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Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Casos de hanseníase vêm caindo no Brasil? Tatu transmite a doença? Veja mitos e verdades

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.jan.2020 | 07h01 |

Esta publicação foi corrigida às 14h52 do dia 28 de Janeiro de 2020. Veja abaixo.

No último domingo de janeiro, governos e entidades celebram o Dia Mundial de Luta Contra a Hanseníase. Para conscientizar sobre os perigos da doença e a necessidade do tratamento, instituições de saúde do Brasil promovem o Janeiro Roxo. Antigamente conhecida como lepra, a hanseníase é uma doença altamente transmissível que afeta a humanidade desde a Antiguidade. Nela, o bacilo Mycobacterium leprae causa lesões na pele e nos nervos periféricos de um indivíduo. A transmissão desse bacilo pode se dar pelo contato prolongado com pacientes infectados. Neste mês, a Lupa reuniu mitos e verdades sobre a doença. Veja o resultado:  

“Os novos casos de hanseníase vêm caindo no Brasil”

FALSO

Após 13 anos em queda, o número de novos casos de hanseníase voltou a crescer em 2017 e 2018. Segundo o Ministério da Saúde, 28.660 novos casos de hanseníase foram registrados em 2018, último dado disponível para consulta. Em 2017, a pasta registrou 26.875 novos casos. Nos anos anteriores, os números apresentavam uma queda progressiva. Em 2003, o Brasil chegou a ter 51.941 novos casos da doença, o número mais alto dos últimos 30 anos. Veja o gráfico:

Atualização às 14h30 do dia 28 de janeiro de 2020: A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) contatou a Lupa, por e-mail, e informou que o aumento no número de casos diagnosticados não necessariamente significa que há um aumento na incidência da doença. Como muitos casos de hanseníase não são identificados, um aumento no número de casos registrados pode significar, somente, que a proporção de casos identificados está subindo. Segundo a SBD, “fatores operacionais, como a melhora da assistência e maior número de campanhas, podem elevar o número de diagnóstico”.


“Os serviços de saúde devem propiciar tratamento gratuito aos doentes. É importante fazer o tratamento, já que só transmite a hanseníase quem não toma a medicação”

VERDADEIRO

O Ministério da Saúde informa que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece os medicamentos e o acompanhamento necessários para que pessoas com hanseníase tratem a doença. Segundo a pasta, o tratamento é feito pela poliquimioterapia (PQT), associação de medicamentos que mata o bacilo e evita a evolução da doença. Sem a presença do bacilo, a transmissão é interrompida. Por isso, quem faz o tratamento, não transmite a doença.

A pasta destaca que os medicamento são “seguros e eficazes” e que o paciente precisa tomar a primeira dose mensal com o auxílio de profissionais. Contudo, após esse período, o tratamento deverá ser administrado pelo doente. Quando o paciente é uma criança, a dose deve ser regulada pelo peso e altura. 


“Se uma pessoa tem hanseníase, os pedaços do corpo vão cair”

FALSO

Embora, teoricamente, a perda de membros do corpo possa ocorrer em estágios bastante avançados da doença, isso muito raramente ocorre nos dias de hoje. Em cartilha destinada a pais e professores, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) explica que, no passado, “devido ao pouco conhecimento e à falta de tratamento específico”, a doença progredia até causar lesões muito severas. Essas lesões podiam resultar no aleijamento e na perda de membros do corpo.

Atualmente, porém, o tratamento permite que o paciente se cure antes de chegar a esse ponto, mesmo em estágios mais graves da doença. Em casos de pacientes ainda em estágios iniciais, a cura pode levar seis meses.


“O tatu pode transmitir hanseníase”

AINDA É CEDO PARA DIZER

A bactéria Mycobacterium leprae, causadora da hanseníase, também pode ser encontrada nos tatus. Por isso, o contato com o animal ou o consumo de carne da espécie pode levar um ser humano a contrair a doença. Estudos mostram que uma grande parcela das pessoas que comeram carne de tatu tiveram hanseníase depois. A incidência da bactéria nesses animais também é bastante alta em algumas regiões do país. 

Entretanto, segundo a SBD, ainda faltam estudos mais aprofundados para determinar com precisão se há, de fato, uma relação causal entre o consumo de carne de tatu e o desenvolvimento da doença. “Existem publicações relacionadas a imunologia, mas a comprovação de casos com transmissão para humanos é desconhecida. Apenas algumas suspeitas sem ter comprovação inquestionável”, informou a entidade, por e-mail.

Alguns desses estudos foram feitos no Brasil. Uma pesquisa feita no estado do Espírito Santo mostrou que 90,4% dos pacientes com hanseníase ou que tiveram a doença comeram carne de tatu antes de serem diagnosticados. Outro estudo, realizado em Mogi das Cruzes (SP), também identificou uma alta incidência em pacientes que haviam comido carne de tatu – de 207 doentes infectados, 101 consumiram a carne do animal, o que representa um total de 48,7%.

Mais recentemente, uma pesquisa publicada na revista PLos Neglected Tropical Diseases identificou a presença da bactéria causadora da hanseníase em 62% dos tatus analisados no estado do Pará. 7

Correção às 14h30 do dia 28 de janeiro de 2020: Inicialmente, a Lupa classificou essa informação como “verdadeira”, visto que há estudos que relacionam o consumo de carne de tatu com a doença. Entretanto, a SBD alertou, por e-mail, que essa comprovação ainda carece de estudos que determinem a causalidade. A etiqueta,  portanto, foi alterada para “ainda é cedo para dizer”.


“Diagnosticar a hanseníase é fácil”

FALSO

A hanseníase não é fácil de ser diagnosticada. A Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) afirma que menos de 50% dos casos são identificados por exames de laboratório. Tanto a SBH quanto o Ministério da Saúde indicam o exame clínico como a forma mais segura de identificação da doença.

A hanseníase tem cura, mas, se demorar para ser diagnosticada, pode provocar sequelas irreversíveis. Alguns sintomas frequentes da doença são manchas esbranquiçadas sem sensibilidade em qualquer parte do corpo, áreas de pele seca e com falta de suor, e sensação de choque.

A doença leva de 5 a 10 anos para se manifestar e, segundo a SBH, há alta incidência entre menores de 15 anos – o que indica contato com o bacilo causador da doença na infância.   


“Em mulheres grávidas, a hanseníase pode causar o nascimento de bebês abaixo do peso”

VERDADEIRO

A pesquisadora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP Clódis Maria Tavares explica que bebês de mulheres com hanseníase podem nascer com baixo peso. Apesar disso, a Fiocruz destaca que ninguém nasce com essa doença. Contudo, se os pais não fizerem o tratamento, existe o risco de transmissão posterior ao nascimento. A doença pode afetar ainda as mães, que podem ter reações imunológicas graves. 

Um estudo feito pela pesquisadora em 2014 mostrou que grande parte das mulheres com hanseníase não sabiam do risco da doença para a gravidez. Ao todo, 60 mulheres doentes, com entre 14 a 49 anos, foram entrevistadas na cidade de Maceió, em Alagoas.

Vale destacar ainda que mulheres com hanseníase devem continuar com o tratamento contra a doença mesmo durante a gravidez e amamentação, segundo o Ministério da Saúde.  


“Uma vez curado da hanseníase, nunca mais sentirei os sintomas da doença”

FALSO

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mesmo depois de passar pelo tratamento, é possível que o paciente continue sofrendo com problemas neurológicos – isso ocorre em pelo menos 20% dos casos. Quem teve hanseníase deve seguir com acompanhamento médico por, no mínimo, 10 anos depois de ser considerado curado.

Além disso, cerca de 40% das pessoas que iniciam o tratamento passam pelo chamado “estado reacional”, com um agravamento dos sintomas da doença, como febre, lesões na pele e dores nos nervos. Muitas precisam ser, inclusive, internadas por conta disso.

Atualização às 14h30 do dia 28 de janeiro de 2020: Por e-mail, a SBD esclareceu que esse acompanhamento por 10 anos é realizado somente para averiguar as sequelas. Ou seja, embora apresente sintomas da doença, a pessoa está tecnicamente curada e, portanto, não transmite mais o bacilo que causa a doença.


“Hanseníase mata”

FALSO

Os especialistas da área afirmam que a hanseníase não mata. O dermatologista diretor da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Dr Egon Daxbacher, explica que não é a presença da bactéria que causa a morte de pessoas com hanseníase. Contudo, o médico afirma que complicações causadas pela doença podem resultar na morte do paciente.

Daxbacher deu alguns exemplos de complicações que ocorrem. “O paciente pode usar corticoide por complicações da doença, e o corticoide pode levar a uma complicação fatal. Ou o paciente pode ter alguma ferida [não tratada], por falta de sensibilidade, e isso levar a uma infecção mais grave”, afirma.

O especialista da SBD explica ainda que no preenchimento do atestado de óbito alguns médicos assinalam a hanseníase como causa básica, uma vez que essa é normalmente a doença principal do paciente. Por essa razão é possível consultar o número de “mortes por hanseníase no Brasil” no DataSUS. 

Os dados do Ministério da Saúde sinalizam que houve 174 mortes cuja causa base era hanseníase em 2017. Esse número é superior ao do ano anterior, quando 163 pessoas morreram por causa da doença. Os números vinham caindo progressivamente de 2011 a 2016, mas em 2017 voltaram a crescer.  

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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