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Wilson Dias/Agência Brasil
Wilson Dias/Agência Brasil

Osmar Terra erra ao falar de cloroquina e de pacientes assintomáticos da Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
15.abr.2020 | 11h33 |

Na última segunda-feira (13), o ex-ministro da Cidadania e deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) participou de um debate realizado pelo UOL. O político entrou em foco após ser cotado para liderar o Ministério da Saúde caso o ministro Luiz Henrique Mandetta seja demitido pelo presidente Jair Bolsonaro. Em conversa flagrada, Terra disse ao atual ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, que Mandetta “se acha”.

Durante o debate do UOL, o deputado falou sobre a pandemia da Covid-19 no Brasil e em outros países. Ele disse que “quase 99% dos portadores do vírus” não apresentam sintomas e que a cloroquina – defendida como forma de tratamento por Bolsonaro – apresenta riscos como disfunção hepática e arritmia cardíaca, mas que a “maioria não tem problema nenhum”. 

O deputado Osmar Terra foi procurado para comentar as frases analisadas pela Lupa. A assessoria de imprensa do ex-ministro encaminhou o seguinte posicionamento: “eu queria que vocês usassem para mim a mesma tolerância e margem de erro, px, que tem as  pesquisas do Datafolha, do mesmo grupo na qual a Lupa está ‘incubada’. Ainda que os números não sejam exatos como vocês gostariam, estão corretos na essência. Não sou cartomante, sou médico. A tendência das coisas estão corretas. Algumas, vocês já viram nos últimos dias. Outras, vocês vão ver nas próximas semanas.” 

Vale ressaltar, no entanto, que a Lupa não tem vínculo editorial ou financeiro com a Folha de S.Paulo. Nossa metodologia de trabalho pode ser consultada aqui. Além disso, a agência usa dados e informações disponibilizados por autoridades de saúde e órgãos renomados e confiáveis para fazer suas checagens e não analisa “tendências”.

Veja o resultado da checagem:

“Quase 99% dos portadores do vírus não vão ter sintomas”
Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania e deputado federal pelo MDB-RS, ao UOL Debates, no dia 13 de abril de 2020

INSUSTENTÁVEL

Ainda não existe um consenso na comunidade científica sobre o percentual de portadores do vírus que não apresentam os sintomas da Covid-19, como tosse, febre e dificuldades respiratórias. Os estudos existentes, no entanto, apontam um número bastante inferior aos 99% citados por Terra. 

Em artigo publicado no International Journal of Infectious Diseases (página 2), pesquisadores japoneses analisaram a situação de 565 pessoas evacuadas de Wuhan e colocadas em quarentena no Japão. Nesse estudo, os pesquisadores calcularam a proporção de infectados assintomáticos em 30,8%. 

Outro estudo japonês, com base nos passageiros do navio Diamond Princess, estimou uma taxa menor: apenas 18%. Ao todo, 634 pessoas tiveram a presença do SARS-CoV-2, vírus causador da Covid-19, detectada em exame e serviram como uma base para a pesquisa. Os passageiros desse navio, um dos primeiros focos do novo coronavírus, ficaram duas semanas em quarentena após a descoberta de casos da doença no cruzeiro. Uma pesquisa a partir de exames feitos em aeroportos chegou a um número similar. Outro estudo, na China, encontrou um número ainda mais baixo: 14%.

Por fim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 80% dos casos de Covid-19 são assintomáticos ou têm sintomas leves ou moderados, que não exigem internação hospitalar. Isso significa que cerca de 20% dos casos podem ser considerados severos ou críticos.


“Os riscos [da cloroquina] é alguma disfunção hepática, alguma arritmia cardíaca, mas a maioria [dos pacientes que usam] não tem problema nenhum”
Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania e deputado federal pelo MDB-RS, ao UOL Debates, no dia 13 de abril de 2020

SUBESTIMADO

Os efeitos colaterais do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, especialmente em dosagens altas, são mais do que “alguma disfunção hepática, alguma arritmia cardíaca”. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o medicamento pode causar 13 tipos de distúrbios. Além dos problemas nos rins e no coração, a cloroquina e a hidroxicloroquina podem provocar danos na visão, dores de cabeça, distúrbios gastrointestinais e outros problemas de saúde.

Além disso, a bula do difosfato de cloroquina diz que a droga não é recomendada para portadores de epilepsia, miastenia gravis e psoríase. A bula também indica cautela na administração da substância a pessoas com “doença hepática, distúrbios gastrointestinais, neurológicos e sanguíneos”. Já a hidroxicloroquina não é recomendada, segundo a bula, para pacientes com maculopatias (doenças que afetam a retina).

Ainda não há estudos conclusivos sobre o efeito da cloroquina no tratamento da Covid-19. Segundo a Anvisa, as pesquisas conduzidas até o momento têm um número de pacientes muito reduzido. Logo, ainda é arriscado afirmar que o medicamento será efetivo para todas as pessoas. “Mais dados precisam ser coletados, de maneira adequada, para haver certeza de que vai funcionar”, diz texto publicado pela instituição.

Uma reportagem do Estadão informou que ao menos 65 estudos clínicos estão sendo produzidos para ver como a cloroquina pode auxiliar no combate da Covid-19. O jornal explica que apenas três foram finalizados, e eles apresentam conclusões controversas. 

Também há pesquisas interrompidas por conta de resultado negativos. É o caso de um estudo brasileiro que dividiu 81 pacientes em dois grupos: um recebeu 450 miligramas de cloroquina duas vezes ao dia durante cinco dias e outro receberia 600 miligramas da substância por 10 dias. Os pesquisadores perceberam que os pacientes que receberam a maior dosagem começaram a apresentar arritmias cardíacas três dias após o início do tratamento, ou seja, o coração dessas pessoas começou a bater fora do ritmo. Até o sexto dia do experimento, 11 pessoas tinham morrido. 

Esse estudo ainda não passou pelo processo de revisão por pares, ou seja, ainda não teve seus dados e conclusões validados por outros cientistas e, por isso, não foi publicado em um periódico científico. Uma versão preliminar pode ser lida, em inglês, aqui.


“A África não tem um país com epidemia”
Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania e deputado federal pelo MDB-RS, ao UOL Debates, no dia 13 de abril de 2020

FALSO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica os países em quatro níveis durante a pandemia de Covid-19, por gravidade da situação: sem casos; com casos esporádicos; com focos de casos; e com transmissão comunitária. No dia 12 de abril, um dia antes da participação de Terra no UOL Debates, dois países africanos, Argélia e África do Sul, já estavam nesse último grau de contágio – no qual também estão, por exemplo, Brasil e Estados Unidos. Essa classificação é revista semanalmente. 

Na Argélia, onde a situação é mais grave, 1.825 casos e 275 mortes tinham sido confirmadas. A alta proporção de mortes indica que há subnotificação no país. Já na África do Sul, 2.028 casos foram registrados, mas o número de mortes é consideravelmente mais baixo: 25.

No continente todo, no dia 12 de abril, o total de casos estava em 9.728, e o total de mortes, em 444. No total, 45 países e dois territórios africanos contavam com casos confirmados, mas a maioria tinha apenas focos de casos ou casos esporádicos, sem transmissão comunitária.

Dois dias depois, em 14 de abril, não foi confirmada transmissão comunitária em nenhum outro país além de Argélia e África do Sul. O número total de casos e de mortes no continente subiu para, respectivamente, 10.787 e 501.


“Maior país da África, (…) que é a Nigéria, tem menos de 100 casos”
Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania e deputado federal pelo MDB-RS, ao UOL Debates, no dia 13 de abril de 2020

FALSO

Na Nigéria, país mais populoso da África, o número de casos no dia 12 de abril, um dia antes de Osmar Terra participar do UOL Debates, era de 318, mais do que o triplo do mencionado pelo deputado. Até aquele dia, 10 mortes tinham sido confirmadas no país. Segundo a OMS, o país estava com “focos de casos” de Covid-19, terceiro nível de contágio da epidemia.


“Com mais de 100 mil casos [na China]”
Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania e deputado federal pelo MDB-RS, ao UOL Debates, no dia 13 de abril de 2020

EXAGERADO

O último relatório da Organização Mundial da Saúde mostra que, até o dia 12 de abril, 83.597 casos foram registrados na China. O deputado federal Osmar Terra utilizou esse dado para falar sobre a letalidade do vírus, que, segundo ele, teria infectado mais de 100 mil pessoas, mas que teria matado apenas 3 mil. O ex-ministro acerta no número de óbitos, já que houve 3.351 mortes no país até o dia 12 de abril. Contudo, a diferença entre o número de mortes e o número de casos é menor do que o indicado – ou seja, a taxa de mortalidade é maior.


“Os países com melhor resultado no mundo – Coreia [do Sul], Taiwan (…) – não fizeram quarentena, não fecharam loja”
Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania e deputado federal pelo MDB-RS, ao UOL Debates, no dia 13 de abril de 2020

VERDADEIRO, MAS

Coreia do Sul e Taiwan tiveram resultados bastante positivos no controle da pandemia de Covid-19, se comparados com o resto do mundo, e não precisaram colocar todas as suas populações em isolamento. Porém, as medidas que permitiram essa abordagem foram tomadas ainda no início da pandemia. Além disso, elas dependem de outros fatores, como tecnologias de monitoramento e um sistema público de saúde com alta capacidade de atendimento e organização, que não permitem que sejam repetidas no Brasil no estado atual.

Durante a pandemia, a Coreia do Sul não suspendeu atividades comerciais e profissionais, apesar de ter fechado suas escolas e universidades. Embora não tenha sido declarada quarentena para todas as pessoas, o país agiu rápido para conter a pandemia, testando sua população em larga escala em focos da disseminação da doença. Para isso, usou tecnologias de monitoramento, algumas delas bastante intrusivas para padrões ocidentais. Assim, conseguiu detectar e isolar pacientes contaminados com mais rapidez que outros países menos bem-sucedidos no combate à doença. 

O alto número de testes também explica a baixa taxa de mortalidade. Como mais pessoas assintomáticas foram testadas, casos brandos que passariam despercebidos em outras localidades foram registrados, diminuindo a razão entre o número de casos e o de mortes pela doença. Em fevereiro, no auge da crise, o país chegou a registrar 909 casos em um só dia. Na última terça-feira (14), foram apenas 27. Apesar de contar com mais de 10,5 mil casos, apenas 222 pessoas morreram.

Taiwan tomou medidas similares às da Coreia do Sul, e agiu com ainda mais rapidez. Antes mesmo da transmissão entre humanos ser confirmada, em 21 de janeiro, o país começou a monitorar todos os passageiros vindos de Wuhan, na China. Assim, descobriu seu primeiro caso já no dia 22. Além de suspender voos da China continental e, posteriormente, de outras áreas afetadas pelo vírus, Taiwan monitorou em tempo real moradores considerados sob risco de ter contraído a doença. Apenas essas pessoas tiveram que ficar de quarentena. Assim, o número de casos foi extremamente baixo: apenas 380 no dia 9 de abril, com cinco mortes confirmadas.


“Os países com melhor resultado no mundo – (…) Japão – não fizeram quarentena, não fecharam loja”
Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania e deputado federal pelo MDB-RS, ao UOL Debates, no dia 13 de abril de 2020

FALSO

Ao contrário do que afirma o deputado, o Japão não está entre os países com melhor resultado do mundo e, por causa disso, regiões do país estão entrando em quarentena e fechando seus comércios. Após manter um número relativamente baixo de casos até meados de março, o número de ocorrências disparou. Desde sexta-feira (10), Tóquio está sob uma quarentena “light”, na qual o fechamento de lojas não-essenciais é recomendado, porém não há punição para quem descumpre as orientações. Medidas similares estão sendo tomadas em outras áreas do país.

O governo japonês alertou sua população sobre os riscos do novo coronavírus antes de o primeiro caso chegar ao país. As autoridades cancelaram as aulas e aconselharam o isolamento em casa. No final de março, a governadora de Tóquio, Yuriko Koike, pediu que os moradores da região evitassem frequentar bares e restaurantes para conter a disseminação do vírus. Porém, medidas mais abrangentes de isolamento não tinham sido tomadas até aquele momento. Tampouco, testes em larga escala, como na Coreia do Sul, e monitoramento constante, como em Taiwan, foram adotados.

Contudo, no final de março e no início de abril, o número de novos casos cresceu significativamente. O primeiro registro da doença em solo japonês ocorreu em 14 de janeiro. Em 20 de março, mais de dois meses depois, o país contava com apenas 950 casos e 33 mortes. Dez dias depois, em 30 de março, o número mais que dobrou: 2.470 casos. O número de mortes chegou a 54. Em 7 de abril, o Japão já tinha 3.906 casos e 80 mortes. No último relatório da Organização Mundial da Saúde, de 14 de abril, eram 7.645 novos casos e 109 mortes. Os números, sobretudo o de mortes, ainda são melhores do que os do Brasil e, principalmente, os da Europa e dos Estados Unidos. Porém, a tendência é de crescimento.

Na última semana, autoridades decretaram o estado de emergência em sete provínciasSaitama, Chiba, Tóquio, Kanagawa, Osaka, Hyogo e Fukuokae voltaram a recomendar o isolamento social, evitando passeios desnecessários e trabalhando de casa, se possível. Segundo o governo japonês, o estado de emergência irá durar 29 dias – indo até o início de maio. O documento do governo comunica, no entanto, que a medida não pode ser considerada um “lockdown”.

Editado por: Chico Marés, Natália Leal e Maurício Moraes

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