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#Verificamos: É falso que idosa filmada em maca foi resgatada viva do necrotério após hospital comunicar morte por Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.maio.2020 | 14h13 |

Circula pelas redes sociais um vídeo de uma idosa deitada sobre um plástico, com máscara, na maca de um hospital. De acordo com a legenda, a mulher foi levada por parentes para o Hospital Abelardo Santos, localizado no distrito de Icoaraci, em Belém (PA). Depois de ser transferida para uma sala, a família teria recebido a informação de que ela havia morrido, possivelmente por Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. O grupo então teria invadido o necrotério, aberto o saco e encontrado a idosa viva, respirando, em seu interior. A filmagem teria ocorrido logo depois desse momento. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“Parentes levam mãe pro Abelardo Santos e levaram ela pra uma sala ai voltaram depois dizendo que ela tinha morrido por provável causa o covid-19, os parentes invadiram o necrotério e abriram o saco e encontraram ela respirando ainda, olha o video… Belém PA”

Legenda de vídeo que, até as 11h de 7 de maio de 2020, tinha mais de 30 mil compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A assessoria de imprensa do governo do Pará, em nota, desmentiu a história que circula pelas redes sociais. A idosa mostrada no vídeo foi atendida pelo Hospital Abelardo Santos, voltado exclusivamente para receber casos de Covid-19, em 4 de maio, em estado grave, mas não resistiu e morreu no dia seguinte – em nenhum momento ela foi “resgatada pela família”. “Na imagem que circula ilegalmente na internet, constata-se o aparato de suporte de transferência entre macas, método comum nos hospitais”, diz o texto. Ou seja, não se trata de um saco plástico usado no necrotério, como diz o post.

Na nota enviada pelo governo do estado, a direção da Santa Casa de Pacaembu – organização social em saúde responsável pela gestão do hospital – explicou a cronologia dos acontecimentos. “A senhora A. V. S. deu entrada na urgência do Abelardo Santos dia 4 à noite, em estado gravíssimo. Recebeu assistência médica adequada pela equipe de plantão. Estava no setor de observação à espera de leito”, informa o texto. Em 5 de maio, no entanto, a saúde da idosa piorou enquanto aguardava a internação. 

Por esse motivo, ela foi transferida para a sala vermelha, destinada aos pacientes em estado crítico. Não resistiu, no entanto, e acabou morrendo no local. “A Direção da Santa Casa de Pacaembu (…) lamenta profundamente o ocorrido e a má utilização da imagem da paciente por pessoas que não respeitaram a dor da família, que está recebendo todo o apoio da instituição”, informa a nota. “A Direção da OS já abriu procedimento interno para identificar o vazamento da imagem da paciente, uma vez que isso é considerado uma atitude antiética, desumana e passível de punição penal.”

Manaus

Outros posts com o vídeo afirmaram que o caso teria ocorrido em Manaus (AM), não em Belém. A informação, no entanto, é falsa. A confusão foi causada pela publicação de uma reportagem no site Portal do Holanda. Em depoimento à página, o cabo da Polícia Militar (PM) Moisés Arancíbia, que atua na capital amazonense, disse que a idosa da gravação seria a sua mãe. Ele afirmou tê-la reconhecido apenas pelo vestido, uma vez que uma máscara cobre o rosto da mulher na gravação. O próprio site desmentiu a história duas horas depois da primeira publicação

Com Covid-19, a mãe do PM está internada desde 24 de abril no Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), em Manaus. Depois de assistir ao vídeo, o cabo invadiu o local. Ele afirmou ao site que, com a ação, sua mãe foi salva, pois teria sido dada como morta. Depois disso, Arancíbia também teria registrado um boletim de ocorrência sobre o caso. A mulher mostrada no vídeo, contudo, não é a mãe do policial, mas a idosa filmada no hospital em Belém, como foi mostrado pela Lupa

A assessoria de imprensa do HUGV afirmou, em nota, que o vídeo com a idosa não foi feito no local. “O Hospital Universitário Getúlio Vargas nega que essa gravação tenha sido feita dentro da unidade, visto que as imagens não correspondem a nenhum local do hospital e a paciente que aparece no vídeo também não está usando a vestimenta obrigatória para todos os pacientes da unidade”, explica o texto. A assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde do Amazonas também disse, em nota, que as imagens não foram gravadas em nenhuma unidade de saúde do estado. 

Atualização incluída às 19h30 de 8 de maio de 2020: Essa matéria foi modificada para incluir informações sobre uma segunda versão desta peça de desinformação, que dizia que o vídeo tinha sido filmado em um hospital em Manaus. 

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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