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Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil
Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil

Lupa na Ciência: Estudos mostram eficácia do isolamento social contra Covid-19 e projetam cenários

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.abr.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudos que analisaram as medidas de isolamento social adotadas na China mostram que elas foram eficazes na redução das taxas de contaminação pelo novo coronavírus
  • Especialistas preveem que medidas prematuras de flexibilização das restrições podem ter consequências graves, com o surgimento de novos picos de contaminação
  • Ainda não se sabe se a imunidade adquirida após contato com o vírus é permanente. Esse é um dos principais elementos que pode mudar os cenários futuros
  • Artigo recente prevê que medidas de distanciamento social deverão ser tomadas pelo menos até 2022 para conter a pandemia, caso não seja desenvolvida uma vacina ou tratamento contra a Covid-19

As medidas de isolamento adotadas em diversos países para conter as contaminações pelo novo coronavírus, causador da Covid-19, têm gerado polêmica e dividido opiniões. Enquanto alguns acreditam que elas podem sim ajudar na atual crise, outros alegam que são muito radicais e podem comprometer de forma irreversível a economia. Pesquisadores ao redor do mundo que têm se dedicado a avaliar a eficácia das medidas de distanciamento – e a estimar cenários futuros – convergem: o isolamento social é comprovadamente eficaz na redução das taxas de contaminação;  medidas prematuras de flexibilização da quarentena podem resultar em um segundo pico da infecção; e podem ser necessárias medidas prolongadas ou intercaladas por anos, ou até que uma vacina ou tratamento seja desenvolvido. As afirmações dos especialistas vão contra a expectativa de alguns governos, como o americano, que estimou o controle da pandemia ainda neste ano, e o brasileiro, cuja fala do seu novo ministro da Saúde, Nelson Teich, incluiu a afirmação de que “é necessário voltar à normalidade o mais rápido possível”. 

Em um estudo publicado na revista científica The Lancet no início de abril, pesquisadores da Universidade de Hong Kong avaliaram a eficácia de medidas restritivas implementadas desde 23 de janeiro de 2020 em quatro cidades e 10 províncias na China. Eles concluíram que essas medidas foram responsáveis por diminuir substancialmente a taxa de infecção não somente por casos importados, mas também por contaminação local. De acordo com os dados compilados no estudo, o número de pessoas contaminadas por dia nas cidades analisadas chegou a ser superior a 600 no início de fevereiro, no momento em que as medidas de restrição foram adotadas. No final do mesmo mês, quando as limitações estavam em pleno vigor há algum tempo, a taxa caiu para menos de 200 casos por dia. No país asiático, foram estabelecidas regras rigorosas para o cumprimento da quarentena, como checagem de temperatura corporal de quem estivesse em estabelecimentos públicos, suspensão imediata das atividades acadêmicas, entre outros. Previsões matemáticas do estudo alertaram também para o fato de que o relaxamento drástico e prematuro dessas medidas não só pode levar ao retorno das altas taxas de transmissibilidade, provocando uma segunda onda de infecções, como deve afetar de forma drástica as regiões mais pobres.

Esta conclusão veio a partir da análise do risco de morte daqueles que testaram positivo para a Covid-19 em diferentes partes da China, mostrando uma variação significativa de acordo com o desenvolvimento econômico e a disponibilidade de recursos médicos. A taxa de mortalidade na província de Hubei, por exemplo, foi de 5,91%, quase seis vezes maior do que nas províncias onde, segundo o estudo, o serviço de saúde é melhor. Nestas, a taxa foi de 0,98%. 

Outro estudo, publicado na última terça-feira (14), na revista científica Science prevê que, enquanto não houver um remédio ou vacina para a Covid-19, medidas de distanciamento social deverão ser tomadas pelo menos até 2022 para conter a pandemia. Além disso, mesmo se houver uma eliminação aparente da doença, autoridades terão de monitorar o novo coronavírus pelo menos até 2024. O estudo foi desenvolvido na Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard.

Para desenhar os possíveis cenários, os pesquisadores criaram modelos matemáticos baseados no comportamento de dois outros vírus da família Coronaviridae que provocam resfriados mais brandos em humanos, e cujo ciclo já é conhecido. As previsões vieram com a ressalva de que, como não se sabe ainda se a infecção pelo novo coronavírus confere imunidade permanente ou não, os cenários podem variar.  Se a imunidade for permanente, o vírus pode desaparecer em cinco ou mais anos após a grande pandemia, estima o estudo. Se não for, é provável que ocorram ondas epidêmicas anuais, com pico no inverno, como o que se observa em outros tipos de gripe. Os pesquisadores de Harvard também chamam atenção para o fato de que uma única medida de contenção, se realizada por um período muito curto como estão defendendo alguns governos –, pode trazer consequências graves,  uma vez que o vírus pode se espalhar de forma abrupta assim que a população voltar à sua rotina.

 Os estudos, cálculos e previsões sobre a nova pandemia seguem sendo produzidos em alta velocidade, exigindo de governantes e líderes a capacidade de convergir as informações a fim de usá-las como base para a tomada segura de decisões. Os autores de ambas pesquisas reconhecem os potenciais efeitos das medidas de isolamento para a economia de diversos países, mas alertam que a implementação de estratégias para afrouxamento devem ser baseadas na ciência, a fim de não aumentar os riscos de uma segunda onda de contaminações. 

Fontes:

Science Magazine.
Artigo disponível em: 
https://science.sciencemag.org/content/early/2020/04/14/science.abb5793

The Lancet.
Artigo disponível em: 
https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lancet/PIIS0140-6736(20)30845-X.pdf

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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