A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Lupa na Ciência: Apesar de bons resultados iniciais, tratamentos para Covid-19 ainda precisam de mais testes

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.abr.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudos clínicos sobre a Covid-19 ainda não apontam um tratamento comprovadamente eficaz contra o vírus
  • Organização Mundial da Saúde (OMS) coordena testes com quatro medicamentos no combate à Covid-19
  • Entre as drogas testadas, o antiviral remdesivir teve bons resultados iniciais. Pesquisadores avaliam, no entanto, que são necessários mais estudos a respeito
  • Cientistas brasileiros realizam pelo menos 112 estudos com humanos sobre a pandemia

 

Quase na mesma velocidade de propagação do novo coronavírus, espalham-se as notícias sobre possíveis curas e milagrosos medicamentos contra a Covid-19. Entretanto, até o momento, nenhum tratamento se mostrou comprovadamente eficaz contra a doença. Entre os que apresentam algum dado promissor, o antiviral remdesivir, criado originalmente para combater o ebola, apresentou bons resultados iniciais – mas ainda há poucos estudos sobre a droga para afirmar que o tratamento seja seguro e eficaz contra o novo coronavírus.

Estas foram as duas principais conclusões do maior levantamento já feito na literatura médica sobre terapias relacionadas à nova pandemia. Disponível desde o dia 13 de abril no Journal of the American Medical Association (JAMA), o trabalho avaliou os mais de 350 ensaios clínicos registrados sobre o assunto até o final de março. Destes, foram eliminados os que não se referiam especificamente a medicamentos, sobrando 109 pesquisas em diferentes etapas, além de relatos de casos isolados. 

O grupo de pesquisadores que liderou o trabalho deu destaque ao remdesivir pelos bons resultados em casos isolados tratados contra a Covid-19, citados em pelo menos duas publicações, e pela baixa toxicidade que o medicamento apresenta ao longo dos anos no tratamento do ebola. Os pesquisadores reforçam, no entanto, que ainda são necessários estudos mais aprofundados. Isso é importante para que não se criem falsas esperanças de cura, como o que aconteceu a partir de resultados preliminares com a cloroquina, que até agora não se confirmaram em etapas mais avançadas das pesquisas.  

Um dos estudos que corroboram a conclusão dos pesquisadores foi publicado no início do mês na revista científica New England Journal of Medicine, porém com um número muito pequeno de pacientes. Os pesquisadores avaliaram o tratamento com remdesivir em 53 voluntários com Covid-19 hospitalizados em estado grave nos Estados Unidos, Itália, Espanha, Alemanha, França, Holanda, Japão e Canadá. Após 18 dias, 68% deles apresentaram melhoras, sendo que metade recebeu alta, e sete faleceram.  Como os pacientes não foram comparados a voluntários recebendo placebo ou outros tratamentos – que seria a próxima etapa do estudo, chamada duplo-cego –, os próprios autores reconhecem que é preciso aprofundar os testes. Há relatos de efeitos colaterais no uso do medicamento – entre os relatados estão disfunções renais e hepáticas, risco de choque séptico e hipotensão.

De acordo com a revisão do JAMA, três pesquisas clínicas mais amplas com este medicamento, que ainda não foi aprovado para comercialização pela agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration), já estão em andamento nos Estados Unidos. O National Institutes of Health (NIH) também está patrocinando testes com maior número de pacientes, randomizados e controlados por placebo (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

O remdesivir é um dos quatro remédios escolhidos pelo programa Solidarity, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que soma esforços de vários países em busca de tratamentos eficazes. Junto com ele estão no programa o HIV-Kaletra (composição entre o lopinavir e o ritonavir), usado no combate à aids; o interferon-beta, aplicado em casos de artrite reumatoide; e a cloroquina/hidroxicloroquina.

Esta iniciativa da OMS conta com a colaboração do Brasil, que realiza pelo menos 112 estudos com humanos sobre a Covid-19, incluindo investigações epidemiológicas e trabalhos relacionados à saúde mental durante o confinamento, entre outros. De acordo com a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), órgão ligado ao Ministério da Saúde responsável por dar o aval a pesquisas que envolvam pessoas, 24 são ensaios clínicos que testam diferentes tipos de tratamentos, como antibióticos, plasma convalescente (de pessoas recuperadas) e até células-tronco mesenquimais (a partir das quais se formam os tecidos conjuntivos e os vasos sanguíneos e linfáticos), que estão sendo testadas na redução do processo inflamatório causado pela agressão do vírus no corpo.

Enquanto estes resultados não saem, a revisão do JAMA mostra que até o momento o que se tem de concreto é o descarte de alguns medicamentos inicialmente vistos como promissores. É o caso do antiviral oseltamivir, comercializado sob a marca Tamiflu, que ficou conhecido para o tratamento de gripe por Influenzavirus A e Influenzavirus B. 

Além disso, a publicação mantém a dúvida sobre outros medicamentos. As pesquisas mostram que o uso de corticoides no tratamento de processos inflamatórios mais agudos em pacientes com a Covid-19 ainda é controverso. Já sobre o uso do plasma convalescente de pacientes que foram contaminados  – técnica que ganhou os noticiários nos últimos dias, trazendo esperança para muitas pessoas  –, a revisão da literatura médica afirma apenas que são necessários mais estudos sobre o tema. 

Em relação à cloroquina e hidroxicloroquina, cujo uso já foi recomendado pelo governo brasileiro em pacientes graves hospitalizados devido ao coronavírus, a revisão afirma que os estudos deste medicamento combinado com o antibiótico azitromicina ainda são muito limitados. Dois estudos com hidroxicloroquina são analisados em mais detalhe. Um deles, feito na França e já citado no Lupa na Ciência, mostrou resultados promissores, mas, segundo o artigo, tem “várias grandes limitações”, incluindo o baixo número de participantes, a falta de randomização, a remoção de pacientes que tiveram seu tratamento interrompido e cargas virais iniciais divergentes entre os doentes. Outro estudo citado, com 30 pacientes na China, mostrou resultados similares entre o grupo tratado com hidroxicloroquina e o grupo tratado sem o remédio. Não foi analisada a interação com azitromicina.

Os pesquisadores concluem dizendo que, por enquanto, a estratégia de prevenção mais efetiva a longo prazo seria o desenvolvimento de uma vacina contra o vírus, o que deve levar de 12 a 18 meses. Até lá, médicos e especialistas de diferentes áreas seguem estudando as melhores formas de conter a propagação do vírus e tratar aqueles que já foram infectados, sem uma previsão para conclusões.

 

Fontes:

The Journal of the American Medical Association. Artigo disponível em: 

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2764727

 

New England Journal of Medicine. Artigo disponível no link:

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2007016

 

Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Boletim disponível no link:

https://drive.google.com/file/d/1b2YugcYQe-QdOEgPL9F-PHjUm5Dr_zf0/view

 

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés, Maurício Moraes e Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo