A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Lupa na Ciência: O que as pesquisas dizem sobre a relação entre pets e o novo coronavírus

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.abr.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Raros casos de cães, gatos e outros felinos com a Covid-19 foram registrados no mundo desde o início do ano
  • Estudos recentes apontam que os felinos podem ser contaminados e transmitir o vírus para outros animais da mesma espécie
  • Não há evidências até o momento de que os animais domésticos sejam vetor importante de transmissão da doença ou que representem alguma ameaça a humanos
  • A recomendação da OMS é lavar as mãos antes e depois de interagir com os animais, e manter distância do pet caso a pessoa esteja contaminada

Em fevereiro, exames detectaram baixos níveis do novo coronavírus em um cachorro após seu dono contrair Covid-19. Poucas semanas depois, um gato na Bélgica começou a apresentar sintomas, como problemas respiratórios, tosse e náusea. Ele também havia contraído a doença. Já no início de abril, um tigre-malaio e outros felinos do Zoológico do Bronx, em Nova York (EUA), tiveram resultado positivo para a Covid-19 provavelmente após contato com um funcionário que estava infectado. Os casos, ainda que raros, chamaram a atenção de especialistas ao redor do mundo e, é claro, dos donos de pets. É possível que animais domésticos contraiam a doença? Eles podem transmiti-la? A ciência já nos traz algumas respostas, que servem de alerta principalmente para os amantes dos felinos.

Cientistas do Instituto de Pesquisa Veterinária de Harbin, na China, constataram que gatos podem ser contaminados pelo novo coronavírus e transmitir a doença a outros animais da mesma espécie. A pesquisa, publicada no início de abril na revista Science, apontou ainda que cães não são totalmente imunes ao vírus, porém são bem menos suscetíveis, assim como frangos, patos e porcos.  

Na parte do estudo que analisou os felinos, cinco gatos receberam altas doses do SARS-CoV-2, sendo que três deles foram colocados em gaiolas ao lado de outros que não tiveram contato anterior com o novo coronavírus. O coronavírus é uma fita de RNA viral que, para sobreviver e se multiplicar, necessita entrar na célula de um hospedeiro e introduzir nela seu material genético para que se reproduza. Esta entrada acontece por meio de algumas proteínas presentes em determinados animais e, somente quando esta combinação entre vírus e proteína ocorre, ele se torna ativo e infecta o animal, causando a Covid-19.

Constatou-se que os felinos que haviam recebido as altas doses de SARS-CoV-2 estavam com o vírus ativo em seus corpos, e acabaram infectando pelo menos um dos animais que não tinham sido expostos anteriormente após terem contato dentro da gaiola, sugerindo que a transmissão ocorreu por meio de gotículas respiratórias. Os experimentos foram replicados em um segundo grupo de felinos, com desfecho semelhante. Apesar dos resultados, especialistas afirmam que não há motivo para pânico entre os donos de pets. Os testes foram feitos com um pequeno grupo de animais, em condições específicas (o que dificulta precisar a taxa de transmissibilidade entre eles). Até o momento não há evidência de que os felinos sejam um vetor importante na disseminação da doença entre os seres humanos. 

Outro estudo que corrobora esses resultados, e traz explicações mais precisas sobre o fenômeno, foi publicado na edição de março do Journal of Virology, periódico da Sociedade Americana de Microbiologia. Na publicação, pesquisadores americanos apontam que humanos e felinos possuem versões praticamente idênticas da proteína ACE2, que é “usada” pelo novo coronavírus para entrar nas células do corpo. Já em cachorros, esta proteína é um pouco diferente, o que pode dificultar que o vírus a reconheça. Assim, estes animais são menos propensos à infecção. Isso ficou evidente também no experimento chinês. Cinco cães receberam doses do coronavírus, e somente dois deles excretaram RNA viral nas fezes. Nenhum continha o vírus ativo. Portanto, não desenvolveram a doença.

Embora estes estudos preencham algumas lacunas sobre como o vírus afeta animais domésticos, o pequeno número de casos de contaminação entre pets registrados até agora, em meio a uma pandemia com mais de 2 milhões de humanos infectados em diversos países, reforça que eles não representam uma ameaça. Em nota publicada pelo Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (Panaftosa-Opas/OMS), os especialistas destacam que não há evidência científica de que animais domésticos sejam fonte de transmissão da doença para humanos. O comunicado alerta, ainda, que o eventual abandono de animais domésticos “é considerado crime”. 

Ainda assim, há recomendações importantes para quem tem animais de estimação: lave as mãos antes e depois de interagir com os animais, não os beije e mantenha distanciamento do pet caso esteja doente. Se algum animal apresentar sintomas ou entrar em contato com alguém infectado, a recomendação é que o dono entre em contato com um veterinário ou funcionário da saúde pública, que irá orientar a melhor forma de proceder. 

Fontes:

Journal of Virology.
Artigo disponível em: 
https://jvi.asm.org/content/94/7/e00127-20

Science Magazine.
Artigo disponível em: https://doi.org/10.1126/science.abb7015

Organização Pan-Americana da Saúde.
Documento disponível em: https://www.paho.org/panaftosa

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo