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Foto: Mario de Oliveira, Fotos Públicas
Foto: Mario de Oliveira, Fotos Públicas

Lupa na Ciência: Além de danos no pulmão, Covid-19 pode aumentar formação de coágulos sanguíneos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.maio.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudos recentes apontam que a Covid-19 pode causar a formação incomum de coágulos sanguíneos, afetando diferentes órgãos do corpo 
  • Ainda não se sabe exatamente quais os mecanismos que levam a isso, mas especialistas apontam que uma resposta imunológica exacerbada do corpo pode ser uma das causas. 
  • Outra hipótese é que o vírus tem a capacidade de infectar diretamente outros órgãos do corpo, podendo também interferir no processo de coagulação
  • Medicamentos antitrombóticos e anticoagulantes estão sendo estudados como aliados no tratamento para os casos graves da Covid-19.
  • A informação que circulou nas últimas semanas recomendando tomar medicamentos anticoagulantes em casa a fim de evitar complicações causadas pelo novo coronavírus é falsa e seu uso sem orientação médica pode levar à morte. 

A notícia de que Nick Cordero, conhecido por atuar em espetáculos da Broadway e também na TV norte-americana, teve uma das pernas amputadas em meados de abril após semanas internado pelo novo coronavírus chamou a atenção de muita gente, porém não pegou os cientistas de surpresa. O caso apenas reforçou uma suspeita que já vinha sendo observada por médicos de diferentes países desde o início da pandemia: a de que a Covid-19 pode causar a formação incomum de coágulos sanguíneos, especialmente nos pacientes que evoluem para a forma grave da doença, provocando diferentes complicações, como tromboses. Especialistas acreditam que esta pode ser uma das explicações do porquê o SARS-CoV-2, até então classificado como um vírus respiratório, têm afetado também outros órgãos do corpo, como os rins, fígado, coração, cérebro e intestinos. 

Os coágulos sanguíneos são estruturas que se formam naturalmente no corpo (a partir da ativação de uma série de proteínas, enzimas e outros elementos) para impedir a perda de sangue quando surgem ferimentos. No entanto, eles podem também se formar em quantidade excessiva e descontrolada e em lugares inapropriados, como dentro de uma artéria ou de uma veia. Nesses casos, eles bloqueiam o fluxo de sangue em diferentes regiões do corpo e podem causar sérias complicações como embolia pulmonar, ataques cardíacos, acidente vascular cerebral, necessidade de amputação de extremidades, entre outros. Entre os fatores que causam essa desregulação no sistema circulatório estão a presença de placas de gordura em excesso nas artérias, doenças genéticas, câncer e possivelmente também a contaminação pelo novo coronavírus.

Apesar dessas descobertas recentes sobre a doença, os pesquisadores também alertam para que a população não tome remédios anticoagulantes sem recomendação médica. Esses medicamentos podem causar efeitos colaterais indesejados e, se consumidos de forma inadequada, podem causar até mesmo a morte. 

Novas descobertas sobre a Covid-19

Estudos recentes têm demonstrado que muitos pacientes graves internados com Covid-19 apresentam microtrombos (pequenos coágulos sanguíneos formados em veias ou artérias), o que pode estar diretamente relacionado à gravidade e à letalidade da doença. Uma das pesquisas, publicada no final de abril na revista Thrombosis Research, revelou que 31% de 184 pacientes internados pelo novo vírus com pneumonia tinham sangue coagulado de forma anormal, um porcentual que os cientistas consideram “extraordinariamente alto” se comparado com internações por outras causas. 

Outro estudo que chamou a atenção foi publicado também no final de abril na revista The Lancet e avaliou 183 pacientes confirmados com o novo coronavírus em hospitais chineses. Os cientistas analisaram o sistema de coagulação desses voluntários, e identificaram que o grau de ativação dos D-dímeros (fragmentos de proteína resultantes do processo de coagulação sanguínea), era muito mais alto nos pacientes que não sobreviveram do que naqueles que sobreviveram. Além disso, em 71% dos que morreram foram encontrados coágulos.

Dúvidas sobre as causas

Apesar de todos os dados convergirem para uma forte relação do novo coronavírus com a formação microtrombos, cientistas ainda não sabem precisar quais são os mecanismos que levam a isso. Já se sabe que pacientes que desenvolvem a forma grave da Covid-19 costumam ter outras comorbidades e acabam precisando ficar muito tempo imobilizados, o que os tornaria mais vulneráveis à formação de coágulos. Mas somente isso não seria suficiente para explicar as altas taxas registradas.  

Uma das hipóteses discutidas por especialistas é a de que os casos mais graves da Covid-19, que atingem outros órgãos além dos pulmões, seriam resultado de uma resposta exagerada do sistema imunológico ao entrar em contato com o vírus. Esta levaria a uma “tempestade” de citocinas (substâncias naturalmente produzidas para regular a ação imunológica), que em excesso pode causar inflamações que levam à formação de microcoágulos nos vasos sanguíneos. Mais recentemente, novos estudos indicam que, embora ocorra também a tempestade imunológica, o vírus pode atacar diretamente outros órgãos, agravando o quadro. Um deles, publicado na revista The Lancet no final de abril, mostrou que o novo coronavírus tem o potencial de infectar as células do endotélio dos vasos sanguíneos, o que, em teoria, poderia também interferir no processo de coagulação. 

Mudanças no tratamento

Mesmo sem todas as respostas, muitos hospitais já estão estudando reavaliar as diretrizes de tratamento para casos graves da Covid-19, introduzindo e adequando as doses de anticoagulantes aplicadas nos pacientes. No final de março, um artigo publicado por pesquisadores chineses no Journal of Thrombosis and Haemostasis já indicava que o uso da heparina, um anticoagulante de baixo custo, estava associado com uma melhora no prognóstico de casos severos da Covid-19. Aqui no Brasil, um estudo preliminar com 27 pessoas em estado grave internadas no Hospital Sírio-Libanês mostrou que o mesmo medicamento elevou níveis de oxigenação do sangue dos pacientes. Já em um artigo publicado em meados de abril no Journal of the American College of Cardiology e assinado por especialistas de mais de 30 hospitais ao redor do mundo, os pesquisadores concluem que os riscos causados pela doença poderiam justificar o uso preventivo e terapêutico de medicamentos antitrombóticos. 

As notícias são boas. Porém, assim como os demais estudos relacionados a tratamentos para a Covid-19, devem ser vistas com cautela. A informação que circulou nas últimas semanas recomendando tomar medicamentos anticoagulantes em casa a fim de evitar complicações causadas pelo novo coronavírus é falsa. Usar o remédio sem prescrição e acompanhamento médico pode levar a diferentes complicações potencialmente fatais. Até o momento, o que se sabe é que, caso continue apresentando resultados satisfatórios nas pesquisas, estes medicamentos poderão se tornar aliados importantes na busca por um tratamento eficaz contra a Covid-19, se ministrados sob recomendação médica e/ou dentro de um ambiente hospitalar. 

Fontes:

Thrombosis Research. Artigo disponível em:
https://www.thrombosisresearch.com/article/S0049-3848(20)30120-1/pdf

The Lancet. Artigos disponíveis em:
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30628-0/fulltext
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30926-0/fulltext
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30937-5/fulltext

Journal of the American College of Cardiology. Artigo disponível em:
http://www.onlinejacc.org/content/early/2020/04/15/j.jacc.2020.04.031

Journal of Thrombosis and Haemostasis. Artigo disponível em:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jth.14817

Research Gate. Artigo disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/340800310_Heparin_therapy_improving_hypoxia_in_COVID-19_patients_-_a_case_series

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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