A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: Mario de Oliveira
Foto: Mario de Oliveira

Lupa na Ciência: Pesquisas descartam relação entre anti-hipertensivos e agravamento de quadros da Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
08.maio.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Conteúdos divulgados nos últimos meses afirmavam que o uso de medicamentos para hipertensão poderia agravar os quadros de Covid-19
  • Estudos recentes indicam que os anti-hipertensivos não aumentam a probabilidade de contrair a doença, nem tornam os efeitos mais graves
  • A hipertensão é considerada um fator de risco para a Covid-19
  • A recomendação das entidades médicas é que os tratamentos com anti-hipertensivos não devem ser interrompidos durante a pandemia

No início de março, espalharam-se pelos celulares e redes sociais mensagens alertando sobre a necessidade de interromper imediatamente tratamentos para hipertensão. A alegação era de que muitos dos remédios adotados nesses casos, como benazepril, captopril e losartana, teriam o potencial de agravar os efeitos do novo coronavírus

A informação preocupou muita gente e logo foi relativizada por profissionais da saúde, que alertaram se tratar apenas de uma suposição. Segundo os especialistas, suspender o tratamento poderia ser muito mais danoso do que mantê-lo durante a pandemia, já que pacientes hipertensos fazem parte do grupo de risco para a Covid-19. Mesmo assim, a dúvida seguiu pairando no ar. Foi somente no início de maio, a partir de uma série de artigos publicados no New England Journal of Medicine, que os cientistas apresentaram dados concretos afastando essa hipótese. Os três estudos não encontraram qualquer evidência de que o uso destes medicamentos estava associado a uma maior propensão a contrair a doença, nem de desenvolver quadros mais graves da Covid-19.

Um desses três estudos, intitulado “Cardiovascular Disease, Drug Therapy, and Mortality in Covid-19” (Doença cardiovascular, terapia com drogas, e mortalidade na Covid-19), foi retirado do ar por ter utilizado dados da empresa Sugisphere. Cientistas levantaram inconsistências na base de dados da empresa, como um número de pacientes australianos incompatível com o total de internações no país, em estudo sobre o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus, publicado na revista The Lancet. Por isso, o NEJM optou por remover esse estudo em 4 de junho. Os outros dois artigos, contudo, não utilizaram dados da Sugisphere e continuam válidos.

A especulação sobre essa possibilidade, que acabou gerando muita desinformação, surgiu quando pesquisadores apontaram que alguns medicamentos amplamente usados para a hipertensão – conhecidos como como inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e bloqueadores dos receptores da angiotensina (BRA) – resultariam em um aumento da expressão da proteína ACE2, que é a “porta de entrada” do novo coronavírus em humanos. O SARS-CoV-2 liga-se a esta proteína, usando-a para penetrar nas células humanas e infectar o indivíduo. Assim, quanto maior a quantidade da ACE2, mais fácil ficaria a replicação do vírus dentro do organismo. Em uma dessas pesquisas, publicada online em março no Journal of Hypertension, os pesquisadores alertaram que esta relação entre a gravidade da Covid-19 e o uso dos medicamentos era apenas uma hipótese, e que eram necessários mais estudos para comprová-la, ou não. 

A partir daí, entidades de saúde norte-americanas (American Heart Association, American College of Cardiology e Heart Failure Society of America) publicaram um comunicado pedindo urgência em estudos que respondessem se medicamentos para controlar a pressão arterial pioravam ou não o quadro de Covid-19. As primeiras respostas começaram a aparecer há poucos dias.

Em um dos estudos, publicado em 1º de maio no New England Journal of Medicine, pesquisadores americanos coletaram dados de 8.910 pacientes internados pela Covid-19 em hospitais da Ásia, da Europa e dos Estados Unidos para avaliar se o risco de morte era maior naqueles hipertensos que faziam uso de medicamentos. A conclusão dos autores foi que idade avançada, doenças cardíacas, tabagismo e outras comorbidades aumentavam a taxa de letalidade. Entretanto, não foi encontrada nenhuma evidência de que usuários de anti-hipertensivos tinham maior probabilidade de falecer. 

Outra pesquisa, realizada na Itália, com um número maior de voluntários, chegou a resultados semelhantes. O grupo de especialistas comparou 6.272 pessoas com diagnóstico confirmado de Covid-19 e outros 30.759 sem diagnóstico. Em todos eles, dados como idade, sexo, histórico clínico e uso de medicamentos foram coletados. Ao cruzar as informações, os pesquisadores identificaram que o uso de anti-hipertensivos era mais comum entre os que haviam testado positivo para o novo coronavírus (já que as doenças cardiovasculares são fator de risco para a doença), porém não encontraram evidência de que esses medicamentos aumentavam o risco de contrair o vírus ou desenvolver quadros graves da Covid-19. 

Já para avaliar se algum dos cinco medicamentos mais comuns usados por hipertensos interferiam na gravidade da doença, pesquisadores da Escola Grossman de Medicina, da Universidade de Nova York (NYU), nos Estados Unidos, analisaram os resultados de 12.594 pacientes que realizaram o teste para a Covid-19, verificando quantos tinham histórico de hipertensão, qual remédio usavam, quantos testaram positivo para o novo coronavírus e quantos desenvolveram quadros graves da doença. Ao cruzar os dados, concluíram que não havia relação entre as drogas e a maior propensão de contrair a doença, tampouco notaram uma maior probabilidade de desenvolver um quadro grave da infecção naqueles que faziam uso de qualquer um dos medicamentos. 

Analisando os resultados dos três artigos e de outros que analisaram grupos menores, realizados na China e Reino Unido, especialistas apontaram, em uma carta publicada na mesma revista, que todos convergem para uma mesma conclusão: a de que o uso dos anti-hipertensivos não prejudica o quadro de pacientes com a Covid-19, nem aumenta a probabilidade de contrair a doença.  Eles ressaltam, entretanto, que todos os estudos são de caráter observacional e podem estar sujeitos a equívocos, mas que já são suficientes para reforçar a orientação das entidades médicas de não recomendar a suspensão do uso dos medicamentos por causa da atual pandemia. 

Atualização no dia 9 de junho, às 16h: Matéria atualizada para incluir informações sobre a remoção de um dos estudos, “Cardiovascular Disease, Drug Therapy, and Mortality in Covid-19”, do periódico New England Journal of Medicine, por suspeitas envolvendo a base de dados utilizada.

Fontes:

Journal of Hypertension. Artigo disponível em:

https://journals.lww.com/jhypertension/Fulltext/2020/05000/Can_angiotensin_receptor_blocking_drugs_perhaps_be.2.aspx

American College of Cardiology

https://www.acc.org/latest-in-cardiology/articles/2020/03/17/08/59/hfsa-acc-aha-statement-addresses-concerns-re-using-raas-antagonists-in-covid-19

New England Journal of Medicine. Artigos disponíveis em:

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMe2012924?query=RP

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2007621?query=C19&cid=DM91174_NEJM_Registered_Users_and_InActive&bid=190732568

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2008975?query=RP

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2006923?query=RP

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo