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No Roda Viva, Moro erra ao dizer que Bolsonaro não tentou ‘cercear o trabalho da imprensa’

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.jan.2020 | 18h12 |

O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, falou sobre o desempenho de sua pasta e sobre o governo do presidente Jair Bolsonaro durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira (20). Questionado sobre o vazamento de conversas com procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, por meio da série de reportagens Vaza Jato produzida pelo The Intercept Brasil e veículos parceiros, chamou as revelações de “bobajarada”. Moro citou dados sobre criminalidade e operações da Polícia Federal, elogiou a relação de Bolsonaro com a imprensa e falou de seu relacionamento com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, entre outros temas. A Lupa checou algumas das falas do ministro. Confira o resultado:

“Mas não se vê nenhuma iniciativa do presidente em cercear o trabalho da imprensa”
Sergio Moro, ministro da Justiça, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 20 de janeiro de 2020

FALSO

Há mais de um exemplo de momentos em que o presidente Jair Bolsonaro ameaçou cercear o trabalho da imprensa. Um deles, citado pela apresentadora do Roda Viva, Vera Magalhães, foi a decisão de retirar a Folha de S. Paulo de uma licitação para a assinatura de jornais, no fim de novembro de 2019. Isso aconteceu após Bolsonaro dar declarações de que o jornal estaria “envenenando” seu governo. Essa decisão foi revogada alguns dias depois.

Bolsonaro também abandonou diversas entrevistas quando confrontado com temas que não eram de seu agrado. Em outubro do ano passado, por exemplo, o presidente se recusou a responder perguntas sobre um vídeo que publicou no Twitter, no qual se comparava a um leão e mostrava instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Organização das Nações Unidas (ONU) como hienas. Em maio, ele se recusou a responder perguntas sobre os vazamentos da Operação Lava Jato. Na última quarta-feira (15), ele encerrou abruptamente uma entrevista após ser questionado sobre seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

Também há inúmeras ofensas a veículos e profissionais. Na semana passada, o presidente chamou a jornalista Thaís Oyama de “uma japonesa que eu não sei o que faz no Brasil”. Autora de “Tormenta”, livro sobre os bastidores do primeiro ano do governo Bolsonaro lançado nesta segunda-feira (20), Thaís é brasileira, neta de japoneses. Também na semana passada, ao ser questionado sobre os contratos da empresa do secretário de Comunicação Social, Fabio Wajngarten, com veículos de comunicação, Bolsonaro retrucou a um jornalista da Folha: “Você está falando da tua mãe?”

O presidente também ameaçou cancelar a renovação da concessão da TV Globo, em uma live realizada logo após a emissora transmitir reportagem sobre possível ligação do presidente com o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ). O governo federal também modificou o formato da distribuição de suas verbas de publicidade. Na prática, isso significa que a Globo, mesmo tendo a maior audiência, foi apenas a terceira que mais recebeu recursos – atrás da Record e do SBT.

Procurado, o ministro não se pronunciou.


“Meu trato com Rodrigo Maia sempre foi um trato totalmente cordial”
Sergio Moro, ministro da Justiça, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 20 de janeiro de 2020

CONTRADITÓRIO

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, já trocou farpas com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Em março, ele chegou a admitir que houve troca de “declarações ásperas entre eles”. Na época, os dois se desentenderam sobre a tramitação do chamado pacote anticrime no Congresso.

Na madrugada do dia 20 de março, o ministro encaminhou uma mensagem cobrando o parlamentar para que o pacote anticrime tramitasse rapidamente dentro da Câmara. Segundo Moro, o desejo do governo era de que o projeto fosse encaminhado às comissões para debate. 

No mesmo dia, Maia criticou Moro e disse que o ex-juiz federal “conhece pouco de política”. “Eu sou presidente da Câmara, ele é ministro, funcionário do presidente Bolsonaro. O presidente Bolsonaro é quem tem que dialogar comigo. Ele está confundindo as bolas. Ele não é presidente da República. Ele não foi eleito para isso. Está ficando uma situação ruim para ele, porque ele tá passando daquilo que é a responsabilidade dele”, disse o presidente da Câmara. 

Maia também afirmou que o texto do pacote anticrime era uma cópia da proposta enviada à Câmara dos Deputados pelo então ministro Alexandre de Moraes em 2018 e que a prioridade da Casa era aprovar a reforma da Previdência. 

Moro respondeu Maia na noite daquele dia, dessa vez por meio de um comunicado enviado pelo Ministério da Justiça. “Talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais. Essas questões sempre foram tratadas com respeito e cordialidade com o presidente da Câmara, e espero que o mesmo possa ocorrer com o projeto e com quem o propôs. Não por questões pessoais, mas por respeito ao cargo e ao amplo desejo do povo brasileiro de viver em um país menos corrupto e mais seguro”, disse, no texto.

No dia 25 de março, o ministro voltou a se posicionar sobre o caso. Ele disse que tem um bom relacionamento com o presidente da Câmara. “Houve algumas declarações ásperas, mas é absolutamente superável, é normal. Depois da tempestade vem a bonança. E há plenas condições de dialogar e construir uma agenda sob a liderança do presidente Rodrigo Maia”, explicou o ministro. 

Procurado, o ministro não se pronunciou.


“Um dos primeiros atos do governo do presidente Bolsonaro, juntamente com o governo de São Paulo, foi pegar essas lideranças [do PCC] e transferir”
Sergio Moro, ministro da Justiça, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 20 de janeiro de 2020

VERDADEIRO, MAS

A transferência de 22 integrantes da cúpula da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) de fato foi uma das primeiras ações do governo Bolsonaro. A ação ocorreu em 13 de fevereiro do ano passado e envolveu os governos federal e do estado de São Paulo. Não se tratou, contudo, de uma decisão do Executivo, que poderia ou não ser tomada. A mudança dos integrantes da organização para presídios federais atendeu a uma determinação da Justiça de São Paulo, após a descoberta, em 2018, de um plano de fuga e de possíveis atentados contra autoridades.

O Ministério Público pediu a transferência em 28 de novembro de 2018, depois de descobrir um plano de resgate da cúpula do PCC na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. A solicitação, no entanto, foi noticiada pela imprensa, apesar de estar em segredo de Justiça. Isso levou o juiz Paulo Eduardo de Almeida Sorci, da 5ª Vara de Execuções Criminais, responsável pela análise do pedido, a adiar a determinação, segundo despacho de 14 de dezembro de 2018. Ou seja, se o caso não tivesse sido noticiado, a transferência poderia ter ocorrido ainda no governo de Michel Temer.

Sorci criticou o vazamento da medida pela imprensa, que considerou prejudicial para o sigilo da operação. Como já eram meados de dezembro, o juiz achou melhor esperar a saída temporária de “mais de 33 mil presos” em regime semiaberto por conta das festividades de Natal e ano novo, antes de realizar a transferência. Com isso, a decisão acabou adiada para o início de 2019.


“Até setembro de 2018, nós tivemos quase 37 mil assassinatos. Até setembro deste ano [2019], nós tivemos 29 mil”
Sergio Moro, ministro da Justiça, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 20 de janeiro de 2020

VERDADEIRO

Os dados do Monitor da Violência, do Portal G1 em, mostram que houve 30.864 mortes violentas no Brasil nos primeiros nove meses de 2019. Esse número é 22% inferior ao mesmo período do ano anterior, quando 39.527 pessoas morreram no país em 2018. Essa queda aponta que houve 8.663 mortes a menos na comparação entre 2018 e 2019.


“Foram [apreendidas] 98 toneladas [de cocaína] (…) em 2019, 23 [toneladas] a mais do que no ano passado [2018]”
Sergio Moro, ministro da Justiça, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 20 de janeiro de 2020

VERDADEIRO

O balanço das ações do Ministério da Justiça em 2019, divulgado em 12 de dezembro, informa que foram apreendidas 98,4 toneladas de cocaína naquele ano. Isso representa 25,1 toneladas a mais em relação a 2018, quando foram apreendidas 73,3 toneladas dessa droga.. 


“Erradicamos o equivalente a 23 mil toneladas de maconha [em 2019]”
Sergio Moro, ministro da Justiça, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 20 de janeiro de 2020

FALSO

A Polícia Federal destruiu 3,4 mil toneladas de maconha em 2019, de acordo com o balanço das ações do Ministério da Justiça. A marca foi considerada um recorde histórico e representa mais do que o dobro do resultado de 2018 (1.458 toneladas). O número citado pelo ministro na entrevista ao Roda Viva, no entanto, é quase sete vezes maior do que o registrado pela PF.  

O resultado comemorado por Moro foi obtido por meio da Operação Nova Aliança, uma parceria com a Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai para destruir plantações da droga no país vizinho. Apesar de a destruição de pés ter aumentado, o volume de apreensões feitas por aqui caiu 11% na comparação dos dois últimos anos. Passou de 251,1 toneladas em 2018 para 223,3 toneladas em 2019.

Procurado, o ministro não se pronunciou.


“Operações da PF resultaram (…) em apreensões de 653 milhões em bens desses traficantes”
Sergio Moro, ministro da Justiça, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 20 de janeiro de 2020

VERDADEIRO

O site da Polícia Federal aponta que o órgão conseguiu apreender R$ 653,9 milhões em bens e valores do crime organizado em 2019. Esse montante é o resultado do trabalho que a PF realizou ao longo do ano ao investigar lavagem de dinheiro feita por traficantes. Esse é o segundo maior valor apreendido pelo órgão nos últimos nove anos, ficando atrás apenas de 2017, quando a entidade apreendeu R$ 665 milhões do crime organizado. 

Editado por: Natália Leal

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VERDADEIRO, MAS
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AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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