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Cátia Toffoletto/Flickr
Cátia Toffoletto/Flickr

#Verificamos: São falsos áudios sobre arrastões de usuários da Cracolândia durante pandemia

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
03.abr.2020 | 17h38 |

Circulam pelas redes sociais dois áudios de pessoas não identificadas com o relato de crimes que estariam sendo cometidos na região central de São Paulo por moradores da Cracolândia. Os delitos teriam relação com a pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. O isolamento social da população para dificultar o contágio deixou as ruas desertas e teria tornado a área mais perigosa e suscetível a arrastões e assaltos. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“(…) Aqui pro lado do centrão, véio, o baguio tá louco, mano. Praça da República, Largo do Paissandu, Princesa Isabel. Mano, o baguio tá tipo cenário de guerra, véio. Não sei se tem alguém aí que tá passando por essa região e já viu como que tá o centro aqui. Os cracudo aqui, os noia, eles estouraram todas as portas de lanchonete, bar, esses baguio, eles estouraram tudo, tio. Arrombaram todas as portas de bar, lanchonete, não deixaram nada inteiro, mano. Os carro que estavam tudo estacionado na rua, mano, eles tão quebrando todos os vidros, tão roubando tudo os carro, véio. Quem tiver que sair de casa pra trabalhar, ou que trabalha por conta e tem que fazer entrega, esses baguio, ficar esperto aqui no centro, mano. Eles tão andando em bando de 15, 20 moleque, 15, 20 noia, mano. Se eles pegam alguém andando na rua vacilando, tio, eles estão dando o rodo. (…)”

“(…) O centro de São Paulo, ali, Rio Branco, Duque de Caxias, São João, Ipiranga, Santa Ifigênia, pessoal, evita esses lugar, evita o centro. Até ali o Minhocão, Baixada do Glicério, evita o centro. O pessoal da Cracolândia já estão lá há dois dias sem comer, certo? Dois dias sem comer. Um amigo meu que é policial acabou de ligar. Falou: ‘Negão, avisa todo mundo aí do seu lado aí, entendeu, que você conhece bastante gente, avisa todo mundo aí. Não tenta vim para o centro. É perigoso. Eles estão invadindo de 20, 30 pessoas duma vez só. Tomam tudo, Tão quebrando vidro de carro, tão entrando na frente. Tomem cuidado. Tomem cuidado’.”

Áudios que circulam no WhatsApp com relatos de supostos crimes cometidos no centro de São Paulo

FALSO

Os dois áudios analisados pela Lupa são falsos. A assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública afirmou, em nota, que os depoimentos compartilhados pelo WhatsApp não são verdadeiros. A pasta foi questionada sobre as ações descritas e sobre os locais em que teriam ocorrido no centro da capital paulista, bem como sobre a existência de grandes grupos de dependentes químicos praticando crimes nessa região durante a pandemia. “Trata-se de fake news”, diz o texto. 

As gravações também foram desmentidas por dois integrantes do Centro de Convivência É de Lei, uma organização não-governamental que atua na área da Cracolândia e trabalha com redução de danos associados ao uso de drogas. “Temos acompanhado de perto a situação nos territórios e isso não está ocorrendo”, disse, por WhatsApp, Karin Di Monteiro Moreira, coordenadora do Núcleo de Práticas de Redução de Danos da ONG. Segundo ela, a visibilidade dos dependentes químicos na região aumentou, por conta do esvaziamento das ruas e do comércio. Ela explicou ainda que muitos usuários estão passando fome e não têm informações sobre a pandemia. 

Morador da região há sete anos, Carlos Correia, que atua como agente de redução de danos do É de Lei, também contestou a veracidade das crimes descritos nos dois áudios. “É um relato mentiroso, que não faz o menor sentido”, afirmou. Correia mora na rua do Triunfo, bem próximo do fluxo – nome dado à aglomeração de dependentes químicos e moradores de rua. “O É de Lei fica na rua do Carmo, na frente do Poupatempo Sé. Pego a 15 de Novembro, subo a São João, passo pelo Largo do Paissandu [lugares citados nos audios]. Nada disso acontece. Faço isso diariamente”, disse, por telefone.

Correia não viu portas arrombadas de bares e lanchonetes ao percorrer várias das ruas citadas nas gravações, nem ouviu relatos de que grupos estão praticando assaltos e quebrando carros estacionados. Segundo ele, os comerciantes da área que trabalham com comida têm funcionado a meia porta para vender marmitex. Os pequenos mercados também continuam a abrir normalmente na região. “As pessoas estão tentando seguir a vida da maneira que é possível”, afirmou.

Editado por: Chico Marés

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