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Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

No Senado, Weintraub erra ao comparar falhas no Enem 2019 com polêmicas de anos anteriores

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
13.fev.2020 | 13h00 |

Esta publicação foi corrigida às 15h58 do dia 14 de Fevereiro de 2020. Veja abaixo.

Depois das falhas que ocorreram em janeiro na correção das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o ministro da Educação, Abraham Weintraub, falou sobre o assunto em uma audiência pública no Senado na última terça-feira (11). Os problemas afetaram 5,1 mil estudantes. O titular da pasta voltou a afirmar que foi a melhor edição do exame e fez também um balanço das ações em educação no primeiro ano do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A Lupa analisou algumas das frases ditas por Weintraub. Veja a seguir o resultado:

“Sempre existiu algum problema em Enem passado”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em audiência pública na Comissão de Educação do Senado, em 11 de fevereiro de 2020

FALSO

Embora tenham ocorrido falhas em edições anteriores do Enem, não houve problemas em todas elas, como disse o ministro Abraham Weintraub, em audiência pública no Senado. Nos anos de 2015, 2017 e 2018, não foram registrados erros na produção, aplicação e correção de provas. Também não há informação de fraudes, vazamentos ou tentativas de burlar o exame nesses anos. Ou seja, deslizes como o que afetou mais de 5 mil candidatos na última edição não eram registrados há dois anos.

Ao falar sobre os problemas do Enem no passado, Weintraub mostrou uma linha do tempo com um resumo de todas as “falhas” em sua apresentação no Senado. Os próprios dados exibidos na audiência desmentem o ministro. Uma parte dos “erros” apontados não obrigou o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, a rever processos ou refazer a correção das provas, por exemplo. Por esse motivo, esses deslizes não podem ser comparados com o que ocorreu no Enem de 2019 ou em alguns dos anos anteriores. 

Para 2015, o slide mostrado por Weintraub apontou apenas que houve uma questão polêmica. Naquele ano, uma das perguntas usava a frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, da filósofa francesa Simone de Beauvoir. Isso não afetou a nota dos estudantes. Em 2017, a apresentação do ministro destacou que houve problemas para conseguir isenção da taxa de inscrição. A pasta, no entanto, havia alterado os critérios adotados para conceder o benefício naquela edição. O próprio Inep, no entanto, negou a existência de erros no processo. Já em 2018, a “falha” apontada por Weintraub foi incluir na prova uma questão sobre o dialeto pajubá, usado por gays e travestis. De novo, não houve nenhum impacto no resultado do exame.

Procurado, Weintraub não respondeu.


“No primeiro dia, você teve a interrupção por três períodos [no Sisu] e lentidão ao longo do dia. No segundo dia, na parte da manhã teve uma interrupção e lentidão. A partir da tarde o sistema funcionou carga total. No terceiro dia o sistema funcionou carga plena, sem nenhuma interrupção, perfeito. No quarto dia, praticamente não tinha mais ninguém querendo acessar o Sisu”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em audiência pública na Comissão de Educação do Senado, em 11 de fevereiro de 2020

FALSO

As instabilidades no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), usado para escolha de vagas em universidades públicas pelos participantes do Enem 2019, não ocorreram apenas nos dois primeiros dias de funcionamento, como disse o ministro durante a audiência pública no Senado. Dados da empresa Downdetector – que cruza informações de várias fontes, incluindo o Twitter, para monitorar o funcionamento de uma série de serviços online, como Google, Facebook e Netflix – mostram que só não houve problemas no quarto dia (24 de janeiro) em que era possível fazer a inscrição no processo seletivo.

O mais longo período de instabilidade de fato foi detectado em 21 de janeiro, primeiro dia de funcionamento do Sisu, com um recorde de 1.439 notificações às 11h44. No segundo dia (22 de janeiro), o Downdetector apontou grande número de notificações de problemas no meio da madrugada (336, às 4h19) e no meio da tarde (96, às 15h19). Fora desses picos, os dados indicam instabilidade persistente ao longo do período. No início da madrugada de 23 de janeiro, terceiro dia, houve um novo pico de instabilidade, com mais de 191 notificações à 0h25. Isso se repetiu no quinto dia (25 de janeiro), à 0h10 (162), e no sexto e último dia (26 de janeiro), às 3h44 (134). 

O Downdetector também faz um ranking com as piores interrupções dos serviços monitorados a cada semana. No período de 19 a 25 de janeiro, o Sisu ficou em primeiro lugar nessa lista. As falhas das últimas 24 horas podem ser vistas na página que acompanha em tempo real o funcionamento do sistema.

Procurado, Weintraub não respondeu.


“O Pisa mostrou que o Brasil está no último lugar da América do Sul”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em audiência pública na Comissão de Educação do Senado, em 11 de fevereiro de 2020

INSUSTENTÁVEL

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), realizado a cada três anos, não faz um ranking geral com o desempenho de todos os países participantes. A avaliação é feita em três áreas de conhecimento – leitura, matemática e ciências. As notas são dadas por área de conhecimento. 

Além disso, na edição de 2018, a mais recente disponível, apenas seis das 12 nações sul-americanas fizeram a prova: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai. Ou seja, não há dados suficientes para afirmar que um determinado país está em último lugar no continente, visto que metade dos países não participam da avaliação.

Mesmo se forem consideradas apenas as nações participantes da América do Sul, o Brasil não ficou em último em duas das três áreas de conhecimento avaliadas. O país somou 413 pontos em leitura, uma pontuação maior que a da Colômbia (412), da Argentina (402) e do Peru (401). Em matemática, o desempenho foi pior e o Brasil, com 384 pontos, ficou apenas um pouco à frente da Argentina (379) e atrás dos outros quatro países. Já em ciências, o Brasil conseguiu 404 pontos e empatou com Argentina e Peru. Os outros países da região foram melhor nessa disciplina. As provas do Pisa são aplicadas por amostragem em um grupo de estudantes de 15 anos de idade.

Procurado, Weintraub não respondeu.


“Duas famílias [Marinho, do Grupo Globo, e Frias, do Grupo Folha] que principalmente controlam 70% da mídia”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em audiência pública na Comissão de Educação do Senado, em 11 de fevereiro de 2020

FALSO

O Media Ownership Monitor Brazil (ou Monitor da Propriedade de Mídia Brasil, na tradução para o português) mostra que, apesar de alta, a concentração dos meios de comunicação nas mãos das famílias Frias e Marinho não atinge os 70% citados por Weintraub. O MOM-Brasil é uma parceria entre a organização não-governamental Repórteres sem Fronteiras e do coletivo de comunicação social Intervozes, lançada em 2017.

De acordo com o levantamento, que analisou 50 veículos de 26 grupos ou empresas de comunicação, cerca de 50% deles está nas mãos de cinco grupos ou proprietários individuais. Desses, nove pertencem ao Grupo Globo, da família Marinho, e três são do Grupo Folha, da família Frias. Ou seja, considerando-se o universo analisado pelo MOM-Brasil, ambas controlam 12 veículos, ou 24% do total.

Procurado, Weintraub não respondeu.

Corrigido às 16h do dia 14 de fevereiro de 2020: Ao contrário do que foi afirmado inicialmente, os grupos Globo e Folha possuem 12, e não 11, veículos de comunicação citados na base de dados do levantamento do MOM-Brasil. Isso representa 24%, e não 22%, do total.


“Cinco novas universidades federais [foram criadas pelo presidente Bolsonaro]”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em audiência pública na Comissão de Educação do Senado, em 11 de fevereiro de 2020

FALSO

A criação de cinco universidades federais não foi uma decisão do governo Bolsonaro. A abertura das novas instituições resulta de quatro projetos de lei aprovados pelo Congresso em 2018 e sancionados pelo presidente Michel Temer (MDB). Essas propostas foram apresentadas pela presidente Dilma Rousseff (PT) em 12 de maio de 2016, pouco antes de ser afastada do cargo com a abertura do processo de impeachment pelo Senado Federal. Todas essas universidades foram desmembradas de outras instituições, ou seja, nenhuma delas foi criada do zero. O que ocorreu durante o governo Bolsonaro foi a posse dos reitores das cinco instituições, em dezembro do ano passado.

Em 20 de março de 2018, Temer sancionou três leis que criavam três das cinco universidades. A Lei nº 13.637 originou a Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) por meio de um desmembramento do campus da Universidade Federal do Mato Grosso. A Universidade Federal de Catalão (UFCat) foi resultado do desmembramento da Universidade Federal de Goiás, pela Lei nº 13.634. Já a Universidade Federal de Jataí (UFJ) surgiu com o desmembramento da Universidade Federal de Goiás, seguindo a Lei nº 13.635

Outras duas das cinco instituições foram criadas por Temer menos de um mês depois, em 11 de abril de 2018. Tanto a Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), que veio do desmembramento da Universidade Federal do Piauí, como a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape), originária do desmembramento da Universidade Federal Rural de Pernambuco, nasceram com a Lei nº 13.651.

Procurado, Weintraub não respondeu.


“Estamos falando de mais de 5 milhões de pessoas que se inscreveram em 2019 [no Enem]
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em audiência pública na Comissão de Educação do Senado, em 11 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO, MAS

Embora o número de inscritos no Enem em 2019 tenha somado 5,1 milhões de estudantes, pouco mais de 1,1 milhão, ou 22,77% do total, não compareceu às provas. Com isso, o número total de participantes do exame foi de 3,9 milhões na última edição. De acordo com o Inep, a taxa de ausência diminuiu em relação a 2018, quando 24,53% dos candidatos faltaram.


“Estamos falando de um volume de recursos gigantesco [no Enem]. Foram mais de R$ 500 milhões”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em audiência pública na Comissão de Educação do Senado, em 11 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO

Em balanço divulgado em 17 de janeiro, o Inep informou que foram empenhados R$ 537,6 milhões para a realização do Enem em 2019. O gasto por aluno foi de R$ 105,52. De acordo com o instituto, houve uma queda de R$ 52,1 milhões no custo na comparação com o exame realizado em 2018. O valor por aluno no ano retrasado foi de R$ 106,13.

Editado por: Chico Marés

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