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#Verificamos: Vídeo que mostra ‘hospitais vazios’ em São Paulo distorce realidade de estabelecimentos de saúde

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
13.maio.2020 | 12h41 |

Circula pelas redes sociais um vídeo em que um homem grava a entrada de quatro unidades de saúde do município de São Paulo: o Centro Clínico Rebouças, o Hospital Santa Catarina, o Hospital IGESP e o BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, todos com atendimento particular ou via plano de saúde. Com o título “como estão os hospitais na maior cidade do Brasil – epidemia ou mídia?”, ele conversa com funcionários e apresenta recepções com pouco movimento, reiterando que não há pacientes nos locais visitados. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

 “Cidadão de São Paulo foi checar pessoalmente: epidemia ou mídia inflando o pânico? Encontrou todos os hospitais vazios”
Vídeo publicado no Facebook que, até as 12h do dia 13 de maio, tinha sido compartilhado por mais de 3,5 mil pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Os hospitais mostrados no vídeo não estão vazios. Nas quatro unidades, pacientes com o novo coronavírus estão internados em locais que não são mostrados nas imagens. A recepção desses estabelecimentos está vazia principalmente porque pacientes estão sendo orientados a não realizar consultas eletivas. Em abril, a Lupa publicou uma reportagem mostrando que vídeos desse tipo estão sendo usados para minimizar a gravidade da epidemia.

No Hospital Santa Catarina há uma Unidade Respiratória Integrada que identifica casos suspeitos já na entrada do Pronto Atendimento e encaminha para atendimento exclusivo em outro andar. “Além disso, as visitas, consultas e cirurgias eletivas foram limitadas, canceladas ou reagendadas, em conformidade com as recomendações do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o que diminuiu muito o número de pessoas presentes na porta do Hospital”, informa a assessoria de imprensa. Em nota, o hospital informa que as imagens captadas não dão a dimensão real do atendimento de pacientes com Covid-19.  Desde o início da pandemia, 639 pacientes com suspeita da doença foram internados na unidade. Desses, 360 testaram positivo e, até o momento, 279 receberam alta. 

A assessoria de imprensa do Hospital IGESP também  reforça que as imagens apresentadas “não correspondem à realidade”. Na unidade, o atendimento a pacientes com coronavírus acontece em área separada do pronto socorro. “Nossa equipe de profissionais trabalha diariamente no atendimento de dezenas de pacientes com suspeita de Covid-19, seguindo todas as recomendações da OMS [Organização Mundial da Saúde] e do MS [Ministério da Saúde] e, portanto, não há fundamentação no conteúdo desse material”, informa.

Já o hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo estabeleceu um fluxo específico para os pacientes que procuram o pronto-socorro apresentando problemas respiratórios, separando-os dos demais. Em nota assinada pelo diretor-executivo Médico, Luiz Bettarello, a medida segue as orientações da Organização Mundial da Saúde, que sugere que pessoas que manifestem sintomas leves de Covid permaneçam em casa. 

“Portanto, imagens de fachadas ou mesmo de partes das recepções de um pronto-socorro não podem ser usadas para inferir o status de uma pandemia em determinada localidade, pois a simples ausência ou presença de pacientes nesses locais não refletem a totalidade de esforços que as instituições de saúde têm empregado para o enfrentamento dessa doença”, diz.

Em nota, a assessoria de imprensa do Grupo NotreDame Intermédica, administradora do  Centro Clínico Rebouças 1 informa que o local mostrado é uma unidade ambulatorial e de pronto atendimento. No vídeo, o Centro aparece com a fachada “Hospital e Pronto Socorro Itamaraty”. Durante a pandemia, a unidade tem como prioridade o atendimento de síndromes gripais, mas a orientação do Grupo Notre Dame é que os beneficiários se dirijam ao atendimento físico somente se houver sintomas mais graves da doença, o que diminui o contato e a disseminação. “O baixo movimento se deve às recomendações dos órgãos reguladores e públicos de não serem realizadas consultas eletivas neste momento”, diz a assessoria. Também a opção de acesso ao atendimento online – telemedicina – diminui o número de pacientes no pronto socorro. 

Até o fim do dia 08 de maio, um dia antes da publicação do vídeo, 27.414 casos de coronavírus estavam confirmados no município de São Paulo. Dados do Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe mostram que havia, também 2.242 mortes pela doença, de um total de 4.874 casos suspeitos. No dia 9 de maio, quando o vídeo foi publicado, 697 pacientes estavam internados nos hospitais de campanha e 687 com quadro respiratório nos hospitais municipais.

Recepções vazias, leitos cheios 

Durante a epidemia de coronavírus, tem sido comum encontrar hospitais com a recepção e o pronto socorro com menor fluxo de atendimento, principalmente os particulares. Isto acontece porque, de acordo com orientação do Ministério da Saúde, os pacientes com problemas respiratórios e outros sintomas de Covid-19 devem procurar as unidades da rede básica de atendimento, como as Unidades Básicas de Saúde. No caso do município de São Paulo, outros cinco Centro de Triagem e Atendimento a Suspeitos de Coronavírus são indicados para a triagem inicial, o que diminui o fluxo nas demais unidades.

Além disso, o trabalho de verificação de outras peças de desinformação feito pela Lupa mostra que parte das unidades que atendem casos de Covid-19 recebem somente transferências de pacientes com o novo coronavírus dos centros de triagem. Ou seja, as pessoas não se dirigem às recepções desses hospitais. Os centros de referência e atenção especializada recebem casos quando é caracterizada síndrome gripal com presença de dispneia ou outros sintomas graves que indicam a doença.

Nota: esta reportagem faz parte do projeto de verificação de notícias no Facebook. Dúvidas sobre o projeto? Entre em contato direto com o Facebook.

Editado por: Chico Marés

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