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#Verificamos: É falso que FDA liberou hidroxicloroquina para todos os pacientes com Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
13.abr.2020 | 18h50 |

Circula pelas redes sociais uma mensagem dizendo que a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos, autorizou o uso de hidroxicloroquina no tratamento de todos os pacientes de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. O texto também afirma que o “CEO da Novartis” tem em mãos estudos que comprovam que o remédio mata o vírus e, por isso, sua empresa doará 130 milhões de doses. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“O FDA, a agência americana de regulamentação de remédios, aprovou o uso de hidroxicloroquina em todos os pacientes com o Covid-19”

Texto em post no Facebook que, até as 16h de 13 de abril de 2020, tinha 286 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A FDA não liberou o uso da hidroxicloroquina para todos os pacientes com Covid-19 nos Estados Unidos. Em 28 de março deste ano, o órgão emitiu uma Autorização para Uso de Emergência (Emergency Use Authorization, em inglês) – ou seja, uma ordem especial – que permite a adoção de produtos com sulfato de hidroxicloroquina e fosfato de cloroquina no tratamento de alguns pacientes com Covid-19, apesar de nenhum desses remédios ter sido aprovado para essa finalidade. 

A autorização não é um parecer da FDA sobre a eficácia dessas drogas, porque essa análise ainda não ocorreu. Trata-se de uma ordem temporária para situações específicas, nas quais a FDA analisa que os benefícios podem ser maiores que os riscos. “Essa autorização é reservada para situações de emergência e NÃO é a mesma coisa que uma aprovação ou licença da FDA”, diz o órgão.

Também há condições para o uso dessa ordem especial. Ela possibilita que médicos solicitem remédios com cloroquina e hidroxicloroquina que forem doados para o Estoque Nacional Estratégico (Strategic National Stockpile, em inglês). Esse suprimento, mantido pelo governo americano, garante o fornecimento de drogas específicas em casos de emergência pública, quando há chance de se esgotarem os estoques disponíveis no mercado. As drogas devem ser usadas quando a participação em testes clínicos não for possível ou quando uma análise médica avaliar que os benefícios superam os riscos.

Efeitos adversos do uso de cloroquina ou hidroxicloroquina nesses tratamentos, por meio da Autorização para Uso de Emergência, devem ser informados à FDA, por meio de um formulário, e também à Autoridade de Desenvolvimento e Pesquisa Biomédica Avançada (Barda, na sigla em inglês).


“O CEO da Novartis anunciou que já tem em mãos os resultados de pesquisas que comprovam que a hidroxicloroquina mata o vírus.”

Texto em post no Facebook que, até as 16h de 13 de abril de 2020, tinha 286 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O CEO da Novartis, Vasant Narasimhan, não fez nenhuma declaração pública afirmando ter em mãos o resultado de pesquisas que comprovam a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina em matar o novo coronavírus. Ele não disse isso nem em entrevistas à imprensa, nem em posts publicados em suas redes sociais. Seus posicionamentos feitos até esta segunda-feira (13) defendiam a necessidade de haver mais estudos sobre esses remédios.

Em entrevista ao canal CNBC em 27 de março, o executivo afirmou que é muito cedo para dizer que esses medicamentos oferecem uma solução definitiva para o tratamento da Covid-19. “Em estudos pré-clínicos, a droga é bem ativa contra o coronavírus, mas isso, claro, não é em seres humanos, em pacientes”, disse. “Acho que ainda é muito cedo para sabermos com certeza, [ou seja,] até que tenhamos estudos randomizados e propriamente controlados.”

Em seu perfil no Twitter, Narasimhan compartilhou um trecho da entrevista que concedeu à CNBC. Em 30 de março, falou também sobre uma doação de hidroxicloroquina pela empresa para o governo norte-americano com o objetivo de apoiar “estudos clínicos que avaliam a sua eficácia em pacientes com Covid-19”.

A assessoria de imprensa da Novartis afirmou, em nota, que está desenhando um protocolo para um estudo clínico global sobre a eficácia e a segurança da hidroxicloroquina em pacientes com o novo coronavírus. “Embora os resultados iniciais dos estudos da utilização da droga em casos de Covid-19 tenham sido promissores, ainda não há nenhum tratamento aprovado disponível e (…) não endossamos o uso de nenhum de nossos produtos fora das especificações de seus respectivos registros. Qualquer início e interrupção de uso de medicamentos deve ser avaliado em conjunto com um profissional de saúde”, diz o texto.


“Tanto [a hidroxicloroquina funciona] que a empresa vai doar 130 milhões de doses.”

Texto em post no Facebook que, até as 16h de 13 de abril de 2020, tinha 286 compartilhamentos

VERDADEIRO, MAS

A Novartis anunciou, em comunicado à imprensa feito em 20 de março, a doação de até 130 milhões de doses de hidroxicloroquina para ajudar estudos clínicos sobre a eficácia do medicamento no tratamento de Covid-19. Ou seja, ela não será feita porque há certeza sobre sua eficácia e segurança, mas sim para que os efeitos da droga sejam estudados. Esse processo deve ser concluído até o final de maio. O apoio será dado para as autoridades regulatórias que liberarem seu uso em pesquisas. De acordo com o texto, hoje a empresa tem em estoque 50 milhões de doses de 200 miligramas do medicamento. 

Esse conteúdo também foi checado por Boatos.org e Aos Fatos.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

 

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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