circula na internet há anos com diferentes afirmações falsas sobre diferentes produtos. Em peças publicitárias divulgadas para o público norte-americano, por exemplo, a imagem foi vinculada a uma pesquisa da Unidade de Testes Clínicos de Nottingham (NCTU, da sigla em inglês), centro de pesquisas do Reino Unidos. Os cérebros representariam o uso de um produto chamado Brain Storm Elite. O centro de pesquisas negou à revista Forbes qualquer relação com esse produto.

No Brasil, a mesma imagem foi utilizada como propaganda de um outro produto, chamado Neurofos. A diferença é que a “pesquisa” teria sido realizada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os sites E-Farsas e Psicologia dos Psicólogos verificaram, em 2015 e 2016, respectivamente, a falsidade dessa afirmação. Há ainda diversos outros produtos de qualidade duvidosa utilizando essa imagem, como o Brainboosters, o Intelimax IQ e o Power Mind X.


“A revista americana Forbes (responsável por divulgar a lista das pessoas mais ricas do mundo) fez uma matéria especial sobre GeniuX, chamando-o de ‘Viagra para o cérebro’”
Texto publicado em site pirata do médico Drauzio Varella que, até as 16h do dia 10 de janeiro de 2020, tinha sido compartilhado por cerca de 400 pessoas no Facebook

FALSO

Em fevereiro de 2002, a revista Forbes publicou uma reportagem intitulada “Viagra para o cérebro”. O assunto, porém, não era o produto GeniuX, e sim empresas farmacêuticas grandes e pequenas que estavam pesquisando medicamentos para reverter perda de memória, Alzheimer e outros problemas decorrentes do envelhecimento do cérebro.

Treze anos depois, a própria Forbes publicou um artigo sobre como essa reportagem estava sendo usada como propaganda por empresas de suplementos de qualidade duvidosa. No caso, o produto era o Brain Storm Elite. O layout utilizado era bastante parecido com a imagem acima. Outros produtos de qualidade duvidosa também utilizaram essa mesma imagem, como o Brain Plus IQ e o Addium.


“A ANVISA, sabendo da necessidade do Brasileiro, liberou a compra do produto sem a necessidade de receita. A ideia é facilitar o acesso ao produto para melhorar a memória do Brasileiro, sobretudo aquele que já passou da casa dos 50”
Texto publicado em site pirata do médico Drauzio Varella que, até as 16h do dia 10 de janeiro de 2020, tinha sido compartilhado por cerca de 400 pessoas no Facebook

FALSO

No site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é possível consultar o registro de produtos e medicamentos. O nome GeniuX não aparece. A Lupa contatou a agência, que, por-email, respondeu o seguinte: “O produto em questão não está regularizado na Anvisa”.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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