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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Lupa na Ciência: Especialistas desaconselham implementar ‘passaporte da imunidade’ para a Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
11.maio.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Países avaliam a possibilidade de criar um “passaporte imunológico” para liberar quem já se recuperou da Covid-19 a voltar a circular
  • Organização Mundial da Saúde afirma que ainda não se sabe se uma pessoa desenvolve imunidade ao vírus, nem por quanto tempo
  • Pesquisa chinesa indicou a presença de anticorpos em pacientes recuperados, porém sem precisar a funcionalidade dos mesmos, nem o tempo que permanecem ativos no corpo
  • Estudos especulam que o tempo de duração da imunidade ao SARS-Cov-2 pode ser semelhante ao de outros coronavírus, que é de cerca de dois anos
  • Revistas científicas alertam que é preciso estudar mais a resposta imunológica ao novo coronavírus e aprimorar os exames de detecção antes de implementar o “passaporte de imunidade”
  • Questões sociais que envolvem o tema, como uma possível segmentação social, também são debatidas por especialistas, que pedem cautela 

Até pouco tempo desconhecida pela população, a expressão “passaporte de imunidade” começou a ganhar os noticiários nas últimas semanas. Autoridades de alguns países, como Chile, Itália e Reino Unido, aventaram essa ideia como uma medida para flexibilizar a quarentena sem aumentar a propagação do novo coronavírus. A proposta parece simples, e consiste em testar a população para verificar quem já teve o SARS-Cov-2, e, em tese, estaria imune ao vírus, para então conceder a essa pessoa um documento de identificação, como um passaporte, que a permita voltar a circular. Mas sua implementação enfrenta vários desafios e riscos.

 Enquanto uma parte dos especialistas debate quais seriam as implicações sociais desta medida, a outra alerta: ainda se sabe muito pouco sobre a resposta imunológica ao novo coronavírus, e ela pode ser mais complexa do que se imagina. A Lupa reuniu alguns os principais artigos já publicados sobre o assunto para verificar o que já se sabe e quais são as dúvidas remanescentes sobre o tema.

Anticorpos não são sinônimo de imunidade

No final de abril, um estudo feito em 285 pacientes chineses com a Covid-19 apontou que 100% deles apresentou resultado positivo para anticorpos contra a doença até 19 dias após os sintomas iniciais. A pesquisa, publicada na Nature Medicine, deixou muita gente animada. Contudo, poucos dias depois, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que ter anticorpos para o vírus não significa estar imune a ele, deixando muita gente confusa. 

Acontece que nosso sistema imunológico é complexo. O desenvolvimento de imunidade a um determinado inimigo depende de vários fatores. Quando um vírus, bactéria ou outro patógeno (organismo capaz de produzir doenças infecciosas) entra no corpo, nosso organismo reage em duas etapas principais. A primeira, chamada imunidade inata, é mais geral e começa a agir de forma rápida, tentando conter a propagação do corpo estranho assim que o organismo percebe que há algo de errado acontecendo. Mas nem sempre ela dá conta do recado. E é aí que entra o segundo tipo de resposta, responsável por criar nossa memória imunológica. 

Essa é a chamada imunidade adaptativa, composta por uma série de anticorpos  chamados imunoglobulinas, que cumprem diferentes funções bem específicas, como identificar o atual patógeno, neutralizá-lo e destruí-lo, além de recrutar outros componentes para o combate. Ela consegue enfrentar de forma eficaz o inimigo quando ele está solto no organismo. Porém, quando o vírus já está dentro de uma célula, os anticorpos não o percebem. Por isso, mais um componente é necessário nessa guerra. É a resposta adaptativa celular, formada pelos linfócitos T, um tipo especial de células que permite ao corpo reconhecer outras células que estão infectadas e matá-las.

Todos esses tipos de resposta são importantes para um sistema imunológico saudável e funcional, e ainda não se sabe exatamente quais são ativados, nem em qual quantidade, quando o novo coronavírus entra no corpo. Na pesquisa chinesa, os próprios autores destacaram que o estudo tinha limitações, como não avaliar o poder nem o tempo de neutralização dos anticorpos identificados. Além disso, um estudo preliminar (ainda não revisado e aprovado para publicação) realizado por pesquisadores do Centro Clínico de Saúde Pública de Shanghai, na China, e disponibilizado na plataforma Medrxiv em meados de abril, indicou que nem todos contaminados com a Covid-19 que tiveram sintomas leves da doença desenvolveram anticorpos detectáveis contra o vírus.

Para completar, estudos sobre os linfócitos T, que podem desenvolver um papel fundamental na imunidade à Covid-19, são praticamente inexistentes. 

Duração da imunidade ainda é especulativa

A duração da imunidade de um organismo a uma determinada infecção varia de acordo com o patógeno   e, em relação ao SARS-CoV-2, ela ainda é uma incógnita. Junto com toda aquela cascata de reações que o corpo produz quando é invadido por um inimigo, ele ainda cria células capazes de memorizar o anticorpo utilizado no combate ao intruso. Essas são chamadas de células de memória, e ficam guardadas para, se o organismo for atacado novamente pelo mesmo invasor, a resposta imune ser muito mais rápida e eficaz. 

Em alguns casos, como por exemplo com o vírus da catapora, a memória fica presente para o resto da vida, impedindo uma segunda reinfecção. Para os outros tipos de patógenos, a imunidade é apenas temporária. No caso de outros coronavírus, um artigo publicado no Journal of Microbiology, Immunology, and Infection aponta que eles resistem por cerca de dois anos, deixando a pessoa vulnerável a uma segunda infecção ao longo do tempo. Pela sua similaridade com o SARS-CoV-2, os especialistas indicam isso pode valer também para o da atual pandemia. 

É preciso saber mais sobre a taxa de mutação do novo vírus 

E como se tudo isso não bastasse, para determinar o tempo que ficamos imunes a um inimigo é preciso avaliar ainda velocidade com o que o patógeno pode sofrer mudanças. Em alguns casos, como o da gripe comum, as mutações são tão rápidas que todo ano temos que tomar vacina porque os vírus já estão tão diferentes que nosso corpo não os reconhece mais. Em relação ao SARS-CoV-2, ainda se sabe pouco sobre este comportamento. Uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto, feita pela University College London, na Inglaterra, identificou 198 mutações no novo coronavírus que parecem ter ocorrido de maneira independente em diversas partes do mundo. Publicado no início de maio no periódico Infection, Genetics and Evolution, o estudo afirma que esta descoberta pode dar mais pistas sobre como o microrganismo está se adaptando. Contudo, é necessário aprofundar as pesquisas sobre as implicações dessas mutações. 

Testagem ainda não é 100% confiável

Frente a todas essas questões, e aos recentes discursos incentivando a implementação do “passaporte de imunidade”, duas das principais revistas médicas internacionais publicaram artigos se posicionando sobre o tema na última semana. Tanto a britânica The Lancet como a americana The Journal of the American Medical Association (JAMA) demonstram cautela com a ideia, indicando que o entendimento científico da imunidade à SARS-CoV-2 ainda é bastante rudimentar para que uma medida como essa seja efetiva. 

De acordo com a publicação americana, um dos problemas é a disponibilidade e confiabilidade dos testes que medem anticorpos contra o novo coronavírus. Os autores alertam que muitos estão disponíveis e sendo comercializados sem aprovação prévia, podendo indicar erroneamente que alguém está protegido, quando ainda está vulnerável a contrair o vírus e contaminar outras pessoas. 

Já a publicação britânica argumenta, entre outras questões, que ainda não se sabe o quão imune uma pessoa fica ao novo coronavírus após desenvolver sintomas leves.  Além disso, a revista traz argumentos de cunho social, propondo um debate sobre a possibilidade de o passaporte imunológico criar um estigma, impondo liberdades e restrições artificiais para as pessoas. O texto pontua que a medida pode também incentivar a que alguns contraiam a doença para poder sair e trabalhar, em particular nos grupos economicamente mais vulneráveis. A posição oficial da OMS é semelhante, e destaca que ainda não há evidências científicas comprovando que uma pessoa que contrai a Covid-19 e cria anticorpos está protegida de uma segunda infecção pelo mesmo vírus. 

Fontes:

MedRxiv. Artigo disponível em:
https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.03.30.20047365v2

Organização Mundial da Saúde. Documento disponível em:
https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/immunity-passports-in-the-context-of-covid-19

The Journal of the American Medical Association (JAMA). Artigo disponível em:
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2765835

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31034-5/fulltext

Nature. Arquivo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41591-020-0897-1

Infection, Genetics and Evolution, Arquivo disponível em:
https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S1567134820301829

Journal of Microbiology, Immunology, and Infection. Artigo disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7141458/

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés

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