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Glitter faz mal? Gruda com hidratante? Veja fatos e boatos sobre o queridinho do Carnaval

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.fev.2020 | 07h01 |

O Carnaval chegou, os blocos se espalham pelas ruas em todo o Brasil, as escolas de samba fazem os últimos ajustes antes de pisar na avenida. Quem ainda não preparou as fantasias, corre pra se organizar. E quem já preparou, certamente colocou na lista de compras uma das grandes estrelas deste e dos últimos carnavais: o glitter!

Desde o início de janeiro, as buscas pelo termo e as perguntas que relacionam os pequenos flocos de brilho à época mais animada do ano cresceram no Google. Muitos pesquisam por acessórios e maquiagens com glitter, outros só querem saber onde adquirir o item indispensável do Carnaval. Mas há outros questionamentos envolvendo os brilhinhos. Então, antes de se encher deles e partir para reluzir por aí, confira fatos e boatos sobre glitter que a Lupa desvendou:

“Glitter é feito de plástico”

VERDADEIRO, MAS

O glitter tradicional é um microplástico. Ele é feito de pequenas partículas de alumínio e plástico, em geral com dimensões inferiores a 5 milímetros de diâmetro. A reportagem “The History of Glitter”, da Vice, conta que para fabricar o glitter é necessária uma grande folha de plástico ou papel alumínio coberta por uma camada de alumínio ou outro material que reflita a luz. Essa folha é revestida com dióxido de titânio, que dá cor à peça.

O glitter surgiu em 1934, quando Henry Ruschman idealizou e construiu uma máquina capaz de triturar plástico em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Ruschmann fundou uma empresa, a Meadowbrooks Inventions, que, hoje em dia, é considerada a “maior produtora, distribuidora e exportadora de purpurina do mundo”.

No entanto, ao longo dos anos, outros materiais passaram a ser usados – então, nem todo glitter é feito de plástico. Por conta do impacto ambiental, atualmente, há produtos feitos de substâncias naturais, como algas marinhas, pó de mica e até sal, além de polímeros biodegradáveis, que prejudicam menos o meio ambiente. 


“Glitter é ruim para o meio ambiente”

EXAGERADO

Nem todo glitter é prejudicial ao meio ambiente. Há o glitter biodegradável, feito com materiais menos agressivos à natureza, como a celulose, que se decompõe facilmente e não tem tanto impacto ambiental. Há também o pó de mica natural e sintético. Mica é o nome genérico dado a um grupo de minerais que possuem propriedades similares – e, entre elas, está o brilho. O pó de mica é usado como matéria-prima em diferentes cosméticos e tem efeito brilhante bem similar ao da purpurina, mas com menos impacto ambiental. O brilho depende da quantidade de material usado e do tamanho das partículas. 

Mas é importante destacar que o glitter tradicional é feito, basicamente, de micropedaços de plástico, o que significa que é preciso ter cuidado com ele porque é ruim, sim, para o meio ambiente. Ele não é reciclável, nem é filtrado no tratamento de esgoto. Por isso, quando você chega em casa depois de pular no bloco e vai tomar aquele banho, todo o glitter que usou para circular por aí o dia todo vai direto para os rios e mares. E, assim como outros pedaços de plástico, prejudica a fauna e a flora aquáticas.

Uma reportagem da BBC afirma que o glitter, quando chega à natureza, pode ser ingerido por algum ser marinho e entrar para a cadeia alimentar desses animais. A professora de pós-graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros da Universidade Federal Fluminense (UFF) Mirian Araújo informa que os “microplásticos absorvem metais e poluentes orgânicos persistentes (POP’s – pesticidas, dioxinas, entre outros), que se acumulam nos sedimentos, no plâncton e nas algas”. Os peixes que se alimentam desses organismos estão “bioacumulando poluentes” que, por sua vez, chegam aos seres humanos. Além disso, a docente da UFF lembra que o microplástico não é biodegradável em nosso organismos e pode trazer agentes carcinogênicos

Em 2014, um estudo estimou que já existem de 15 a 51 trilhões de partículas de microplásticos nos oceanos – entre elas, muito glitter. 


“A melhor forma de tirar o glitter da pele é no banho”

FALSO

O ideal é sempre limpar o glitter da pele antes de tomar banho em vez de ir para debaixo d’água ainda brilhando. Essa limpeza pode ser feita com removedores de maquiagem, por exemplo. De acordo com o doutorando em ciências farmacêuticas pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP) e comunicador científico pelo @ofoilfree, Victor Infante, desta forma as partículas de plástico são descartadas no lixo e não diretamente na água. Assim, “ele [o glitter] iria para aterros [sanitários], por exemplo, menos problemático (até onde se sabe)”, segundo Infante. 

Outra medida que pode ser adotada é colocar um filtro de tecido no ralo do chuveiro antes do banho. Dessa forma, as partículas de plástico ficam no tecido e podem ser colocadas no lixo, em vez de irem por água abaixo. 


“Hidratante pode ser usado para colar glitter no corpo”

VERDADEIRO

O hidratante é uma das formas usadas para colar o glitter no corpo. O gel de cabelo e o protetor labial também são opções. O uso da cola – branca, escolar, de contato etc – não é recomendado por especialistas da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). A doutora Betina Stefanello, médica dermatologista da SBD, diz que a cola é “um dos produtos que sabidamente causam dermatite de contato e muita alergia” e, por essa razão, não é aconselhável que seja usada para grudar os brilhinhos. 


“Glitter faz mal para a pele”

VERDADEIRO, MAS

O glitter pode, sim, fazer mal para a pele, já que pode causar alergias diversas. Mas tudo depende de uma série de fatores, que vão desde o tipo de glitter utilizado, passando pelo tempo de uso, pelo material usado para colar o produto e chegando ao tipo de pele e até mesmo a pré-disposições a alergias de cada pessoa.

Patricia Ormiga, assessora do departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, afirma que o ideal é não deixar o glitter na pele por longos períodos e evitar o contato com as áreas mais sensíveis, como os olhos. Ela recomenda, ainda, que se teste o produto em pequenas quantidades alguns dias antes de usar para valer, para identificar se há algum tipo de reação alérgica.  

Editado por: Natália Leal e Maurício Moraes

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