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#Verificamos: Estudo não prova que novo coronavírus tem proteína do HIV

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.fev.2020 | 20h27 |

Circula pelas redes sociais que uma proteína presente no vírus HIV foi encontrada no novo coronavírus. Segundo o texto, os cientistas responsáveis pela “descoberta” consideraram improvável que essa ligação fosse coincidência. Também conhecido pela sigla 2019-nCoV, o novo coronavírus tem se espalhado rapidamente pela China, onde matou 565 pessoas até esta quinta-feira (6), e já chegou a outros 24 países. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da ​Lupa​:

“Foi encontrada uma Glicoproteína gp120 presente no vírus HIV, responsável por fazer a ligação do vírus com a célula do hospedeiro, nas análises do ‘Coronavirus’ feitas em laboratório. E segundo as análises, não é uma obra da ‘natureza’, muito difícil ser um caso fortuito.”
Texto em post no Facebook que, até as 15h de 6 de fevereiro de 2020, tinha 169 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora um estudo recente, publicado no site bioRxiv, diga que foi encontrada no novo coronavírus uma proteína similar a outra presente no HIV, o modo como se chegou a essa conclusão tem falhas e é contestado pela comunidade científica. Além disso, o artigo não foi revisado antes de sua publicação por outros pesquisadores especializados nessa área. Esse processo, chamado de revisão pelos pares ou peer-review, é importante para validar os resultados de qualquer trabalho científico e garantir a sua qualidade. Por conta das críticas recebidas, os responsáveis pelo texto decidiram retirá-lo do site dias depois de sua divulgação, para revisar o conteúdo.

O artigo sobre a similaridade entre as proteínas é assinado por nove pesquisadores da Escola de Ciências Biológicas Kusuma, localizada no Instituto Indiano de Tecnologia, em Nova Délhi, na Índia. No texto, eles explicam que analisaram as sequências do código genético do 2019-nCoV e se concentraram na glicoproteína S. Esse tipo de proteína é ligada a um carboidrato, daí o prefixo “glico” adicionado ao seu nome, e fica na camada externa do vírus, o envelope, permitindo a sua interação com células

Os cientistas indianos pesquisaram quatro sequências genéticas presentes na glicoproteína S do novo coronavírus em uma base de dados pública do Centro Nacional para Informação em Biotecnologia (NCBI, na sigla em inglês). Nos resultados, viram que as quatro eram idênticas a pequenos trechos de proteínas também presentes no vírus HIV-1. Foi a partir dessa “descoberta” que eles defenderam a existência de uma similaridade não natural entre os dois tipos de vírus.

A metodologia usada pelos pesquisadores é problemática porque os trechos selecionados para busca eram sequências pequenas de aminoácidos – apenas seis nos segmentos 1 (TNGTKR) e 2 (HKNNKS), doze no segmento 3 (RSYLTPGDSSSG) e oito no segmento 4 (QTNSPRRA). Com isso, há centenas de resultados na base de dados do NCBI para cada um deles, que coincidem com trechos presentes em proteínas de múltiplos tipos de vírus e bactérias. Apesar de as sequências analisadas terem coincidido com muitas outras, os autores não explicam por que mencionaram apenas o HIV no trabalho. Além disso, a coincidência não é com uma proteína completa, mas apenas com uma pequena parte dela.

Cada linha de uma consulta na base de dados do NCBI vem acompanhada de um indicador, o E-value – ou valor-E, na tradução para o português. Esse número indica quantos resultados com a mesma qualidade podem ser encontrados para cada correspondência mostrada pela busca. Ou seja, quanto menor for, mais preciso será cada resultado. Para o segmento 1, por exemplo, o valor-E mais alto é 15.866. Para o 2, ficou em 7.885. No 3, o valor-E das três primeiras linhas é 0,037. E, no segmento 4, o número foi 96 nas cinco primeiras linhas. Esses dois últimos valores-E, que foram os menores, indicaram similaridade alta com vírus causadores de pneumonia em Wuhan ou com outros tipos de coronavírus – não com o HIV.

No Twitter, o cientista Trevor Bedford, do Centro de Pesquisa em Câncer Fred Hutchinson, afirma que os quatro segmentos selecionados pelos pesquisadores indianos têm ligação com vírus similares, como uma variedade de coronavírus encontrada em morcegos. Isso demonstra que as sequências não foram incluídas no 2019-nCoV. “Não há nenhuma evidência para inserções de sequências ou relação com o HIV”, escreveu. Bedford é especialista no uso de computação para estudar a transmissão e evolução de vírus.

A Lupa participa de uma coalizão formada para verificar peças de desinformação que circulam sobre o novo coronavírus. O grupo conta com checadores de 30 países e é coordenado pela International Fact-Checking Network (IFCN). Todas as checagens realizadas pela agência foram agrupadas aqui.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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CONTRADITÓRIO
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Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
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A informação está comprovadamente incorreta
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