A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

#Verificamos: Incêndio em galpão com urnas na Venezuela aconteceu antes, e não depois, de acusação de Bolsonaro contra o TSE

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
11.mar.2020 | 17h59 |

Circula nas redes sociais que, após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acusar, sem provas, que houve fraude nas eleições de 2018, um incêndio em um galpão destruiu urnas eletrônicas na Venezuela. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da ​Lupa​:

“É inacreditável, mas as coisas começam a se encaixar. O presidente Jair Bolsonaro declara nos Estados Unidos que houve fraude na eleição presidencial de 2018. Na sequência, a Venezuela comunica que um ‘misterioso’ incêndio destruiu urnas eletrônicas no país”
Texto publicado pelo site Jornal da Cidade Online que, até as 17h30 do dia 11 de março, tinha sido compartilhado por mais de 17 mil pessoas no Facebook

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Esses dois eventos aconteceram na ordem inversa: primeiro, no dia 7 de março, ocorreu um incêndio no principal galpão do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela, destruindo, entre outras coisas, urnas eletrônicas. Dois dias depois, na noite do dia 9, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse ter provas de que as urnas foram fraudadas no primeiro turno das eleições de 2018 – mas, até o momento, se recusou a apresentá-las.

No final da tarde de 7 de março, um dos galpões do CNE, localizado em Mariche, região metropolitana de Caracas, pegou fogo. Há vídeos e fotos do incêndio publicados nas redes sociais a partir das 18h30 do dia 7, horário de Brasília. 

No dia 8, um grupo autodenominado Frente Patriota Venezuelana, que se opõe ao presidente venezuelano Nicolás Maduro, divulgou um vídeo assumindo a autoria do incêndio. O grupo, assim como outros movimentos de oposição a Maduro, é contra a realização de eleições para a Assembleia Nacional da Venezuela neste ano. 

A sugestão de que há uma ligação entre esses dois acontecimentos não faz sentido. As urnas utilizadas nas eleições de 2018 não estavam no galpão incendiado em Mariche. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Brasil nunca cedeu suas urnas à Venezuela. Entre 2000 e 2006, urnas de propriedade da Justiça Eleitoral foram cedidas para Argentina, México, Equador e República Dominicana para a realização de testes supervisionados por técnicos do tribunal. Além disso, urnas do modelo 1996 foram doadas ao Paraguai.

Além de inverter a ordem e sugerir uma falsa relação entre urnas venezuelanas e eleições brasileiras, o texto ainda erra ao dizer que apenas Brasil e Venezuela usam urnas eletrônicas. Segundo o Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea, na sigla em inglês), vários outros países utilizam sistemas eletrônicos para votação. 

A Índia, por exemplo, maior colégio eleitoral do mundo, utiliza urna eletrônica em suas eleições nacionais. Alguns estados dos Estados Unidos, que não têm um sistema de votação unificado, também utilizam para eleições nacionais, enquanto o Canadá utiliza em eleições locais. A França, por sua vez, deve utilizar sistemas eletrônicos para o voto de cidadãos em território estrangeiro.

Atualização às 15h do dia 12 de março: o Jornal da Cidade Online corrigiu as informações após a publicação desta matéria.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo