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Doria erra sobre novas estações de metrô e extensão de rodovias concedidas em SP

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.fev.2020 | 08h00 |

De olho nas eleições de 2022, o governador João Doria (PSDB) esquivou-se de críticas ou elogios ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em entrevista ao programa Poder em Foco, do SBT, no último domingo (16). Fez questão, no entanto, de comparar a sua gestão com a do governo federal, e destacou projetos e realizações dos seus primeiros 13 meses de mandato. A Lupa checou algumas das frases ditas pelo governador. Veja, a seguir, o resultado.

“São Paulo teve 2,6% de crescimento do seu PIB [em 2019], e o Brasil, 1,2%”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista para o Poder em Foco, do SBT,  em 16 de fevereiro de 2020

AINDA É CEDO PARA DIZER

O boletim “Projeções do PIB” publicado em janeiro pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) estima em 2,6% o crescimento do PIB de São Paulo em 2019. O cálculo, no entanto, considera os dados disponíveis até novembro do ano passado. Ou seja, trata-se de uma previsão, que pode ou não se concretizar. O resultado final depende do desempenho da economia paulista em dezembro, que ainda não havia sido computado quando o relatório foi publicado.

No documento, a Fundação Seade afirma que os dados apurados em novembro não confirmaram a expectativa de aceleração da atividade econômica. Houve menor crescimento no comércio varejista, de 5%, na comparação com outubro (5,2%). Isso teria ocorrido, em parte, porque a expansão do consumo não ocorreu como previsto, uma vez que menos da metade do total liberado do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) pelo governo federal foi sacado pela população.

Os números sobre o crescimento do PIB no Brasil em 2019 também não foram fechados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estimativa do mercado, segundo a edição do Boletim Focus, do Banco Central, publicada em 6 de janeiro, era de uma alta de 1,17%. No Relatório de Inflação, divulgado em dezembro, o próprio Banco Central estimou a variação do PIB em 1,2%. O resultado final, contudo, depende ainda da análise dos números de dezembro – o que deve ocorrer em março.

Procurada, a assessoria de imprensa do governo de São Paulo declarou que as informações são verdadeiras, pois “pois se baseiam nos levantamentos mais atuais” para comparar os dois PIBs.


“[Em 2019, foram gerados] mais de 340 mil empregos diretos (…) em São Paulo nos diferentes setores da economia”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista para o Poder em Foco, do SBT,  em 16 de fevereiro de 2020

SUBESTIMADO

O número citado por Doria não aparece nem na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua Trimestral (Pnadc/T), do IBGE, nem nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia. O primeiro mede o número total de pessoas ocupadas, inclusive na informalidade, enquanto o segundo mostra o número de admissões e demissões em vagas de emprego formais.

Segundo a Pnadc/T, o número de pessoas ocupadas no estado de São Paulo entre o último trimestre de 2018 e 2019 cresceu em 579 mil. Trata-se de um número 70% maior do que o citado pelo governador. Já os dados do Caged mostram que o saldo de postos de trabalho com carteira assinada em São Paulo – ou seja, o total de admissões menos desligamentos – foi de 184.133 registros em 2019. O número citado por Doria na entrevista supera em 84% o que foi apurado pelo governo federal. O Caged contabiliza apenas informações sobre carteira assinada, e uma pessoa pode acumular mais de um registro no documento. Por isso, o número total de empregados no setor formal pode ser menor.

Quando são analisados os oito setores da economia paulista, houve retração no número de vagas formais em dois deles: a indústria de transformação, que teve saldo negativo de 12.738 postos de trabalho formais; e a indústria extrativa mineral, que encolheu em 240 vagas com carteira assinada. A maior expansão ocorreu no setor de serviços, que criou 131.214 empregos em São Paulo no período. Em segundo lugar ficou o comércio, com saldo positivo de 35.204 postos de trabalho e, em terceiro, a construção civil, com 19.385. 

Procurada, a assessoria de imprensa do governo de São Paulo disse que Doria se referia aos números da Pnadc/T, e reconheceu que o número estava incorreto.


“[Em 2019, São Paulo foi responsável por] 40% de todos os novos empregos gerados no Brasil”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista para o Poder em Foco, do SBT,  em 16 de fevereiro de 2020

EXAGERADO

O saldo acumulado de empregos formais criados em 2019 no Brasil, segundo o Caged, foi positivo em 644.079 registros em carteira assinada. Dentro desse universo, São Paulo concentrou 184.133 postos de trabalho, que representam 28,5% do total. O número citado por Doria, portanto, é 40% superior ao que foi apurado pelo Ministério da Economia. Se considerarmos o total de novas contratações, sem considerar as demissões, 16.197.094 admissões no país, sendo que 4.927.274 foram em São Paulo – ou seja, 30,4% do total.

Por fim, o total de pessoas ocupadas cresceu 1,816 milhão no Brasil, e 579 mil em São Paulo, segundo a Pnadc/T. Ou esteja, por essa métrica, que inclui também vagas informais, o estado de São Paulo registrou 31,8% dos novos empregos no país.

Procurada, a assessoria de imprensa do governo de São Paulo disse que, segundo a Pnadc/T, o número de pessoas ocupadas no estado cresceu em 631 mil, ou 35% do total do país. Este número, porém, não está correto.


“A maior concessão feita [em São Paulo] nos últimos 13 meses (…), a Pipa [malha rodoviária Piracicaba-Panorama], com 12.273 quilômetros”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista para o Poder em Foco, do SBT,  em 16 de fevereiro de 2020

FALSO

A concessão da malha rodoviária Piracicaba-Panorama (Pipa), feita pelo governo do estado de São Paulo em janeiro, compreende 1.273 quilômetros de estradas. A extensão citada por Doria, portanto, é quase 10 vezes maior do que o tamanho que será administrado pela iniciativa privada. As vias saem da região de Campinas e seguem na direção do oeste do estado, terminando na divisa com o Mato Grosso do Sul. Dos 1.273 quilômetros concedidos, 1.055 eram de responsabilidade do Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo (DER-SP).

Procurada, a assessoria de imprensa do governo de São Paulo admitiu que ele se equivocou ao citar a extensão da malha viária. “Agradecemos a publicação para elucidar este lapso e trazer a informação correta para a população. Mesmo assim, é importante frisar que se trata do maior bloco de concessão rodoviária da história do Estado em relação à extensão”, diz a nota.


“[Os resultados da concessão da Pipa foram] R$ 15 bilhões de investimento, 7.209% de ágio e R$ 1,1 bilhão adicionais aos cofres públicos de São Paulo”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista para o Poder em Foco, do SBT,  em 16 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO

A oferta vencedora da concessão da malha rodoviária Pipa, realizada pelo Consórcio Infraestrutura Brasil, de fato representou um ágio de 7.209% na outorga, ou seja, na taxa de retorno que será paga ao governo do estado. O valor oferecido pelo grupo foi de R$ 1,1 bilhão. O contrato prevê ainda R$ 14 bilhões em investimentos ao longo de 30 anos, que incluem a construção de 600 quilômetros de duplicações e novas pistas.


“Nós já inauguramos 15 [estações do metrô] no primeiro ano de governo
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista para o Poder em Foco, do SBT,  em 16 de fevereiro de 2020

FALSO

O governo de São Paulo inaugurou cinco estações de metrô em 2019 – não 15, como disse Doria na entrevista para o Poder em Foco. Foram abertas as estações Campo Belo, da Linha 5-Lilás, em 8 de abril; Jardim Planalto, da Linha 15-Prata, em 26 de agosto; e Sapopemba, Fazenda da Juta e São Mateus, também da Linha 15-Prata, em 16 de dezembro do ano passado. Não houve nenhuma inauguração de estações da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

As obras das cinco haviam sido iniciadas em gestões anteriores e estavam atrasadas há seis anos no caso das quatro estações da Linha 15-Prata e há mais quatro anos no caso da estação Campo Belo.

Procurada, a assessoria de imprensa do governo de São Paulo disse que Doria considerou, também, outras 10 estações do metrô que estão em construção, oito delas na linha 17-Ouro.


“Nós estamos prendendo mais”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista para o Poder em Foco, do SBT,  em 16 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO, MAS

O volume de prisões feitas pela polícia de São Paulo aumentou em 2019, na comparação com o ano anterior. De acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública, foram registradas 184.270 detenções no ano passado, contra 177.344 em 2018 – o que representa um aumento de 3,9% entre os dois períodos. Esse número representa as ocorrências desse tipo, ou seja, é possível que, em alguns casos, mais de uma pessoa tenha sido detida.

O total de pessoas presas por mandado judicial cresceu: de 80.149 para 87.398, alta de 9%. No entanto, o número de pessoas presas em flagrante – resultado da ação efetiva de policiais – teve uma ligeira queda. Em 2018, a polícia paulista deteve 127.808 pessoas. No ano seguinte, foram 125.304.


“Reduzimos à metade o imposto sobre calçados e produtos de couro”
João Doria, governador de São Paulo, em entrevista para o Poder em Foco, do SBT,  em 16 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO

Doria reduziu pela metade o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) cobrado de fabricantes de calçados de couro. A decisão foi publicada no Decreto nº 64.630, de 3 de dezembro de 2019. Com isso, o imposto que incidia sobre os produtos de couro da indústria calçadista caiu de 7% para 3,5%.

Editado por: Chico Marés

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VERDADEIRO, MAS
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CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
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INSUSTENTÁVEL
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A informação está comprovadamente incorreta
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