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Foto: SECOM/Prefeitura de Salvador
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Lupa na Ciência: Pesquisas apontam que novo coronavírus pode sobreviver por horas, e até dias, em diferentes superfícies

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.maio.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudo comprova que o novo coronavírus, em condições específicas de temperatura e umidade do ar, pode permanecer por até até 3 dias em superfícies de plástico e aço
  • Em uma análise do navio Diamond Princess, onde 20% dos ocupantes tiveram a Covid-19, o vírus foi detectado 17 dias depois de a embarcação ter sido esvaziada
  • A mais recente pesquisa sobre o assunto indicou que o vírus pode ser transportado para diferentes ambientes pela sola dos sapatos
  • Os pesquisadores ainda não sabem dizer se a quantidade de vírus encontrada nestes locais e materiais seria suficiente para infectar uma pessoa
  • Enquanto as pesquisas avançam, algumas recomendações de higiene foram reforçadas, como a higienização de objetos usados no cotidiano

Tirar e lavar as roupas ao entrar em casa, girar a maçaneta com o cotovelo, usar máscara ao sair e limpar com água e sabão ou álcool em gel cada encomenda que chega. Esses são apenas alguns dos novos hábitos que passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas desde o início da atual pandemia – e que devem durar pelo menos até que se descubra uma vacina ou tratamento eficaz contra a Covid-19. Alguns consideram tudo isso um exagero, mas o que as pesquisas têm mostrado é que essas medidas fazem todo o sentido para quem quer se proteger do novo coronavírus (SARS-CoV-2), já que ele pode sobreviver por horas e até dias em superfícies como papelão, aço, cobre e plástico.

A especulação sobre a alta resistência do SARS-CoV-2 fora do corpo humano começou quando um grupo de pesquisadores publicou no Journal of Hospital Infection, em fevereiro deste ano, uma revisão sobre a permanência de outros tipos de coronavírus em diferentes superfícies. O estudo concluiu que esses micro-organismos são capazes de resistir por até 9 dias em alguns tipos de materiais. Considerando as semelhanças genéticas do atual patógeno com os mais antigos, avaliaram que seu comportamento fora do hospedeiro poderia também ser parecido.

Foi em meados de março que uma investigação mais completa confirmou essas previsões. Publicado no New England Journal of Medicine, o estudo comparou a estabilidade do SARS-CoV-2 com a de seu “parente” mais próximo, o SARS-CoV-1, vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), que causou um surto de pneumonia entre 2002 e 2003. Para realizar o estudo, pesquisadores emitiram jatos de ar contendo gotículas com ambos os vírus em ambientes com diferentes superfícies a uma temperatura entre 21 e 23 graus Celsius, com 40% de umidade, simulando o que aconteceria se uma pessoa infectada tossisse ou tocasse em objetos dentro de casa ou em um ambiente hospitalar. O experimento, que foi repetido dez vezes, mostrou que foi possível detectar o novo coronavírus estável (ou seja, íntegro e com capacidade de infecção) por até 3 horas no ar, por 4 horas em superfícies de cobre, por um dia em papelão e por até 3 dias em plástico e aço. Os resultados para o SARS-CoV-1 foram semelhantes.

A partir dos dados coletados, os autores do estudo chegaram a algumas conclusões, mas também levantaram novas dúvidas. A primeira questão a ser considerada é que o experimento foi realizado em uma temperatura e umidade do ar específicas. Já se sabe que o comportamento dos vírus varia conforme as condições de cada ambiente. Sendo assim, ele poderia sobreviver menos ou mais de acordo com o clima de cada região. Além disso, como as pesquisas com o novo coronavírus são muito recentes, ainda não ficou claro se a quantidade de vírus detectada nessas superfícies seria suficiente para contaminar uma pessoa.

Outra dúvida levantada pelos autores do estudo foi que, se ambos os vírus estudados tinham uma sobrevida semelhante nas diferentes superfícies, por que o novo coronavírus causou uma pandemia e o SARS-CoV-1 não? De acordo com os pesquisadores, as novas evidências apontam para o fato de que muitos que estão com a Covid-19 são assintomáticos, e acabam circulando em locais públicos e espalhando o vírus. O mesmo não aconteceu em 2003, já que as pessoas que contraíram a SARS só eram capazes de transmitir o vírus quando apresentavam sintomas, o que facilitou determinar as medidas de isolamento e conter a propagação do patógeno.

Poucos dias depois de publicada essa pesquisa, cientistas que analisavam o Diamond Princess, navio que ficou conhecido após 20% dos ocupantes terem contraído a Covid-19, detectaram RNA viral do novo coronavírus nas cabines da embarcação mesmo após ela estar completamente vazia por 17 dias, em uma espécie de quarentena. Mais uma vez, os pesquisadores alertaram para o fato de que a presença de material genético do vírus no navio – tanto pela quantidade quanto pelas condições em que se encontrava – não garante que eles seriam capazes de infectar uma nova pessoa. Contudo, eles alertam para o fato de que o novo vírus pode sobreviver muito mais do que se imaginava, ressaltando a importância de se estudar mais esse assunto.

A pesquisa mais recente sobre o tema foi divulgada pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) – trata-se de uma versão “preprint”, ou seja, que ainda precisa passar por revisão antes de ser publicada. O estudo testou a presença do SARS-CoV-2 em diferentes superfícies de hospitais chineses. Foi detectada a presença do vírus em mouses de computadores, latas de lixo e também espalhado pelo chão de diversas alas, indicando que os sapatos dos profissionais de saúde podem ter carregado o vírus para setores do hospital onde não havia pessoas contaminadas, como por exemplo a sala de estoque de medicamentos.

Ainda há muito para se pesquisar sobre a resistência do novo coronavírus fora do corpo humano. Contudo, a soma das evidências até agora reunidas, analisadas e publicadas convergem para a necessidade de se adotar algumas medidas de higienização de objetos usados no cotidiano, como o celular e pacotes que vêm da rua. Também é recomendável evitar tocar em corrimãos, prateleiras e objetos tocados pela mão de muitas pessoas. De acordo com os especialistas, a limpeza de superfícies pode ser feita com álcool em gel 70%, água sanitária ou água e sabão. Lavar as roupas com sabão comum e depois secá-las é mais do que suficiente para remover o vírus, já que ele é cercado por uma membrana gordurosa que é vulnerável a essa substância. Soma-se a tudo isso a medida mais importante para conter a propagação do vírus, que é manter o isolamento social.

Fontes:

Journal of Hospital Infection. Artigo disponível em:
https://www.journalofhospitalinfection.com/article/S0195-6701(20)30046-3/fulltext

New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMc2004973

Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Disponível em:
https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/7/20-0885_article

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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