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Foto: Benedikt von Loebell, World Economic Forum
Foto: Benedikt von Loebell, World Economic Forum

Maioria das parcerias anunciadas por Doria em Davos em 2019 ainda não saiu do papel

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.jan.2020 | 07h30 |

Ao participar do Fórum Econômico Mundial de 2019 em Davos, na Suíça, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou cinco parcerias e investimentos para o estado. Passado um ano do encontro, contudo, apenas dois deles se concretizaram. Outros dois eram iniciativas anteriores ao seu mandato, iniciado em 1º de janeiro do ano passado, e outro ainda não teve qualquer resultado concreto. O governador pretende participar este ano novamente do evento, que ocorre entre os dias 21 e 24 de janeiro. A Lupa analisou cinco tuítes de Doria publicados durante a última edição do fórum. Veja, a seguir, o resultado:

“Em reunião com Scott Strazik, CEO da General Electric Power, conversamos sobre o projeto da empresa investir US$ 1 bilhão ao longo dos próximos 5 anos em Lins, no interior paulista. Projetos desta magnitude vão fomentar o desenvolvimento de SP e gerar mais empregos p/ a população”
João Doria, governador de São Paulo, em tuíte publicado em 23 de janeiro de 2019 durante viagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

AINDA É CEDO PARA DIZER

O investimento da General Electric (GE) em Lins, no interior de São Paulo, está prometido para uma usina termelétrica que ainda não foi construída. O projeto tem sido discutido pelo menos desde 2016, ou seja, antes do mandato de Doria, e conta com apoio tanto do governo do estado quanto da prefeitura. A construção da usina será feita pela Ômega Engenharia, empresa parceira na iniciativa e responsável pela operação. A GE fornecerá os equipamentos. A termelétrica terá uma potência instalada de 2.050 megawatts e usará gás natural para produzir energia.  

Em entrevista à Lupa por telefone, o secretário municipal de Desenvolvimento Sustentado e de Relações Institucionais de Lins, Israel Antonio Alfonso, afirmou que a construção da termelétrica depende do resultado do leilão que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deve promover em abril deste ano. A instabilidade política na Bolívia tem sido um obstáculo para o projeto, que usa o gás natural como matéria-prima. A área onde ficará a termelétrica foi cedida pela prefeitura e sua escolha teve suporte da agência estatal Investe São Paulo. “O gasoduto Brasil Bolívia passa a menos de quatro quilômetros do local onde a usina vai ser construída”, disse.

O estudo de impacto ambiental e o relatório de impacto ambiental (EIA-Rima) produzidos pela Mineral Engenharia e Meio Ambiente para a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) ficaram prontos em 2018. A conclusão foi favorável à construção da usina. O documento informa ainda que a obra terá uma duração de 36 meses – ou seja, só terminará em 2023 se for iniciada este ano. A GE enviou uma nota à Lupa dizendo que não vai se pronunciar sobre o assunto.

A assessoria de imprensa de Doria contestou o resultado da checagem e afirmou, em nota enviada à Lupa, que a empresa está seguindo todos os procedimentos para a instalação da termelétrica em Lins. “O governador não deu prazo justamente por haver etapas a cumprir e tal cronograma não depende nem de decisão da empresa, que já está tomada, nem do governo do estado”, diz o texto.


“Após reunião aqui no Fórum Econômico Mundial, o instituto Novartis de Pesquisas Biomédicas demonstrou grande interesse em uma parceria com a USP e o Instituto Butantan para investimentos na área de pesquisa. Recursos importantes para o contínuo desenvolvimento deste setor em SP”
João Doria, governador de São Paulo, em tuíte publicado em 24 de janeiro de 2019 durante viagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

AINDA É CEDO PARA DIZER

Apesar de a Novartis ter intenção de realizar parcerias com a USP e o Instituto Butantan, até o momento nada foi concretizado. Em e-mail enviado à Lupa, a assessoria de imprensa da empresa informou que as parcerias citadas pelo governador estão em análise e “serão detalhadas em momento oportuno”. O Instituto Butantan também informou, por e-mail, que foi criado um grupo de trabalho para discutir uma parceria na área de biofármacos. Passado um ano do anúncio de Doria em Davos, portanto, ainda não houve resultado prático.

Por meio de uma nota, a assessoria de imprensa do governador de São Paulo afirmou que Doria mencionou apenas que a Novartis demonstrou interesse e não definiu nenhum prazo para a concretização das parcerias.


“Reunião com executivos globais da Merck, empresa parceira do Governo de SP e do Instituto Butantan. Fico feliz em anunciar que, após um longo período de pesquisas, lançaremos a vacina antidengue em parceria com o laboratório. #SPemDavos”
João Doria, governador de São Paulo, em tuíte publicado em 24 de janeiro de 2019 durante viagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

AINDA É CEDO PARA DIZER

O Instituto Butantan e a farmacêutica norte-americana Merck (conhecida pela sigla MSD) firmaram um acordo de colaboração para o desenvolvimento de uma vacina contra a dengue. Isso ocorreu, no entanto, em dezembro de 2018 – ou seja, antes de Doria assumir o mandato como governador de São Paulo, em 1º de janeiro de 2019. Ambos estão pesquisando a vacina contra os quatro tipos da doença e, com a parceria, passaram a ter uma colaboração tecnológica e compartilhar informações.

Os produtos são independentes. A assessoria de imprensa do Butantan afirmou que a vacina contra a dengue desenvolvida pelo instituto está em fase final de ensaios clínicos. Estão sendo monitorados 17 mil voluntários em todas as regiões do país. A MSD também está produzindo a sua própria vacina, voltada para o mercado norte-americano. Na época em que foi acertada a parceria, estava ainda na primeira fase de ensaios clínicos.

Em nota enviada à Lupa, a assessoria de imprensa de Doria disse que em nenhum momento o governador disse que a parceria ocorreu em sua gestão. De acordo com o Palácio dos Bandeirantes, a vacina será lançada ainda nesta gestão.


“Mais uma boa notícia fruto dos encontros que tivemos aqui em Davos, na Suíça. O grupo indonésio RGE revelou grande interesse em fazer um investimento de R$ 7 bilhões em nosso Estado. Vamos avançar com as negociações ainda nesta semana e trarei novidades. #SPemDavos”
João Doria, governador de São Paulo, em tuíte publicado em 24 de janeiro de 2019 durante viagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

VERDADEIRO

Em julho do ano passado, a empresa Bracell, que integra o grupo Royal Golden Eagle (RGE), apresentou um projeto para expandir a produção de celulose solúvel em Lençóis Paulista, no interior de São Paulo. O investimento previsto é de R$ 7 bilhões e foi anunciado em evento no Palácio dos Bandeirantes. Há a previsão de serem gerados até 6,6 mil empregos diretos e terceirizados na fábrica e nas atividades florestais. De acordo com a assessoria de imprensa da Bracell, a obra deve terminar até o final de 2021 – ou seja, dentro do mandato do governador.


“Durante o Fórum, firmamos a colaboração do grupo português EDP na recuperação do Museu do Ipiranga. A empresa já patrocina a reconstrução do Museu da Língua Portuguesa e, com mais este apoio, fará uma grande contribuição com a preservação da história do Brasil. #SPemDavos”
João Doria, governador de São Paulo, em tuíte publicado em 24 de janeiro de 2019 durante viagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

VERDADEIRO

A EDP de fato anunciou um investimento de R$ 12 milhões na reforma do Museu do Ipiranga, que está fechado desde 2013 por conta de problemas estruturais. O compromisso foi feito no aniversário da cidade de São Paulo, em 25 de janeiro, na sequência do Fórum Econômico Mundial em Davos. A reforma começou em 7 de setembro do ano passado e a reinauguração do edifício está prevista para 2022

O governo do estado conseguiu captar R$ 160 milhões, por meio da Lei Rouanet, para a recuperação. Além da EDP, também contribuíram para a obra outras 12 empresas: Banco do Brasil, Banco Safra, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Caterpillar, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Cosan, EMS, Honda, Vale, EDP, Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e o Instituto Itaú Cultural.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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