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Foto: Governo da Paraíba
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Lupa na Ciência: Entenda por que o novo coronavírus não é apenas uma ‘gripezinha’

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.abr.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber

  • Pesquisas descobriram características do novo coronavírus que o tornam mais contagioso e mais agressivo do que o da gripe sazonal
  • O SARS-CoV-2 tem um tempo de incubação maior do que o da gripe comum, e um maior potencial de disseminação 
  • Ainda não é possível determinar com precisão a taxa de letalidade da Covid-19, porém a maioria dos estudos indica que ela é mais alta do que a da gripe sazonal
  • O que já se descobriu sobre o novo coronavírus reforça a necessidade de considerar este um grave problema de saúde pública

Há poucas semanas, o presidente da Belarus, Alexander Lukashenko, recomendou beber vodka e visitar a sauna para combater o novo coronavírus (SARS-CoV-2). Ele seguiu a linha adotada inicialmente por Donald Trump, que minimizava a gravidade da pandemia. Por aqui, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegou a qualificar a doença como uma “gripezinha”, questionando a severidade do novo vírus e seus impactos na sociedade. A confusão se dá porque tanto a Covid-19 como a gripe sazonal (ou influenza) são causadas por vírus respiratórios e apresentam sintomas iniciais semelhantes. Entretanto, dados conhecidos até agora indicam que o SARS-CoV-2 possui peculiaridades que tornam a doença causada por ele mais contagiosa e mais letal que a gripe comum.  

Um dos principais argumentos para quem corrobora a visão dos presidentes é de que a taxa de letalidade (razão entre a quantidade mortos e o número total de infectados) estaria sendo inflada em diversos países, já que, devido à escassez de testes, há muito mais gente contaminada com sintomas leves ou assintomáticas do que os dados apontam. Mas logo pesquisadores se deram conta disso e passaram a incluir nos recentes estudos as estimativas de infectados não diagnosticados, mostrando que mesmo com dados mais precisos o coronavírus segue sendo mais letal que a influenza – e que essa é apenas uma das diversas diferenças para as gripes sazonais. Some-se a isso o fato de que a gripe é uma doença séria (que causa febre alta, dores no corpo e síndromes respiratórias), porém comumente confundida com um leve resfriado, e temos um quadro ainda mais preocupante.

A Lupa reuniu alguns dos principais estudos que mostram as características do novo coronavírus e ajudam a compreender os alertas emitidos por diversos órgãos de saúde sobre a gravidade da atual pandemia. 

Maior período de incubação

Tanto o novo coronavírus como os vírus da influenza A e B, que comumente provocam as gripes sazonais, são transmitidos de forma semelhante, ou seja, por gotículas respiratórias ou por contato. Entretanto, o período de incubação, ou seja, o tempo médio entre a pessoa ser infectada e passar a manifestar os sintomas nas gripes comuns é de 3 dias. Já com a Covid-19, isso pode levar de um até 14 dias (sendo 5,1 dias o tempo médio). Este dado, publicado no início de março no periódico Annals Of Internal Medicine, já seria suficiente para que as medidas de isolamento social fossem reforçadas, a fim de evitar a circulação de pessoas contaminadas que ainda não tivessem manifestado sintomas.  

Para deixar a situação mais complicada, um artigo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) em fevereiro deste ano indicou pela primeira vez que uma pessoa totalmente assintomática, ou seja, que não desenvolveu qualquer sintoma da doença durante toda a infecção, foi capaz de transmitir o vírus para outras. Isso mostrou que é possível que o vírus esteja se espalhando também de forma silenciosa. O papel dos assintomáticos se tornou objeto de estudos de diversas pesquisas ao redor do mundo. Uma das mais importantes, publicada em meados de março na revista Science, apontou que aqueles que não manifestam sintomas ou desenvolveram um quadro leve podem ser responsáveis por dois terços das infecções. 

Maior potencial de disseminação

Estimar as formas e graus de contágio é um elemento importante para compreender o tamanho de uma pandemia e estabelecer as medidas restritivas a serem tomadas até que uma vacina esteja disponível em larga escala. Por isso, cientistas têm se dedicado a estimar o “número básico de reprodução”, chamado R0, da Covid-19. Essa medida mostra a quantidade de pessoas que um único indivíduo infectado pode contaminar. Na gripe comum, o R0 é de 1,3 – ou seja, cada pessoa pode passar a doença para até 1,3 pessoa, em média. Já o grau de contágio do novo coronavírus ainda varia de acordo com diferentes estudos, uma vez que é uma doença recente e novos dados são acrescentados a cada dia. Porém, os valores ficam entre um R0 de 2,2 e 3,8.

Revisando os estudos publicados até agora, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cada pessoa infectada com o novo coronavírus irá contaminar pelo menos outras duas, apontando que o SARS-CoV-2 pode ser muito mais virulento que os vírus de gripe comum.  

Maior taxa de letalidade

A verdadeira taxa de letalidade da Covid-19 é uma das maiores incógnitas sobre a nova pandemia, mas mesmo os estudos mais “otimistas” realizados até agora estimam que o novo coronavírus mata mais do que a gripe comum, cuja taxa de mortalidade fica em torno de 0,1%. A dúvida surge porque, para estimar o quão mortal é um vírus, é preciso saber o número real de infectados e de mortos. Isso tem se mostrado difícil na nova pandemia, já que grande parte dos contaminados que apresentam sintomas leves ou são assintomáticos acabam não sendo testados. Para contornar o problema, pesquisas recentes têm buscado estimar também a porcentagem de pessoas inicialmente não-diagnosticadas e que tiveram contato com o vírus por meio de exames que detectam anticorpos. 

Um dos estudos, elaborado por pesquisadores de instituições britânicas e publicado no final de março na The Lancet Infectious Diseases, analisou os dados de diferentes cidades da China e apontou que a taxa de letalidade da Covid-19 é de aproximadamente 0,66%, ao levar-se em conta a quantidade de casos sem notificação. Se apenas os casos confirmados fossem analisados, a taxa de letalidade do SARS-CoV-2 seria de 1,38 %. Os dados são semelhantes aos registrados na Coreia do Sul, país que está monitorando o número de infectados de forma minuciosa. Por lá, a taxa de letalidade foi estimada em 0,7%.

Em um editorial publicado na mesma revista no dia 31 de março, Shigui Ruan, professor da Universidade de Miami, ressaltou que as diferentes medidas de prevenção e condições do sistema de saúde de cada país podem influenciar no grau de mortalidade do vírus, mas que todos os estudos feitos até agora indicam que ele é maior do que o das gripes sazonais. 

Ainda não temos defesa

A forma como o novo coronavírus ataca nosso organismo também tem surpreendido médicos e pesquisadores, que já registraram casos de danos não apenas nos pulmões, mas também nos rins, fígado, coração, cérebro e intestinos. Especialistas indicam a enorme capacidade de o novo patógeno se ligar às células do corpo humano como uma das explicações. A outra é o fato de ser um vírus novo, e pelo qual ainda não temos nenhum mecanismo de defesa pronto em nossos corpos. Para as gripes comuns, os anos de “convivência” que temos com os vírus nos fizeram desenvolver um certo grau de imunidade, o que foi sendo reforçado com as vacinas. Enquanto ainda não há uma barreira imunológica para conter a nova pandemia, todos os indícios científicos reforçam a necessidade de considerar este um grave problema de saúde pública. 

Fontes:

Annals Of Internal Medicine. Artigo disponível em:

https://annals.org/aim/fullarticle/2762808/incubation-period-coronavirus-disease-2019-covid-19-from-publicly-reported

 

Journal of the American Medical Association (JAMA). Artigo disponível em:

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2762028

 

Science Magazine. Artigo disponível em:

https://science.sciencemag.org/content/early/2020/04/24/science.abb3221

 

Organização Mundial da Saúde (OMS). Informações disponíveis em:

https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-similarities-and-differences-covid-19-and-influenza

 

The Lancet Infectious Diseases. Documentos disponíveis em:

https://www.thelancet.com/pdfs/journals/laninf/PIIS1473-3099(20)30243-7.pdf

https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S1473-3099%2820%2930257-7

 

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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