A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Bolsonaro erra ao comparar pandemia de H1N1, em 2009, com novo coronavírus

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
16.mar.2020 | 19h56 |

No último domingo (15), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deixou o isolamento no qual se encontrava por conta da suspeita de que tenha contraído o novo coronavírus e cumprimentou apoiadores em uma manifestação em Brasília. O presidente tem sua saúde monitorada desde que integrantes da comitiva que o acompanhou aos Estados Unidos na semana passada foram diagnosticados com a Covid-19, doença causada pelo novo vírus. Bolsonaro foi criticado pelo ato e falou, ainda no domingo, à CNN Brasil e, nesta segunda-feira (16), ao jornalista José Luiz Datena, na Rádio Bandeirantes. A Lupa analisou algumas das declarações do presidente, confira:

“No passado – 2009, 2010 -, tivemos uma crise semelhante, outro problema [de saúde] aqui no mundo. (…) E a reação não foi nem sequer perto dessa que está acontecendo hoje em dia aqui no mundo todo”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à CNN Brasil, no dia 15 de março de 2020

FALSO

A pandemia de H1N1, popularmente conhecida como gripe suína, ocorrida em 2009 não foi semelhante em nada à pandemia de Covid-19. A taxa de mortalidade do H1N1 foi estimada em 0,026%, ou seja, 26 a cada 100 mil casos. Já a Covid-19 tem uma taxa de mortalidade de 3,7%, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Até a manhã de 15 de março, eram 153,5 mil casos do novo coronavírus, e 5,7 mil mortes. Em outras palavras, os infectados pela pandemia atual tem quase 150 vezes mais chance de morrer do que as vítimas da gripe suína.

É possível que o número total de infectados com o SARS-Cov-2, como o novo vírus é conhecido, esteja subestimado – o que reduziria a taxa de mortalidade. Isso acontece porque casos assintomáticos podem passar despercebidos. Mesmo assim, a letalidade da Covid-19 seria maior. Na Coreia do Sul, onde uma parcela maior da população foi testada (e, portanto, uma proporção maior de casos assintomáticos foi identificada), a taxa de mortalidade é de 0,9% – 35 vezes mais alta do que a do H1N1.

Embora muito menos letal, a epidemia de 2009 foi objeto de preocupação da comunidade internacional – até porque uma cepa muito mais agressiva do mesmo vírus causou a chamada gripe espanhola, que matou dezenas de milhões de pessoas em 1918 e 1919. O primeiro caso foi registrado no México, no mês de março – e, dias depois, já havia registros do vírus nos Estados Unidos.

A partir de abril de 2009, o H1N1 começou a se espalhar para outras partes do mundo. A taxa de contaminação, porém, não era tão alta quanto a do SARS-Cov-2. No dia 1º de junho de 2009, cerca de 75 dias depois do início da pandemia (mais ou menos o tempo entre o início da epidemia de Covid-19 e o dia 15 de março), 17,4 mil casos tinha sido identificados, e 115 mortes confirmadas. A taxa de mortalidade era, naquele momento, mais alta do que a verificada ao final da pandemia, mas ainda assim, bastante abaixo dos atuais números relacionados à Covid-19. 

Em 11 de junho de 2009, a OMS declarou pandemia global – após o número de casos da gripe suína se aproximar de 30 mil. No Brasil, o primeiro paciente foi identificado ainda em maio. A situação ficou mais grave a partir de julho. Em agosto, a crise atingiu seu ápice no país, e o número de mortos passou dos 500

Em agosto de 2010, mais de um ano depois de a pandemia ser declarada, a OMS entendeu que ela tinha terminado. Na prática, isso não significa que o vírus deixou de circular – ao contrário, por exemplo, da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa, doença similar à Covid-19), sem ocorrência desde 2004. Desde 2010, o H1N1 circula como mais um entre diferentes vírus causadores da gripe comum e há vacinas e medicamentos desenvolvidos desde aquela época para controlá-lo.

Apesar da diferença de escala, houve medidas de restrição de movimento, como agora, mas menos severas e mais localizadas. No México, por exemplo, atitudes semelhantes às tomadas pela Itália nas últimas semanas foram adotadas: fechamento de estabelecimentos comerciais e escolas, cancelamento de eventos públicos e isolamento de áreas particularmente infectadas. Ações parecidas foram determinadas em áreas gravemente afetadas pela doença nos Estados Unidos. Em partes do Brasil, a volta às aulas foi adiada depois das férias de julho de 2009.

Contatada, a Secretaria de Comunicação disse que o presidente não comentará as checagens.


“Sabemos que as aglomerações de pessoas realmente corre (sic) o risco seríssimo de esse vírus se deflagrar de forma bastante grave em nosso país”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à CNN Brasil, no dia 15 de março de 2020

CONTRADITÓRIO

Bolsonaro manifestou conhecimento sobre o risco de contaminação da Covid-19, mas desrespeitou o isolamento ao qual deveria estar submetido. Mesmo tendo sido aconselhado a ficar afastado de outras pessoas durante sete dias, após ter contato com integrantes de sua equipe infectados pelo novo coronavírus, Bolsonaro desceu a rampa do Palácio do Planalto e cumprimentou manifestantes que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília, no último domingo (15). Ele chegou a apertar as mãos de alguns de seus apoiadores.

Além de participar ativamente das manifestações, Bolsonaro divulgou mais de uma dezena de vídeos de aglomerações de pessoas defendendo seu governo em sua conta pessoal no Twitter.

Contatada, a Secretaria de Comunicação disse que o presidente não comentará as checagens.


“[A população está cansada] Cansada de ver certas coisas que não fazem bem para a coisa pública, como, por exemplo, partilha de R$ 15 bilhões (…) Onde o Orçamento, todos sabem, quem tem que executar, é o presidente da República”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à CNN Brasil, no dia 15 de março de 2020

CONTRADITÓRIO

Apesar de criticar o posicionamento do Congresso em relação ao orçamento impositivo, Bolsonaro foi favorável a uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determinou a execução obrigatória de emendas parlamentares, quando ainda era deputado. 

Em 2015, a Câmara votou a PEC 358/2013, que determinava que emendas ao orçamento feitas por deputados e senadores seriam de execução obrigatória do governo federal, até um limite de 1,2% da Receita Corrente Líquida (RCL) do governo federal. Na época, isso representava cerca de R$ 9,7 bilhões – em valores atualizados pela inflação, pouco mais de R$ 13 bilhões. Na época, Bolsonaro era deputado pelo PP – e votou a favor da medida no primeiro e no segundo turnos, assim como a quase totalidade dos seus colegas. A PEC foi aprovada e promulgada em março daquele ano, se tornando a Emenda Constitucional (EC) 86.

No início deste ano, a destinação de cerca de R$ 30 bilhões aos congressistas via emendas se tornou um ponto de disputa entre o Legislativo e o Executivo. Uma nova emenda à Constituição promulgada pelos deputados e senadores em junho de 2019, a EC 100, estendeu a obrigatoriedade de execução às emendas de bancada. O Projeto de Lei do Congresso (PLN) 51/2019 incluiu essa obrigação na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2020, mas Bolsonaro vetou essas mudanças

O Congresso manteve o veto, mas apresentou emendas ao PLN 4/2020, apresentado pelo próprio Governo Federal, que mantém sob controle dos congressistas a execução de R$ 15 bilhões.

Contatada, a Secretaria de Comunicação disse que o presidente não comentará as checagens.


“Na quinta-feira, fiz um pronunciamento onde falei que esse movimento [de manifestações organizadas para o último domingo (15)] tinha que ser repensado porque tem um fato novo aí, no mundo, que é o coronavírus”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à CNN Brasil, no dia 15 de março de 2020

VERDADEIRO, MAS

De fato, na última quinta-feira (12), Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo na internet pedindo, entre outras coisas, que as pessoas não fossem às ruas participar de manifestações a seu favor no domingo (15). O presidente aparecia usando uma máscara cirúrgica. Mas, mesmo assim, ele participou dos atos em Brasília e divulgou em sua conta de Twitter mais de uma dezena de vídeos nos quais aparecem aglomerações em diferentes cidades do país.


“Eu não convoquei ninguém pra esse evento, não convoquei ninguém em momento nenhum, como a imprensa está falando agora”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, no dia 15 de março de 2020

FALSO

No dia 7 de março, em um discurso feito em Boa Vista para cerca de 400 pessoas, Bolsonaro convocou seus apoiadores a participar das manifestações em 15 de março. “É um movimento espontâneo, e o político que tem medo de movimento de rua não serve para ser político”, afirmou. “Então participem, não é um movimento contra o Congresso, contra o Judiciário. É um movimento pró-Brasil.”

Antes disso, em fevereiro, Bolsonaro divulgou vídeos convocando para as manifestações em grupos pessoais.

Contatada, a Secretaria de Comunicação disse que o presidente não comentará as checagens.


“(…) Muito menos falei que seria um movimento contra o Congresso e contra o Supremo Tribunal Federal. Não existe isso da minha boca”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, no dia 15 de março de 2020

VERDADEIRO, MAS

Nas vezes em que falou sobre as manifestações, Bolsonaro, de fato, não mencionou o Legislativo e o Judiciário. Em Boa Vista, ele disse especificamente que esses movimentos não eram contra os outros dois poderes, e sim “a favor do Brasil”. Os vídeos compartilhados por Bolsonaro por WhatsApp também não falam especificamente em deputados, senadores e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Entretanto, isso não quer dizer que os manifestantes não pediram o fechamento do STF e do Congresso. Mesmo em Brasília, onde o presidente participou dos atos, havia faixas pedindo o fechamento dessas instituições, pessoas defendendo um “novo AI-5” e outras manifestações contrárias à democracia.

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo